Arnaldo do Espírito Santo*| Cristina Costa Gomes**
Tomás Pereira, S.J. (1646-1708), de nome chinês Xu Risheng, foi um dos mais destaca- dos europeus na China do imperador Kangxi (1662-1722), tendo ficado intimamente as- sociado ao famoso Édito de Tolerância em favor da religião cristã, promulgado por este mesmo imperador em 1692. Ao longo de trinta e seis anos, este jesuíta português, nomeado mandarim em 1686, exerceu diversas funções na Corte chinesa. Nascido em S. Martinho do Vale (Braga) no ano de 1646, no seio de uma família da nobreza rural, fez os seus primeiros estudos em Braga e Coimbra, tendo sido, nesta última cidade, contemporâneo do padre António Vieira (1608-1697). Ingressou na Companhia de Jesus em 1663, tendo no ano de 1666 partido para Goa, onde prosseguiu os seus estudos e foi ordenado padre em 1671. Nesse mesmo ano, embarcou para Macau, sendo depois designado para a missão da China e colocado, estrategicamente, na corte imperial em Pequim, cidade à qual chegou nos primeiros dias do ano de 1673 e onde permaneceu até à sua morte em finais de17081. Note-se que em Pequim se jogavam os destinos da missão jesuíta, através de uma ampla rede de contactos e influências entre as elites, que permitia a sobrevivência e progresso das outras residências missionárias espalhadas pelo Império Chinês.
A Literatura Clássica ou os Clássicos na Literatura
*Universidade de Lisboa, Faculdade de Letras, Centro de Estudos Clássicos | [email protected] **Universidade de Lisboa, Faculdade de Letras, Centro de Estudos Clássicos | [email protected] 1Cf. Costa Gomes (2010), Pina (2010), Wardega e Saldanha, eds. (2012) e Costa Gomes e Pina (2013).
A aproximação de Tomás Pereira ao imperador Kangxi, um dos mais destacados da di- nastia Qing (1644-1911), remonta ao início da década de 1680, período em que lhe deu aulas de música europeia, assim como a alguns dos príncipes imperiais. Nessa mesma época compôs um tratado de música, Lulu zuanyao (Elementos de Música), conside- rado como o primeiro tratado de música europeia em chinês. Para ensinar e falar de mú- sica a Kangxi, Pereira acompanhou-o também por duas vezes nas suas viagens à Tartária (em 1685 e em 1696), das quais nos deixou relatos minuciosos.
Além de professor de música do imperador Kangxi, Tomás Pereira foi construtor ou “ar- tífice”, como gostava de se autodesignar, de instrumentos musicais, relógios e autóma- tos; conselheiro diplomático em questões internacionais (como as que conduziram à assinatura do Tratado de Nerchinsk entre a China e a Rússia em 1689); intérprete; ou ainda presidente interino do Departamento Astronómico. A todas estas actividades, du- rante os largos anos em que viveu em Pequim, sem regressar a Portugal, aliou um “duelo” incessante com a “tinta da escrita” para dar “novas” da corte de Pequim, segundo ex- pressão do autor, que chegou mesmo a confessar que teria preferido escrever com o seu próprio sangue do que com tinta, imagem que reflecte bem as adversidades que sentiu longe do país em que nasceu (Gomes 2013).
No seu conjunto as 151 cartas de Tomás Pereira, editadas em 2011 (Pereira 2011), constituem uma das mais importantes fontes de informação para a história das missões na China. Mas por elas passam também informações de extrema importância sobre a sociedade chinesa, a sua organização, a vida política, o funcionamento das instituições, a sua abertura ao desenvolvimento científico e tecnológico. Uma grande parte dessa informação é-nos transmitida em latim, quer usado em todo o corpo da carta, quer em palavras ou expressões aspergidas pelo texto em português, quer em grandes porções que, no conjunto, o ultrapassam largamente em quantidade2. Há casos em que o latim é três vezes mais que o português; e, inversamente, casos em que o latim é seis vezes menos.
Compreende-se sem dificuldade que Tomás Pereira tenha utilizado o latim para comu- nicar com o Superior Geral da Companhia de Jesus e com destinatários de outras na- cionalidades, que não a portuguesa. Ainda no século XVII e parte do XVIII o latim era língua de comunicação comum a toda a Europa culta. Uma carta que se escrevia em latim estava apta para ser divulgada e lida por um público vasto. Mas há uma situação em que Tomás Pereira aconselha o uso do latim para cifrar o conteúdo da mensagem:
Arnaldo do Espírito Santo | Cristina Costa Gomes
monuique aliquos, ut Latine scribant, cum soli locuntur3, “e adverti alguns de que deviam escrever em latim quando falam confidencialmente”4. Ou seja, nas cartas confidenciais devia escrever-se em latim para que os agentes de transmissão não entendessem a men- sagem, o que só faz sentido quando se está em ambiente linguístico não europeu, como era o caso da China. Talvez seja, pois, esse o significado do uso do latim em grandes porções ou em pequenas parcelas, inserido no meio do português. Não é, porém, esse o caso das missivas latinas ao Padre Geral, aos Vigários Apostólicos e ao Vice-Provincial, para quem as cartas são enviadas em latim sem a reserva de confidencialidade, pelo menos na maior parte dos casos.
Tanto quanto é possível inferir da análise das cartas existentes, o Padre Tomás Pereira, como qualquer jesuíta do seu tempo, dispunha de competência para se exprimir corren- temente em latim, de forma clara e precisa, sem atropelar a gramática, e até com algum requinte literário. Acontece porém que a maior parte das cartas latinas que nos restam são cópias elaboradas por escribas que não eram bons latinistas ou que simplesmente tinham uma grande dificuldade em entender a letra miudinha de que se queixava o Padre Geral. Por mais de uma vez Tomás Pereira reage a essas queixas fazendo um esforço que lhe faz doer a mão: Charatere grandiori scribo; ut Paternitas Vestra exigit; in quo non
parum laborat manus alteri assueta5, “Escrevo em letra maior, como Vossa Paternidade exige, com o que sofre não pouco a minha mão habituada à outra letra”6. Se um copista, além das dificuldades inerentes à caligrafia, sabia pouco latim ou fazia o seu trabalho à pressa, ou descuidadamente, o resultado era pouco menos que desastroso. Um deles, ciente do mau trabalho que tinha feito, acrescentou à sua cópia a seguinte observação: “Se leva erros, declaro que o tresladey depressa. Ex contexto se verá o sentido”7. De facto, tem alguns erros que só podem derivar da sua desatenção e do seu fraco conhecimento da língua latina, como se deduz da expressão, errada, da sua lavra: “ex contexto” em vez de ex contextu.
Mas o uso do latim não é apenas um meio de comunicação linguística, pois as palavras são também um veículo de transmissão de referências culturais e literárias, que se mani- festam como reminiscências esparsas de textos e autores, estudados ou lidos na juventude.
Presença dos Clássicos nas Cartas de Tomás Pereira, S.J. (1646-1708)
3“Carta ao Padre Geral Thyrsus Gonzalez”, Pequim, 18/10/1696, in Pereira (2011 I: 706). 4“Carta ao Padre Geral Thyrsus Gonzalez”, Pequim, 18/10/1696, in Pereira (2011 I: 707). 5“Carta ao Padre Geral Thyrsus Gonzalez”, Pequim, 18/10/1696, in Pereira (2011 I: 716). 6“Carta ao Padre Geral Thyrsus Gonzalez”, Pequim, 18/10/1696, in Pereira (2011 I: 717). 7“Carta ao Vice-Provincial Giandomenico Gabiani”, Pequim, 29/6/1690, in Pereira (2011 I: 361).
Na apresentação da pesquisa que fizemos, deixamos de lado as centenas de palavras ou expressões latinas que, no entanto, são de uso clássico, como por exemplo: more gen-
tis: usado por Tácito, Valério Máximo e outros (nove ocorrências); more patrio (onze
ocorrências no latim clássico); Mihi in mentem venit (com cerca de duas centenas de ocorrências só em Cícero). Fixámo-nos apenas naquelas citações ou reminiscências que, de um modo ou de outro, nos remetem para autores e textos identificados.
Tendimus in Latium: “Caminhamos para o Lácio”
1. Mihi uivere mori est. Mortis memoria gaudium8. Esta sentença, que não deixa de evo- car o desabafo de Paulo aos Filipenses, 1, 21 – mihi enim vivere Christus est et mori
lucrum – tem todavia de comum com Séneca o laço da reflexão sobre a morte. Mor-
rer não é um drama angustiante, pois basta conformar-se com a condição humana, como se depreende da reflexão do filósofo: bene autem mori est libenter mori (Sen.
Ep. 61. 3). Indo um pouco além, Tomás Pereira considera que o ponto de encontro com
a morte pode ser objecto de um intenso desejo e de profunda alegria. Assim, a ex- pressão de Tomás Pereira, Mortis memoria gaudium, “a lembrança da morte é um prazer”, acaba por ser uma forma sublimada da meditatio mortis da filosofia estóica. Começamos por este tema para deixar claro que, em Tomás Pereira, há textos e auto- res cristãos que se cruzam com os clássicos e os absorvem.
2. agendo de repetundis9, “pondo um processo por peculato”, é uma fórmula jurídica que remonta à Lei Calpúrnia De repetundis, estabelecida por Lúcio Calpúrnio Pisão Frúgi, em meados do século II a. C. Era um facto que se aprendia nas aulas de história de Roma. Além disso, Calpúrnio Pisão Frúgi era também referido como autor de crónicas (Annales), e como tal mencionado por Cícero: L. Piso tribunus plebis legem primus de
pecuniis repetundis Censorino et Manilio consulibus tulit (Cic. Brut. 106.6) e ainda: Nondum centum et decem anni sunt, cum de pecuniis repetundis a L. Pisone lata est lex (Off. 2.75.10). Em tradução: “Lúcio Pisão, quando tribuno da plebe, foi o primeiro
a fazer uma lei sobre o peculato, sendo cônsules Censorino e Mânlio” e “Ainda não há cento e dez anos que Lúcio Pisão fez a lei sobre o peculato”. Outras leis sobre o mesmo caso se fizeram posteriormente. Mas foi nesta que teve origem o arcaísmo repetundis.
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8“Carta ao Visitador Simão Martins”, Pequim, 12/1/1688, in Pereira (2011 I: 117).
9“Carta ao Padre Superior”, Pequim, 11/2/1688, in Pereira (2011 I: 127); “Carta ao Padre Superior”, Pequim, 21/2/1688, in Pereira (2011 I: 128). Esta expressão é usada também na p. 245: “Carta ao Visitador Francesco Sa- verio Filippucci”, Pequim, 15/3/1689.
2. Quando se fala de recepção dos clássicos, no que respeita a temas literários, con- ceitos filosóficos e heranças linguísticas no Direito e nos mais variados aspectos de cultura, nunca poderemos esquecer o papel desempenhado pelos textos e au- tores medievais como possíveis veios de transmissão. No caso de De Repetundis, porém, há uma única ocorrência desta forma no latim pós-clássico (em Graciano, século XII), preterida pela forma repetundarum (actio, actiones, reus, iudicium, crimen,
poena repetundarum), que conta com cerca de três dezenas de ocorrências, o que
joga em favor de que Tomás Pereira conheceu a expressão numa fonte clássica, ou nas suas aulas do curso de Humanidades. Outro argumento, não menos significativo, é que Cícero usa apenas uma vez repetundarum, contra quarenta e sete ocorrências de de repetundis.
3. Sunt multa fucis illita10. Admite-se, por princípio assente, que a reminiscência, mais do que uma leitura recente, está na base da activação, em determinado momento, de uma memória antiga. Assim poderia ter sucedido com o verso Sunt multa fucis
illita, lançado, sem identificação de autor e ligeiramente alterado, no meio de uma
narrativa – “Multa sunt fucis illita, que se purgão com o tempo nem a Rethorica as pode escuresser”11. Este ponto de vista poderia ser confirmado com o facto de que a expressão “se purgão com o tempo”, extraída do mesmo poema, esconde, por sua vez, uma reminiscência implícita, em forma de glosa, do verso contíguo ao anterior:
Quae luce purgentur tua12.
2. Um pequeno retoque no poema, com a substituição de “com a tua luz” por “com o tempo”, faz que esses dois versos gerem um sentido que enquadra, não já o dealbar da aurora, mas o bem menos poético desfazer das intrigas, que nem a retórica pode obnubilar. É evidente que a operação da reminiscência não procede, neste caso, por simples actualização de uma memória antiga, mas desvia e transforma, por metafo- rização, o sentido original.
2. Indo um pouco mais além nesta análise, acrescentamos a estas observações que o autor é um poeta do século IV, Prudêncio, conhecido e admirado por aliar o classi- cismo mais lídimo aos temas de origem cristã. Assim acontece, de facto, na primeira estrofe do poema citado por Tomás Pereira:
Presença dos Clássicos nas Cartas de Tomás Pereira, S.J. (1646-1708)
10Prudentius, Carmina (II. Himnus Matutinus), v. 59 (PL 59: 790).
11“Carta ao Visitador Francesco Saverio Filippucci”, Pequim, 10/4/1688, in Pereira (2011 I: 149). 12Prudentius, Carmina (II. Himnus Matutinus), v. 60 (PL 59: 791).
Nox, et tenebrae, et nubila Confusa mundi, et turbida, Lux intrat, albescit polus, Christus venit, discedite13 Ó noite, trevas e nevoeiros,
Coisas do mundo confusas e turvas, A luz vai entrando, alvorece o firmamento, Cristo vem: ide-vos embora,
2. em que o motivo da “aurora dos róseos dedos”, aparece lado a lado com o de “Cristo luz do universo”. Vejam-se os exemplos, entre muitos outros, de Lucrécio, Vergílio, Ovídio, Séneca, remetidos para nota14.
2. Nesses versos encontram-se os tópicos e o vocabulário – e a tonalidade poética – em que mergulha a poesia de Prudêncio, embora cristianizada. E assim, por ela, embora não exclusivamente, chegou aos autores formados nos colégios jesuítas a influência indirecta da literatura clássica. Daqui nasce a verificação imediata de que a obra de Prudêncio foi uma espécie de reserva literária onde os autores posteriores se abaste- ceram de tópicos da literatura clássica. E, o que dizemos de Prudêncio, podemos afirmá-lo em geral dos Santos Padres, cuja educação foi plasmada desde a infância pela escola pagã. Tomamos, como exemplo disso, o verso citado por Tomás Pereira. Onde o terá lido? Numa edição da obra de Prudêncio? Pode ser. Em todo o caso, ao ler o breviário, recitava-o todas as quintas-feiras no ofício de Matinas. Não admira, por- tanto, que ele lhe ocorra espontaneamente no acto da escrita.
2. Em suma, a leitura dos textos patrísticos e litúrgicos foram, sem dúvida, uma das fon- tes de que derivam tantas e tantas referências aos clássicos que se encontram nos ser- mões, nos livros de espiritualidade e na literatura de toda a espécie em língua portuguesa. Um verso de Vergílio, de Ovídio, de Plauto ou de Terêncio, umas linhas de Cícero, de Séneca, ou de Salústio não significam, necessariamente, que derivem da leitura directa do autor ou da obra citada.
Arnaldo do Espírito Santo | Cristina Costa Gomes
13Prudentius, Carmina (II. Himnus Matutinus), vv. 1-4 (PL 59: 785).
14Cf. Apuleio: Aurora roseum quatiens lacertum caelum inequitabat (Apul. Met. I.1.1); Lucrécio: primum aurora nouo
cum spargit lumine terras (Luc. 2.144). Ovídio: effulget tenebris Aurora fugatis (Ov. Met. 2.144); nox ibi consumpta est; aurora rubescere primo (Ov. Met. 3.600); lutea mane uidet pulsis Aurora tenebris (Ov. Met. 7.703); Nox abiit, oriturque aurora (Ov. Fast. 4.721); Séneca: Iam uaga caelo sidera fulgens Aurora fugat, / surgit Titan radiante coma
(Sen. Oct. 2); aut redit a nobis Aurora diemque reducit; Vergílio: aut redit a nobis Aurora diemque reducit (Verg. G. 1.249); Aurora polo dimouerat umbram (Verg. A. 4.7).
4. Dea Venus, Deus Iupiter. Onde quer que se instalasse uma comunidade missionária de jesuítas, promovia-se o ensino de crianças e jovens. Na China temos notícia da existência de um colégio de que Tomás Pereira foi Reitor. Os programas e os conteúdos enquadravam-se no espírito da Ratio studiorum, com uma parte substancial atribuída ao ensino das humanidades clássicas, língua, história e mitologia, como forma de apetrechar os alunos com os conhecimentos necessários à compreensão da cultura da sua própria época. Mas Tomás Pereira entende que há certos conteúdos que não devem ser ensinados à juventude chinesa, como é o caso da mitologia:
nos livros se imprime, ensina, e perora, Dea Venus, Deus Iupiter [Deusa Vénus, Deus Júpiter] etc.ª; acontecendo muitas vezes os meninos enganados crerem o são: mas nem por escândalo pusilorum [dos pequeninos], se dão por obrigados os Mestres a raspar os tais nomes, nem de os explicarem cada vez que nisso fallam. Outros muitos semelhantes exemplos deixo a Vossa Reverencia. Melhor seria todavia de nam haver as tais letras, ao menos pera nam dar occaziam, aos que de tudo fazem peçonha15.
2. Mau grado as reservas de Tomás Pereira, que receava que os mais jovens viessem a acreditar que as divindades pagãs eram deuses a sério, o certo é que os seus nomes não eram raspados dos livros; e mau grado a sua opinião de que deviam ser eliminados muitos outros aspectos semelhantes, continuou a existir o ensino de “tais letras”, isto é, de tais conteúdos, que eram os da cultura clássica. Note-se que as reservas de Tomás Pereira relativamente ao ensino da mitologia não foram tão fortes que o coibissem de usar a fórmula Deo optimo maximo16, de origem mitológica, para se referir a Deus. 5. tantae molis erat17. Hemistíquio do verso 33 do canto primeiro da Eneida, desde muito
cedo passou a ser usado como provérbio ou sentença, para caracterizar uma tarefa ou empreendimento de grande dificuldade. Cassiodoro considera este verso como uma
perfecta sententia18. O seu uso como provérbio está documentado nos princípios do século XII em Guilherme de Malmesbury: tantae molis erat liberari posse principes19. Este é mais um daqueles casos em que é difícil determinar se a influência que prevaleceu na escrita de Tomás Pereira foi a reminiscência da leitura da Eneida ou o uso de um provérbio da linguagem corrente. Talvez as duas coisas.
Presença dos Clássicos nas Cartas de Tomás Pereira, S.J. (1646-1708)
15“Carta ao Visitador Francesco Saverio Filippucci”, Pequim, 8/11/1688, in Pereira (2011 I: 192). 16“Carta ao Superior dos Agostinianos”, Pequim, 16/11/1688, in Pereira (2011 I: 204). 17“Carta ao Visitador Francesco Saverio Filippucci”, Pequim, 4/3/1689, in Pereira (2011 I: 241). 18De Orthographia, PL 70: 1242.
6. Dabit Deus his quoque finem20. Também este segmento de um verso da Eneida es- tava destinado a ser assumido em modo religioso pela espiritualidade cristã. A sua mensagem é um apelo à resistência na adversidade e à esperança de que o socorro divino há-de chegar. A mensagem de Vergílio é de facto muito sugestiva:
O socii (neque enim ignari sumus ante malorum), o passi grauiora, dabit deus his quoque finem21.
Ó Companheiros, pois não é de agora que conhecemos a desgraça, Ó vós que suportastes outras mais graves: também a estas deus porá termo.
2. Houve um monge cisterciense que fez um centão com os versos 203, 207, 199, 204, 205, por esta ordem. O resultado é o seguinte:
(203) Forsan et haec olim meminisse juvabit. (207) Durate et vosmet rebus servate secundis. (199) O passi graviora, dabit Deus his quoque finem (204) Per varios casus per tot discrimina rerum, (205) Tendimus in Latium, sedes ubi fata quietas22.
2. Daqui se tiravam belos temas para um sermão em que Tendimus in Latium podia ser in- terpretado como a caminhada espiritual para a Jerusalém Celeste. Encontrámos um bom exemplo deste tipo de leitura cristianizada da Eneida no centão de Faltónia Proba, séculos IV-V23. Tomás Pereira insere-se nesta tradição de leitura a lo divino. É muita provável que a leitura que fez do texto da Eneidatenha sido comentada com uma interpretação deste género. 7. se oleum, et operam perdidisse24. Esta sentença corresponde, sem dúvida, a uma deixa de uma personagem de Plauto: ego et oleum et operam perdidi25. Mais uma vez estamos perante uma aparente dependência directa de Plauto, que era estudado no curso de Humanidades. Mas mais uma vez se nos depara a evidência ou, pelo menos, a possi- bilidade de não ocorrer a Tomás Pereira senão que está a usar um provérbio vulgarizado como tal, que já o era na Antiguidade e continuou a sê-lo na latinidade do Renascimento26.
Arnaldo do Espírito Santo | Cristina Costa Gomes
20“Carta ao Visitador Francesco Saverio Filippucci”, Pequim, 18/3/1689, in Pereira (2011 I: 251). 21Verg. A. 1.199-200.
22Cantica Canticorum: Cum duobus Commentariis plane egregiis, altero venerabilis Patris F. Thomae Cisterciensis mo-
nachi; altero longe reverendi cardinalis M. Joannis Halgrini ab Abbatisvilla. PL 206: 167.
23Accipite ergo animis: quae vos a stirpe parentum / Prima tulit tellus, eadem vos ubere laeto / Accipiet, revocate ani-
mum moestumque timorem / Mittite, jam vosmet rebus servate secundis. (Proba, Centones Virgiliani, PL 19: 803).
24“Carta ao Visitador Francesco Saverio Filippucci”, Pequim, 16/5/1689, in Pereira (2011 I: 289). 25Poenulus, 332.
8. hoc opus, hic labor27. Encontra-se em Vergílio, no contexto da descida aos infernos. Descer é fácil. A entrada está aberta dia e noite. Sair, porém, é muito difícil: hoc opus,
hic labor est28. Só a uns poucos é dado, entre os quais “os que uma ardente virtude