• Aucun résultat trouvé

ESPACES DE STEIN

Dans le document Espaces de Berkovich sur Z (Page 157-200)

“O jornal é eficaz, então, porque trabalha com e cria consensos, opera com dados num primeiro momento explícitos, e que na prática diária de repetições e reiterações tornam-se cada vez mais implícitos, reforçando-se enquanto verdades ou pressupostos intocáveis. Dessas verdades que ninguém dúvida, assim como não se questiona ou se busca explicar a cura feita pelo xamã. Portanto o jornal cria e recria consensos que a cada repetição necessitam de menos explicações. São verdades, verdades de um espaço

69

inquestionável, páginas e páginas escritas com um poder talvez igualável ao de um xamã” (Schwarcz, 1987, p.248).

História da imprensa é uma metodologia de investigação histórica válida, que permite uma série de análises fundamentais para compreender várias questões pertinentes sobre o passado histórico. Apresentaremos a defesa dessa condição metodológica e também um breve estado da arte com autores que utilizam a história da imprensa, enquanto ferramenta para auxiliar na investigação e escrita sobre a História. No intuito de facilitar a leitura criámos uma subcategoria chamada: imigração e imprensa, mas ambas seguem os mesmos pressupostos teóricos.

Durante muito tempo a imprensa foi utilizada como uma fonte que “representava”, “resgatava”, entre outros termos que atribuíam a qualquer coisa que estivesse impressa uma condição inequívoca de veracidade. Porém como buscámos exemplificar nas explanações sobre história do tempo presente e história oral, não se pode construir conhecimento histórico válido sem questionamento das fontes.

Existiu durante anos essa postura nos trabalhos desenvolvidos que utilizavam os jornais e revistas como representações congeladas de um tempo histórico passado. De acordo com Cruz e Peixoto: “De há muito, acertamos que o passado não nos lega testemunhos neutros e

objetivos e que todo documento é suporte de prática social, e por isso, fala de um lugar social e de um determinado tempo, sendo articulado pela/ na intencionalidade histórica que o constitui” (2007, p.258).

Partindo desta reflexão atribui-se a constituição de uma historiografia da imprensa enquanto metodologia investigativa. Estes pressupostos teóricos fazem parte da problematização desta pesquisa. Entretanto, para este trabalho, o intuito e as ambições da análise foram estabelecidas com esta delimitação como ponto de partida, sem negar que existem outros caminhos.

Na História existem cada vez mais estudos sobre a imprensa que colocam os meios de comunicação na dupla perspectiva enquanto fonte e também como objeto. (Norra 1977, Darnton 1990, Porto 2002 e Abramo 2003). Essas perspectivas vão cada vez mais de encontro às teorias da comunicação que também questionam a associação da ideia da produção da notícia enquanto verdade absoluta (Carneiro 1996, Van Dijk 1998, Tuchman 2001, Cádima 2003, Martin-Barbero 2004 e 2009). Para a realização deste estudo estes autores e suas obras servirão de guião metodológico para a investigação dos jornais imigrantes e dos mass media

70

de Portugal e do Brasil, que foram um dos palcos privilegiados das negociações identitárias dos imigrantes brasileiros em Portugal.

Todas essas obras coadunam a postura crítica em relação à imprensa e buscam, por meio do estudo histórico, traçar os envolvimentos deste ator social e suas motivações enquanto tal, para o relato dos acontecimentos que nunca é visto como neutro. Uma das muitas transformações pela qual passou a imprensa no mundo foi a sua consolidação enquanto empreendimento comercial que, portanto, visa o lucro. Para tal, suas finalidades foram restruturadas, tão importante quanto retratar um acontecimento, passou a ser conquistar leitores e anunciantes.

Com o aumento dos custos, devido à matéria-prima, equipamentos, funcionários, entre outros fatores que influenciam diretamente no preço final desses produtos, as empresas de comunicação modernas têm que equilibrar todas essas variantes. Uma série de estudos apontam para escolhas e posicionamentos tomados por meios de comunicação que estão diretamente relacionados com a conciliação entre interesses comerciais e as formas de escrever notícias. Por estes motivos a historiografia da imprensa defende que devemos analisar o conteúdo dos meios de comunicação como sendo uma opção editorial, escolhida entre várias.

Cabe aos pesquisadores buscarem, por meio da análise das páginas publicadas, as motivações que levaram a escolher as palavras, a fotografia, as letras, o espaço destinado e o lugar onde foi publicado. Todas essas questões foram posicionamentos assumidos pelos jornalistas com a supervisão dos proprietários destes meios de comunicação; elas não são neutras ou aleatórias. São fruto de visões e projetos políticos assumidos, ou não, por esse grupo que o produz e pelos que consomem estes impressos.

História da imprensa periódica portuguesa de José Manuel Mota Sousa e Lúcia Maria Mariano Veloso; Jornais Diários Portugueses do Século XX de Mário Lemos entre outros, são obras de referência neste tipo de estudo na historiografia portuguesa.25 Dois importantes dicionários produzidos sobre os jornais possuem vastas informações e verbetes bem elaborados sobre estes meios impressos: Jornais Diários Portugueses do Século XX. Um Dicionário, Coimbra, Ariadne Editora/Ceis20, escrito por Lemos (2006) e Dicionário da

25 Ver mais em: Tengarrinha, José Manuel (1989), História da Imprensa Periódica Portuguesa, 2.ª ed. revista e aumentada, Lisboa, Editorial Caminho. Apesar da longa distância temporal entre os períodos propostos pelo autor, sua metodologia auxilia muito na interpretação dos atuais. Cádima, Francisco Rui (1996), História e

71 Imprensa Periódica Literária Portuguesa do Século XX, Lisboa, Grifo, escrito por Pires (1996). Sobre esta questão ainda destacamos estas duas obras "A opinião pública na história e a história na opinião pública”, in Estratégia. Revista de Estudos Internacionais, Lisboa, N.º 1 pp. 47-59; de Macedo (1986) e “História do Jornalismo Português”, in Quintero, A. P. História da Imprensa, Lisboa, Planeta Editora, pp. 352-368; de Rodríguez (1996). Ainda sobre esta bibliografia em Portugal, temos outras obras que serão referenciadas ao tratar a imprensa e os imigrantes.

No Brasil por sua vez, as obras e autores escolhidos são: O Bravo Matutino - imprensa e ideologia: O jornal Estado de S. Paulo de Maria Helena Capelato e Maria Lígia Prado, as duas autoras unem suas teses de mestrados para analisar o projeto editorial e a ação na sociedade brasileira por meio das páginas do jornal Estado de S. Paulo. Revistas em revista. Imprensa e práticas culturais em tempos de República, São Paulo (1890-1922) de Ana Luísa Martins. Existe uma longa análise de todas as revistas que circulavam na cidade de São Paulo, a partir da dualidade entre ser uma fonte com registros sobre o seu tempo, mas também com objeto de análise histórica, refletindo sobre a sua produção.

São Paulo em Papel e Tinta – pequena imprensa, cultura letrada, periodismo e vida urbana, 1890-1915 de Heloísa Cruz, uma grande contribuição para o estudo de meios impressos de menor dimensão, Como afirma a autora: “Sem minimizar a importância dos trabalhos que se desenvolveram sob a ótica da história da imprensa e dos meios de comunicação, buscou-se, antes discutir seu processo de constituição no próprio território da história social. Portanto, no interior de uma perspectiva que entende a imprensa como prática social e momento da constituição/instituição dos modos de viver e pensar” (Cruz, 2000, p.20).

A produção de um meio impresso é muito significativa em qualquer grupo social, não importando a sua dimensão. Pois entendemos que o ato público de produzir e divulgar informações por meio da constituição de um jornal ou revista insere estes atores no debate público. Outra importante contribuição que dialoga exatamente com a questão abordada por Cruz é o trabalho de Tania de Luca e Luisa Martins Imprensa e cidades (2006). As duas autoras consagradas nesta área de estudo estabelecem uma série de questões sobre a imprensa e as suas relações com a cidade.

Em O leitor e a banca de revistas. A segmentação da cultura no século XX, Maria Mira faz um grande estudo sobre as revistas e o surgimento da segmentação de publicações ocorridas durante o último século. Como foi possível essa multiplicação de títulos cada vez

72

mais específicos dentro de nossas sociedades. Segundo sua análise, é fundamental a conciliação de dois elementos, a definição do público-alvo e a venda de espaços para os anunciantes certos.

Ao longo desta tese de doutoramento foram utilizadas uma série de fontes impressas, entre elas: o Boletim Informativo, o Sabiá, o Brasileirinho, Tribuna Universal, Folha Universal e Folha Portugal. Estes meios de comunicação tiveram motivações diferentes envolvendo a sua produção e distribuição, e também uma circulação gratuita em espaços com grande presença de imigrantes brasileiros. Este traço une a todos e solidifica a justificativa de estudar esses meios como sendo registros importantes sobre as disputas e negociações de identidades dos imigrantes brasileiros em Portugal.

Em relação aos estudos sobre a imprensa em Portugal e no Brasil, existe uma diferença grande. Em Portugal existe uma longa produção académica questionando as práticas de jornalismo, feita por cursos de comunicação social, reconhecendo a falta de imparcialidade de muitos meios de comunicação e a criação ou alimentação de estereótipos nas páginas dos jornais e revistas. No Brasil existe uma longa produção questionando as mesmas coisas só que realizada em sua grande maioria por historiadores.

Dans le document Espaces de Berkovich sur Z (Page 157-200)

Documents relatifs