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Espace de conception.

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2.4.1. Espace de conception.

Segundo Hyland (2009), e de acordo com a visão representada mais fortemente pelas ciências naturais, o discurso acadêmico constitui uma forma privilegiada de argumentação no mundo moderno, oferecendo um modelo de racionalidade e visto como dependente da demonstração da verdade absoluta, evidência empírica ou lógica sem falhas,

19 BARROS, Marcilene Gaspar. (Re)escrita da seção justificativa do projeto de pesquisa por escritores iniciantes. 2013. 173f. Dissertação (Mestrado em Linguística) – Centro de Humanidades, Departamento de Letras Vernáculas, Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, 2013.

83 além de fornecer uma descrição objetiva do que é, realmente, o mundo natural e humano, o que o distingue do socialmente contingente. Ainda conforme o referido teórico, subjacente a este modelo realista, está a ideia de que o conhecimento é construído sobre a experiência, indução, replicação e falseabilidade, de forma que os trabalhos científicos são vistos como persuasivos porque comunicam verdades que emergem de nosso acesso direto ao mundo externo.

Contudo, argumenta Hyland (2009), os métodos científicos fornecem bases menos confiáveis para a prova do que comumente suposto. Embora a experiência forneça elementos para se confiar na indução, como, por exemplo, acreditar que o ônibus passará em um determinado horário se tiver passado nesse mesmo horário na semana anterior, alguns estudiosos tecem críticas a essa visão, argumentando que a indução oferece probabilidade em vez de prova. Nessa perspectiva, a partir de observações e declarações gerais sobre casos não observados, os cientistas levantam questões e introduzem a incerteza.

Os estudos de Hyland, realizados ao longo dos últimos anos, acerca do papel da interação na persuasão acadêmica, cujo corpus é composto por artigos de pesquisa de diferentes disciplinas, mostram informações sobre a frequência de itens e como eles são usados, e apontam para preferências sistemáticas na forma como membros de diferentes disciplinas usam a linguagem em seus argumentos, além de reflexões sobre como os escritores veem seus leitores e suas disciplinas.

Essas considerações apontam para a necessidade de aprofundar a discussão em torno da construção da argumentação no discurso acadêmico, já que a adesão ou não às proposições dá-se na maneira como se constrói o diálogo entre autor e leitor. Tal diálogo se estabelece no dizer do autor e se constrói a partir das escolhas dos recursos linguísticos, responsáveis por projetar uma intencionalidade. (CARIOCA, 2011). Dessa forma, busca-se atuar sobre seu interlocutor, transformando suas convicções, a partir de regras preconcebidas e aceitas pela comunidade científica.

Diante da preocupação em compreender a relação autor/leitor e a argumentação subjacente às interações que se estabelecem no texto, muitos estudos têm ampliado as discussões em torno do discurso acadêmico e contribuído para a temática em questão, seja esclarecendo alguns aspectos, seja levantando novas questões de pesquisa. (CORACINI, 1991; SILVA, 2009; REZENDE; HEMAIS, 2004; BERNARDINO, 2007; MORITZ; DELLAGNELO, 2008; CORTES, 2010; CARIOCA, 2011). Uma parte desses estudos revela que a manifestação da subjetividade constitutiva do discurso acadêmico, entendida como

84 relatividade, dependência do seu construtor, dado o caráter provisório da ciência, objetiva também interferir no interlocutor, em suas representações ou convicções, provocando transformações (CORACINI, 1991).

Ao falar sobre a exposição dos fatos pelo pesquisador e a manifestação da sua subjetividade, Coracini assevera que

[...] o objetivo da ciência tem sido, não “descobrir”, mas construir o conhecimento humano com base na sistematização, na organização dos fatos que se entrelaçam e se relacionam. Captar essas relações é tarefa do cientista que, inserido num determinado contexto histórico-social, partilha com outros cientistas a crença num paradigma, em normas prescritivas que lhe possibilitam “ver” desta ou daquela maneira os fatos, os seres, os fenômenos naturais. (CORACINI, 1991, p. 27). Nesse modo de ver e expor fatos, o cientista atua de maneira ativa, especulativa e analítica, constituindo-se sujeito de um jogo científico, cujas ideias estão sujeitas à refutação. Aqui, entra em cena o caráter provisório da ciência, responsável por avanços, haja vista também que as ideias expostas são resultantes da criação humana e estão, de alguma forma, relacionadas também à subjetividade do pesquisador. (CORACINI, 1991).

A crença num paradigma conduz o sujeito a elaborar um texto eminentemente argumentativo, cujo objetivo é convencer, angariar adeptos dentre os seus prováveis leitores, membros da mesma comunidade discursiva, e, para isso, utiliza, na tessitura do texto, diversos elementos disponíveis na língua. (CORACINI, 1991).

A escrita acadêmica, assim como qualquer outro tipo de escrita, só é eficaz quando os escritores usam convenções que os outros membros da comunidade consideram familiares e convincentes (HYLAND, 2009). Nessa visão, o processo de escrita envolve a criação de um texto já esperado pelo leitor, que o lê com base em suposições sobre o que o escritor quer dizer, de forma que a coerência é construída na relação que se estabelece entre o leitor e o escritor. Recomenda-se, portanto, que os escritores busquem usar convenções que outros membros de sua área irão reconhecer e aceitar. Devido a isso, a análise de gêneros do discurso tornou-se uma ferramenta central para identificar recursos de linguagem específicos de determinados grupos. Hyland (2009) mostra, por meio de resultados de trabalhos realizados ao longo de vários anos, como algumas convenções de escrita são usadas em diferentes disciplinas e o que elas podem revelar de especificidades sobre o trabalho em cada uma delas.

A visão de que a escrita acadêmica é persuasiva é amplamente aceita no cenário atual. Exatamente como se alcança isso, contudo, é mais controverso, e levanta uma série de questões importantes. Além das questões em torno do viés persuasivo, são levantadas

85 questões que dizem respeito à relação entre a realidade – e considerações a respeito desta –, a eficácia da indução lógica e o papel das comunidades sociais na construção do conhecimento. (HYLAND, 2009).

Conforme Hyland (2009), os linguistas de corpus têm sido particularmente ativos, enfatizando a importância da retórica na persuasão acadêmica. Além disso, destaca o estudioso, focalizando as características interpessoais da linguagem, que as diferenças nos discursos disciplinares dizem muito sobre o modo como o conhecimento acadêmico é construído socialmente.

Para Hyland (2009), o conceito de especificidade é, talvez, o conceito mais central no ensino de línguas e na análise do discurso na atualidade, e diz respeito a como a linguagem varia em diferentes contextos, mostrando padronizações típicas e características marcantes da escrita acadêmica, com evidências de variação linguística em todas as disciplinas. Essa variação pode ser vista, por exemplo, na escrita de alunos de campos semelhantes, como enfermagem e obstetrícia, que apresentam dados muito diferentes, apontando para especificidades de cada disciplina. O estudo do vocabulário mostra que a terminologia varia muito entre as disciplinas e que, mesmo quando são utilizadas as mesmas palavras, estas têm frequências e significados diferentes em disciplinas específicas. Isso também foi identificado na pesquisa sobre retórica contrastiva, chamando a atenção para a especificidade cultural nas preferências retóricas e revelando a influência de aspectos relacionados à língua e aos conhecimentos prévios no modo de organização das ideias e dos argumentos na escrita.

As pesquisas sobre especificidade mostram que os escritores fazem escolhas muito diferentes, com uma variação considerável identificada na análise de artigos de pesquisa e em livros didáticos.

A ideia de disciplina tornou-se importante à medida que os escritores passaram a ser mais sensíveis às formas como os gêneros são escritos e respondidos por indivíduos que agem como membros dos grupos sociais. As disciplinas podem ser vistas como formas específicas de fazer coisas, como maneira de usar a linguagem para se envolver com os outros em formas reconhecidas e familiares. Textos acadêmicos são sobre persuasão e isso envolve fazer escolhas para argumentar de forma a se encaixar nas hipóteses, métodos e conhecimentos da comunidade. Nesse sentido, para fazer parte de uma disciplina, é necessário ser capaz de se envolver em tal prática e, em particular, em seu discurso. As disciplinas organizam os trabalhos dentro de estruturas mais amplas de crenças e fornecem convenções e expectativas que tornam os textos significativos. (HYLAND, 2009).

86 Nas ciências, novos conhecimentos são aceitos por meio de provas experimentais. A redação científica reforça isso, destacando uma lacuna no conhecimento, apresentando uma hipótese relacionada a esta lacuna e, em seguida, os resultados experimentais para sustentar isso no formato padrão Introdução-Métodos-Resultados-Discussão. As humanidades, como Literatura, História e Filosofia, por exemplo, por outro lado, em grande parte, dependem de estudos de caso e narrativas quando os posicionamentos defendidos são aceitos em virtude da força dos argumentos utilizados. As Ciências Sociais se situam entre estes dois extremos. Disciplinas como Sociologia, Economia e Linguística Aplicada têm, parcialmente, adotado métodos das ciências, mas, ao aplicá-los aos dados humanos, elas têm que dar muito mais atenção à interpretação explícita desses campos. Em outras palavras, o discurso acadêmico ajuda a dar identidade a uma disciplina. Isso significa que é necessário compreender as formas distintas de fazer perguntas, abordar a literatura, criticar ideias e apresentar argumentos, para poder ajudar os alunos a participar ativamente em seu aprendizado. (HYLAND, 2009).

De forma geral, os trabalhos destacam que a argumentação do discurso científico se manifesta na escolha dos recursos linguísticos mobilizados pelo autor, e que, de acordo com a disciplina, os recursos utilizados variam nas formas do dizer.

Considerando o disposto no guia de normalização de trabalhos acadêmicos da Universidade Federal do Ceará, a tese de doutorado, “documento que apresenta o resultado de um trabalho experimental ou exposição de um estudo científico elaborado com base em investigação original, de tema único e bem delimitado” (UFC, 2017, p. 11), caracteriza uma dessas formas de dizer do discurso científico.

Na próxima seção, tratamos da introdução, capítulo inicial da tese de doutorado, de onde retiramos dados para nossa pesquisa.

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