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Mot clé ESSAI_CISA_DR_C_D

O primeiro desafio da viagem é descer ao porto em Selêucia, distante trinta quilômetros de Antioquia, e se dirigir para Chipre, pátria de Barnabé, uma ilha importante por sua posição estratégica entre a Grécia e o Oriente Médio, célebre pelas minas de cobre, pela produção do trigo, pelos cereais produzidos na planície central, assim como pela viticultura e famoso vinho na antiguidade. Duas cadeias de montanhas, que atravessam paralelas em seu comprimento de leste a oeste, criam no centro uma vasta planície chamada Messaria (FABRIS, 2001, p. 199). Foi conquistada pelos romanos em 58 a.C. e, no ano 22 a.C., tornou-se província senatorial romana. Tal ilha abrigou alguns judeus-cristãos helenistas expulsos de Jerusalém depois da morte de Estevão.

Barnabé e Paulo partiram do porto de Selêucia e desembarcaram em Salamina, onde se encontra o porto oriental da ilha. O texto sugere que João Marcos estava como auxiliar, “u`phre,thn”. Essa tarefa era de assistente, responsável pela organização logística da viagem e pelas necessidades alimentares do grupo. Os missionários iniciaram sua atividade nos dois principais centros da ilha: Salamina, situada na costa norte oriental, e logo depois foram para Pafos, no sudoeste do país.

Ao desembarcarem em Salamina, após uma navegação de aproximadamente 95 km, Lucas lembra que Barnabé e Paulo começaram a anunciar o evangelho nas sinagogas dos judeus (13.5). Após terem atravessado toda a ilha. “Dielqo,ntej de. o[lhn th.n nh/son”, chegaram a Pafos, na costa ocidental. Os missionários percorrem quase toda a parte meridional da ilha, onde uma estrada liga os centros maiores: Kition, Amathus e Kórion. Eles até poderiam ter ido por mar, em uma pequena embarcação ao longo da costa, mas o autor afirma que eles atravessaram toda a ilha até Pafos (FABRIS, 2001, p. 201).

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Lucas relata o encontro dos missionários com certo mago que estava com o procônsul da ilha, o senador Sérgio Paulo4. Essa função caracteriza o representante da organização imperial e da sabedoria grega (procônsul e homem inteligente: v. 7). De acordo com o costume de seus colegas, ele com certeza mantinha ao seu redor um círculo de poetas, filósofos, magos e médicos (WILDHABER, 1987, p. 31). Tudo que é conhecido sobre o procônsul Sérgio Paulo é o que Lucas diz no texto, embora tenham sido encontradas algumas inscrições que podem se referir a ele (WILLIAMS, 1985, p. 215-216).

A confrontação com o mago é o primeiro obstáculo que o evangelho encontra e o que é mais significativo e está em jogo é a conversão de um funcionário do poder romano. Duas culturas são aqui confrontadas: de um lado, a magia e, do outro, a pregação de Paulo. O autor de Atos descreve o choque dos dois evangelizadores com o “mago e falso profeta” Bar-Jesus, “filho de Jesus”, identificado como Elimas, um judeu que procura afastar o procônsul Sérgio Paulo da palavra de Deus que Barnabé e Paulo lhe anunciam (13.4-12). O segundo momento da missão é o mais importante. No relato a ele referente se encontram vários elementos em comum com o episódio de Felipe e Simão, o Mago, em Samaria, mostrando que as práticas mágicas de cunho judaico eram muito difundidas. Dificilmente se pode aceitar que Bar-Jesus estivesse a serviço da autoridade romana, tampouco que se opusesse à pregação cristã por medo de perder seu papel de conselheiro do procônsul, consultado por ele nas suas decisões políticas e administrativas (ROLLOF, 1984, p. 265). Lucas descreve o prestigio social daqueles que acolhem o evangelho, dizendo que o procônsul era sunetw/| (inteligente) e que o próprio mandou chamar Barnabé e Saulo para ouvir a Palavra de Deus (At 13.7). O texto informa que Elimas, o mágico, procurava desviar o procônsul de sua fé.

É em Atos 13.9 que pela primeira vez aparece o nome de Paulo: “Saulo, também chamado Paulo”. Percebemos a identidade de Paulo sendo explicitamente impressa. Os relatos de Atos 7.58; 8.1; 13.9 e outras passagens em que o nome de Paulo era originalmente Saulo não são improváveis, uma vez que os judeus da diáspora muitas vezes escolhiam um nome grego ou romano com semelhante ao nome hebraico

4 Não há muitas informações sobre esse personagem, além do título protocolar sempre preciso de Lucas. O

nome de um procônsul Paulus aparece em algumas inscrições encontradas em Soli, na costa da Cilícia, diante da ilha de Chipre. Um Lucius Sérgius Paulus faz parte dos cinco curadores das margens e dos reparos do Tibre na época de Cláudio. O nome aparece também numa inscrição de Antioquia da Pisídia, em 55 d.C., mas nenhuma dessas inscrições concorda com a cronologia da viagem e da visita de Paulo a Pafos (BOFFO, 1994, p. 242-246).

(KOESTER, 2005, p. 114). Paulo era também o nome do procônsul. Isso leva a especulações, embora sem base, sobre se Saulo adotou esse nome em homenagem ao procônsul (RIUS-CAMPS, 1984, p. 46). Era costume que todo romano tivesse, pelo menos, três nomes: o seu mesmo, o de seu clã e o nome de sua família (HARRER, 1940, p. 19-34). Os pais, com frequência, utilizavam um “apelido”, chamado signum, usado pela família e amigos. Nesse caso em particular, Paulo era seu nome romano e de família, e Saulo parece ter sido o signum que lhe foi dado em homenagem ao antigo rei da tribo de Benjamim (que também era da tribo de Paulo). Porém, nada é conhecido de seus outros nomes. Saulo era, assim, empregado entre os judeus e amigos, e Paulo era o nome entre os gentios. A utilização de Paulo em seu primeiro contato com os gentios inaugura a nova nomenclatura usada pelo missionário ao escrever suas epístolas. O missionário levará esse nome até o fim dos Atos. A mudança coincide com a liderança de Paulo na missão. Provavelmente Lucas chama Paulo com seu nome gentio quando ele começa a missão entre os gentios, trazendo, assim, identidade à missão entre eles.

A narrativa prossegue com o confronto de Paulo, cheio do Espírito Santo, com o mago Elimas/Bar-Jesus. O missionário contrasta o nome de Bar-Jesus, classificando-o como “filho do diabo” (13.10). Encontramos uma contraposição e um jogo de palavras, muito presente em toda a narrativa. Existem inúmeras discussões a respeito do seu outro nome, “Elimas”, pois ele não é conhecido no grego (GONZÁLEZ, 2001, p. 190). Yaure (1960) informa que um manuscrito antigo traz “Etoimus”, e isso levou a conjecturas tentando identifica-lo com outro mago conhecido, também um judeu de Chipre, cujo nome era “Atomus”. Josefo menciona em Ant 20.7.2. As palavras de Lucas, “Elimas (pois essa é a tradução de seu nome)”, não podem ser entendidas como sendo uma tradução de “Bar-Jesus”. Alguns sugerem que, antes, é a tradução de “mago” na língua da região (YAURE, 1960, p. 297-314).

A reação de Bar-Jesus contra Barnabé e Paulo se refere ao fato de que ele percebe que o anúncio do evangelho coloca em perigo o seu poder mágico e a sua influência sobre os habitantes da ilha. Dessa forma, o evangelista evidencia a incompatibilidade entre e a fé cristã e as práticas mágicas. Na narrativa, o autor de Atos faz uma apresentação antitética dos personagens. De um lado, encontramos Paulo, que está “repleto do Espírito Santo” (v. 9) e que claramente se sobressai a Barnabé. Do outro, temos o mago “repleto de toda falsidade e malícia, inimigo de toda justiça” (v.10). Ele é confrontado por Paulo, que mostra a perversidade dos seus caminhos e pronuncia sobre ele o julgamento de Deus.

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O castigo da cegueira com “obscuridade e trevas” (v.11), opondo-se ao avanço da missão, pode ter um sentido simbólico, destacando que todos os magos são pessoas cegas, vítimas de uma cultura grudada ao passado e basicamente impostores. Hans-Josef Klauck defendeu a tese que Elimas era um astrólogo que pertencia à corte do procônsul (At 13.7) (KLAUCK, 1996, p. 64).

A narrativa vai delineando o mago Elimas: um falso profeta (v. 6b), o que o coloca logo entre os inimigos de Deus, ao passo em que Paulo é designado como o profeta verdadeiro. Ela ainda traça outras características: Elimas é judeu (v. 6), na realidade esse “filho de Jesus” (sentido etimológico de Barihsou) é filho do diabo (ui`e. diabo,lou v. 10) e, como o mago Simão, ele trai o Deus dos seus antepassados, pondo obstaculos ao plano de salvação, pois procura afastar o procônsul da fé. Dois verbos de resistência – avnqi,stato (opunha) e diastre,yai (desviar) – deixam claro tal afirmação e demostram o seu próprio poder como rival do evangelho. O texto deixa claro que o apóstolo vai superar o mago em poder (TOSCO, 1989, p. 48).

O texto prossegue com imprecações dos profetas: o homem é xingado de filho do diabo, inimigo da justiça, falsificador dos caminhos do Senhor (v. 10). O anúncio “eis a mão do Senhor contra ti” (v. 11) recebe da Septuginta a sua ressonância ameaçadora, pois lembra a mão estendida, designando um castigo. A narrativa esclarece que o que provocou essa enxurrada de maldições contra Bar-Jesus foi a sua oposição aos mensageiros do evangelho. Em face dos desígnos de Deus, o mago não tem mais qualquer chance. O narrador o descreve como repentinamente engolido pelas trevas e girando à procura de um guia. O castigo não poderia ser mais simbólico, atingindo àquele que imita o nome de Jesus, mas se opõe a ele (MARGUERAT, 2003, p. 151). Ao final da narrativa, é claro que o procônsul ficou maravilhado com a doutrina do Senhor. A intenção do autor é esvaziar o milagre e apontar para o querigma, base da finalidade missionária. Christine Prieto afirma sutilmente:

A fim de que o cristianismo não seja considerado simplesmente uma magia mais poderosa do que as até então conhecidas, e sim, sobretudo, uma forma válida em si mesma e por si mesma, Lucas toma o cuidado de esvaziar o milagre (...) e de dirigir a atenção para o querigma, que continua a ser a base e a finalidade de toda a ação (PRIETO, 1998, p. 33).

Em Chipre, com sua palavra eficaz Paulo frusta as manobras do mago. A cegueira repentina e, por sorte, temporária de Bar-Jesus Elimas é uma espécie de parábola

dramatizada (FABRIS, 2001, p. 203). A narrativa elucida que o mago evzh,tei ceiragwgou,j (procurava guias). Tal como acontecera ao próprio Paulo quando perseguia os discípulos de Jesus, assim também o mago judeu, que se opõe à luz do evangelho, cai na escruridão. Paulo, no caminho de Damasco, cegado pela luz, não enxergava nada e foi conduzido pela mão – ceiragwgou/ntej (At 9.8b). Da mesma forma, Elimas não é capaz de se mover sozinho. Lucas ressalta a superioridade da palavra do evangelho sobre as falsas profecias dos magos. O procônsul fica tão impressionado com o fato que adere imediatamente ao anúncio cristão feito por Paulo. O autor termina a narrativa com o ápice da cena (v. 12): “ao ver o que acontecera, o procônsul abraçou a fé, pois ficara impressionado com a doutrina do Senhor”. A ação simbólica de Paulo gera a conversão do procônsul. A missão de Chipre é misteriosa, mas a sua função é clara: estabelecer, por meio de um incidente concreto, a superioridade do Paulo (PERVO, 2008, p. 126).

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