Como dissemos anteriormente em nossa viagem, os montes nos ajudariam a produzir nosso território. Como morador de Vitória, para chegar ao trabalho fazia em todos os “dias de batente” uma viagem de aproximadamente uma hora. Saía de Vitória, tomava o ônibus em Serra, e aportava as terras férteis de Cariacica. O Mestre Álvaro, que avistei e visitei durante minha infância e juventude – e que ainda avisto da minha janela – me acompanhava durante meu trajeto diário e fazia-se visível de Campo Verde onde trabalhava. Lá, onde antes havia uma grande “baixada” verde e hoje há uma grande concentração populacional, aos pés do Moxuara, consegui meu primeiro trabalho como psicólogo, descobri a Assistência Social e continuei minha formação profissional.
Esta história-trajetória segue do Mestre ao Lenço e do Lenço ao Mestre várias vezes e compõe o profissional que busca traçar novas linhas entre os dois Gigantes de
32 Pedra. Levando como na adaptação da lenda indígena do Pássaro de Fogo, mensagens de luta pela afirmação dos movimentos da vida. Entretanto, sobra-me a certeza de que não sou o único, tampouco mágico. Buscamos ser – eu e as muitas vozes que ecoam em mim e em outros – aliados da vida.
O pássaro de fogo
Em tempos bem antigos, na época em que a mitologia se confundia com a história, conta-se que dois jovens de tribos rivais se conheceram e antes que soubessem de suas origens e da rivalidade que existia em suas tribos, nasceu entre eles um amor tão forte e belo como o Sol.
Ela, uma lindíssima princesa indígena, filha do poderoso cacique que ocupava uma imensa terra, onde hoje encontramos o atual município de Cariacica. Ele, um forte guerreiro de uma tribo que ocupava as terras hoje conhecida como município da Serra.
Quando esse amor chegou ao conhecimento das tribos, aumentou a rivalidade e a fúria dos caciques contra esse amor, que era incontrolável. O cacique indígena, pai da princesa, jamais aceitaria o enlace da sua querida filha, com o inimigo de seu povo, mesmo sabendo quanto era valioso o dote do noivo e da sinceridade da jura de seu amor. Em conseqüência criou-se uma barreira intransponível entre as terras das duas tribos e os jovens não podiam de maneira alguma chegar próximo dessa divisa. Mas o amor, quando sincero e forte, é algo que ultrapassa qualquer barreira e sempre encontra um aliado. Foi o que aconteceu. Os apaixonados conseguiram a ajuda de uma ave misteriosa, que em horas determinadas, levava o casal a pequenos montes em pontos de fronteira de suas tribos, onde ambos se viam. Então a índia cantava juras de amor ao seu escolhido e ele retribuía da mesma maneira com cantigas que tocavam seus corações.
Continuaram assim, nesse amor poético e passando o tempo, combinaram uma fuga. Quando chegou ao conhecimento do cacique indígena a fuga romântica de sua filha foi o bastante para reunirem todos os sábios conselheiros da tribo e um feiticeiro, que transformou os apaixonados em pedra nos referidos locais onde se avistavam. Estes se elevaram e constituíram dois belos e lendários montes, muito importantes no litoral capixaba, que conhecemos como: MOXUARA, a princesa, em Cariacica, e o MESTRE ÁLVARO, o príncipe, na Serra. Porém, uma fada compadecida de um destino tão cruel, concedeu uma trégua aos enamorados, na rigidez de suas posições.
Uma vez ao ano, na passagem de São João, os jovens recuperam de forma invisível, sua forma humana e primitiva, ocasião em que fazem juras de fidelidade e presenteiam-se com ricas jóias e outros mimos, sempre com a ajuda da ave amiga, que transformada em bola de fogo é a mensageira entre os apaixonados. Levando de um para o outro as juras de amor e os presentes, que atestam a sinceridade infinita [...]25
Nos nossos últimos passos, falamos algo da minha trajetória profissional, que tem sua gênese no curso de graduação em psicologia na Universidade Federal do Espírito Santo. Desde aquela época, já me inquietavam algumas questões relativas às práticas psi . No fazer deste trabalho, outras questões ganharam forma, por exemplo, os modos de ocupação do território, as práticas de assistência e as artes
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33 de governar. Nossa proposta neste trecho do percurso é discutir as práticas que atuam como vetores de produção dos CRAS.
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2 O CRAS COMO EFEITO
“... não se trata de mostrar – o que de todo modo é uma tarefa inútil – que ele teria sido necessário, tampouco que é um possível, um dos possíveis num campo determinado de possíveis. Digamos que o que permite tornar inteligível o real é mostrar simplesmente que ele foi possível. Que o real é possível: é isso a sua inteligibilização” (FOUCAULT, 2008a, p. 47).
O campo social, que em muitas situações é tomado como um a priori, algo de que se parte para analisar determinados fenômenos, é pensado por Donzelot (1986) como algo que emerge de um hibridismo e não de uma linhagem pura. O social não é em si um dado natural, um campo que foi descoberto em certo momento, mas uma produção que se dá no entrecruzamento de outras linhagens.
Deleuze, prefaciando a obra de Donzelot (1986), aponta o judiciário, o econômico, a educação, o público, o privado, como algumas das linhagens que irão compor e ao mesmo tempo serão produzidas por esse social. A emergência do social inclui também todo um pessoal qualificado, aos quais Guattari e Rolnik (1986, p.29) chamaram trabalhadores sociais: assistentes sociais, psicólogos, jornalistas, educadores, etc. Dentre esses trabalhadores, e esses campos demarcados (ainda que precariamente) interessa-nos analisar neste trecho do trabalho a assistência social26, que tem sua gênese atrelada à produção do próprio “social”, como tentaremos expor a seguir.