Se comparado a outras unidades de Oxford, nos anos finais do século XIX, pode-se afirmar que o Ashmolean Museum passou por momentos críticos, com perdas significativas relativas a suas coleções. Não apenas pela falta de habilidade de seus curadores, mas também pela dificuldade em redefinir a razão de ser da instituição, o referido museu enfrentou uma crise de identidade! Temendo pelo seu fim, o Ashmolean começou a mobilizar esforços para estabelecer uma nova identidade (MacGregor, 2001a, p. 54).
É interessante notar que as crises de identidade em museus e coleções universitárias não são uma novidade do século XX, tampouco da modernidade líquida, ou mesmo uma decorrência dos choques de gestão causados por políticas econômicas liberais, que retiraram o suporte a muitas universidades e museus. Percebemos, examinando a própria trajetória do Ashmolean, que a gestão das políticas curatoriais e acadêmicas forçavam os curadores a
mudar o rumo ou a política curatorial de suas unidades acadêmicas (museus ou coleções departamentais, galerias ou gabinetes sob a tutela universitária).
A história do Ashmolean Museum, narrada por MacGregor (2001a), é perpassada por tensões, desavenças e disputas entre conservadores, doadores e curadores. Nos anos finais do século XIX, o museu ficou a cargo de conservadores muito experientes, porém muito idosos ou incapacitados. Por motivos de saúde ou de ambição em relação a escavações e estudos longe do museu, esses conservadores foram, em larga medida, ausentes. As coleções sofreram as consequências das más gestões, como condições ruins tanto no que se referia à preservação das peças quanto no que se relacionava à atratividade das exposições. (MacGregor, 2001a, p. 55).
Também houve desacordo em relação que rumo tomar quanto à identidade do Ashmolean. Alguns conservadores e estudiosos achavam que as coleções de etnografia indígenas deveriam ter valor equivalente ao das de origem greco-romana, ou Antiguidade Clássica Ocidental. Outros negavam essa equivalência veementemente, relegando as coleções etnográficas a cargo do Pitt Rivers Musem. O fato é que o Ashmolean oscilou entre ser um museu de “antiguidades arqueológicas” e consistir em um repositório de outras coleções, tais como as de numismática e de pintura. E isso se dava eventualmente, quando algum conservador conseguia recuperá-las da Bodleian Library ou da Art Galleries, ou mesmo do Pitt Rivers Museum. Até o início do século XX, a organização das reservas das coleções, a natureza destas últimas e o modo de exposição e visitação estiveram em constante mudança, ou seja, seguindo os critérios de erudição, influência política e pessoal de seus conservadores no que se referia à conquista de boas doações e a empréstimos de coleções de outras unidades da Universidade de Oxford. Enfim, em 1908, as coleções foram unidas, e a identidade do Ashmolean passou a ser a de um museu de Arte e Arqueologia, isto é, conforme seu nome indicava − Ashmolean Museum of Art and Acheaology (MacGregor, 2001a, p. 59)
Até esse período da história do primeiro Museu Universitário do Ocidente, é possível fazermos inferências com base na literatura anteriormente citada. No que diz respeito à gestão das coleções, muitas vezes ocorreu de acordo com as exigências feitas pelos doadores e benfeitores do museu. Ora as doações consistiam em coleções, ora em quantias de dinheiro que poderiam, ou não, vir junto com os conjuntos de peças doados e/ou antes destes últimos. Havia, também, a interferência do jogo de forças entre as unidades acadêmicas de Oxford e a organização das disciplinas. Gradativamente, constituíam-se a mineralogia e a geologia; o prestígio da arqueologia como área de saber crescia de forma vertiginosa, assim como a
demonstração do poder político colonialista (principalmente após o início do século XX e, de maneira, mais acentuada, no período entreguerras).
Tensões, contendas e discordâncias entre curadores de coleções artísticas e etnográficas e de outros atores professores/curadores eram frequentes e aconteciam simultaneamente ao desenvolvimento das disciplinas acadêmicas. O espaço físico era disputado “palmo a palmo”; o dinheiro, o tempo e o pessoal, dentro da estrutura acadêmica (elementos fundamentais para a produção de conhecimento universitário) tornaram-se alvos de verdadeiros embates. Lembramos aqui a posição de Diamond (2000, p. 95) quanto à possibilidade de os atores da rede heterogênea ou socieotécnica que formam os laboratórios, museus, e, em uma escala maior, a própria universidade, verem determinadas políticas acadêmicas ou curatoriais, em museus e coleções universitárias, como “competidoras” que, por assim dizer, “drenavam” ou “sugavam” os atores não humanos de outras redes, ou os recursos de projetos de investigação pessoal ou de grupos não ligados aos museus e coleções. Esse movimento de “competição por recursos e prestígio, no interior das instituições acadêmicas” (Diamond 2000, p. 95), interferiu decisivamente na formulação das políticas universitárias e fez parte, também, da práxis intelectual moderna de constante atualização dos meios de produção de conhecimento.
Enfim, na segunda metade de século XX, as transformações mundiais acarretadas pelas consequências da Segunda Guerra Mundial − como a bipolaridade político-ideológica, a progressiva descolonização das áreas ocupadas pelas antigas potências imperialistas e, ao mesmo tempo, a eclosão das questões éticas quanto à origem das coleções – resultaram em formas originais de administração acadêmica e modos novos de gestão de coleções. As novas estratégias administrativas, mais ligadas aos departamentos, foram sendo organizadas no interior da própria universidade, com base nas modificações ocorridas no ensino, na investigação e nas questões de política de gestão acadêmica. Somadas aos aspectos anteriores, as constantes atualizações determinadas pela práxis intelectual moderna coincidiram com a queda da quantidade e da frequência das doações. Também houve cortes nos orçamentos universitários, principalmente naqueles de origem governamental. O próprio museu, como instituição ao serviço da sociedade, recebeu duras críticas, e os empregos com maior status passaram aos departamentos universitários, para onde muitos profissionais treinados, inicialmente nos museus, transferiram seus vínculos, principalmente na área da Antropologia (Shelton, 2006, p. 72).
Eis, então, que a crise dos Museus Universitários se instala, tal como hoje podemos observá-la retrospectivamente. Se tomarmos o caso do Museu Ashmolean como exemplar,
será possível inferir que existia uma situação de crise crônica. É visível o vínculo tenso entre poder/conhecimento e poder econômico/prestígio. Nem sempre, nos meios acadêmicos, esses binômios aparecem em harmonia; entretanto, a presença de tais pares caracterizou a formação de um espaço ou esfera social burgueses (Cf. Bennett, 1995; Knell, 2007). Também a universidade e o museu são espaços que podem ser assim qualificados.
Autores, como Foucault (1984), Hooper-Greenhill (1989, 1990, 2003), Pearce (1992, 1995), Knell, (2007) e Bennett (1995) discutiram a construção de uma instituição moderna, o museu, conforme os mais diversos pontos de vista e abordagens teóricas. Podemos dizer que o museu moderno sólido é constituído por práticas sociais que envolvem aspectos políticos, epistemológicos, de prestígio social e poder econômico. E concordamos com Knell et al. (2007), quando afirmam que a instituição museal se transformou ao longo da história, mais por intermédio de revoluções do que mediante evoluções. As rupturas estão mais presentes do que as continuidades. Isso ocorreu em razão de mudanças nas filosofias e políticas de gestão e também em decorrência de revoluções científicas (Kuhn, 1998). Museus e universidade são instituições que produzem conhecimento científico. Com efeito, desde que Thommas Kuhn tornou público seu trabalho, em 1962, a gestão e a curadoria (práxis intelectuais) foram, aos trancos e barrancos, passando por uma mistura de rupturas e continuidades, devido ao fato de serem responsáveis por produzir cânones e por conservá-los, em uma eterna tensão entre a manutenção ou conservação das tradições representadas pelos objetos e as contantes modificações nas epistemologias, ou seja, na práxis intelectual moderna sólida.44
Os Museus Universitários europeus, apresentados até agora, por meio da figura e da história do Ashmolean Museum, atravessaram mais crises do que momentos de estabilidade. A cada mudança, a cada passo na direção da “modernização”, da “racionalização” dos procedimentos, filosofias e políticas adotadas nas sucessivas gestões, tanto na Universidade de Oxford quanto nas outras unidades acadêmicas dessa instituição, observam-se movimentos de contestação a uma Museologia “normal” − para tomar de empréstimo o termo de Kuhn (1998) e a tentativa de ruptura com a práxis anterior. Portanto, lançamos uma questão: como datar uma crise dos Museus Universitários se a própria história de seu mais antigo e prestigioso museu foi marcada por rupturas, tensões, revoluções e crises identitárias?
Uma hipótese pode ser lançada: nas décadas finais do século XX, os especialistas em museus, investigadores-curadores/professores se deram conta de que algo precisaria ser feito
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De acordo com o termo elaborado por Foucault (1974, 1977 e 1979), episteme significa uma forma de olhar, conhecer e pensar algo, forma essa que domina um período ou era como um modelo com base no qual se produziu um certo tipo de saber ou conhecimento.
de maneira mais duradora. Algo que de fato garantisse uma gestão racional, científica, econômica e ética, para a permanência e o cumprimento das missões dos museus no longo prazo, ou seja, com vistas à duração para a qual foram idealizados. Em outras palavras, para que fossem fiéis depositários de patrimônios para as futuras gerações.
Outra reflexão que se pode fazer tem cunho político. Defendemos, nesta tese, a ideia de que os museus, a universidade e, em consequência, os Museus Universitários são produtos não apenas de revoluções científicas, mas também de revoluções políticas e sociais; afinal, como espaço de formação de gosto, comportamento e distinção social, o museu moderno- sólido surge com a ascensão da burguesia, as revoluções burguesas e o fim do Antigo Regime. Se pensarmos nos casos exemplares, teremos o Ashmolean, que nasceu na época da Revolução Inglesa, a qual aburguesou a aristocracia. Na França, o Museu do Louvre é paradigmático, por apossar-se das coleções eclesiásticas e principescas, estabelecendo assim a ideia de “patrimônio nacional” (Choay e Machado, 2001). Portanto, o Museu Universitário reúne, em um só tempo e em apenas um espaço, condições para que ideais laicos, científicos, gostos estéticos e estilos comportamentais sejam cultivados como formas de conhecimento/poder burguês.
Feitas as discussões acima, cabe discorrer agora, mesmo que de maneira não aprofundada, sobre o modo pelo qual surgiram as coleções e os Museus Universitários no Brasil e em Portugal. Na Europa, os Museus Universitários apareceram na Idade Moderna. Inicialmente como Gabinetes de Curiosidade e, gradativamente, passaram por atualizações decorrentes da constituição das Ciências Naturais. No Brasil e em Portugal, assim como ocorrido em outros países da Europa, as iniciativas partem da vontade dos chamados “déspotas esclarecidos” e do desejo de manutenção, tanto do espaço do museu quanto da Universidade, como território restrito a parcelas da aristocracia ainda interessada em um tipo de ostentação monárquica e particular, embora sensível aos ideais iluministas. Estes ideiais estiveram na base da criação das monarquias constitucionalistas.
No caso do Brasil e de Portugal, o museu e as Universidades, assim como outras escolas de ensino superior, estiveram, durante muito tempo, administrados por governos monárquicos e ao serviço do interesse dos nobres, muitos dos quais treinados nessas instituições de produção de saber para se tornarem intelectuais que pudessem ser proveitosos ao Estado Absolutista, constituindo, claramente, a práxis intelectual moderna sólida do poder/conhecimento em benefício do Estado.
2.4 Museus e coleções universitárias no Brasil e em Portugal: “uma pequena