Ulisses é uma das figuras máximas de referência para a composição da identidade do poeta engenheiro. Encontram-se muitas passagens da obra poética em que se faz notar a sombra do mito, conhecido entre os portugueses como fundador da cidade de Lisboa. Ele aparece sorrateiramente personificado sob os mais diversos modos de articulação do tema da viagem. Na “Ode Triunfal”, a promessa de satisfação produzida pelo devir das sensações aparece aos gritos de exortação, como se o poeta escrevesse montado numa cavalgadura, lembrando a infância de Chevalier de Pas, arquétipo infantil
164 “Não é preciso mais do que atentar na mera expressão da nossa nova poesia para nos encontrarmos em
pleno transcendentalismo panteísta. Logo no vestíbulo da investigação nos aparece a característica
contradição deste sistema. ‘Materialização do espírito’, e ‘espiritualização da matéria’, ‘choupos d'alma’,
quedas que são ascensões, folhas que tombam que são almas que sobem — não é preciso mais, repetimos. Eis, em seu pleno estado emotivo, o transcendentalismo panteísta.” (PESSOA, F. Obra em Prosa, A nova
poesia portuguesa no seu aspecto psicológico, pp.395-396).
145 de Fernando Personne, a percorrer as primeiras sensações em busca de um lar para sua alma.
Eia comboios, eia pontes, eia hotéis à hora do jantar.
Eia aparelhos de todas as espécies, férreos, brutos, mínimos, Instrumentos de precisão, aparelhos de triturar, de cavar, Engenhos, brocas, máquinas rotativas!
Eia! eia! eia! (...)
Galgar com tudo por cima de tudo! Hup-lá! Hup-lá, hup-lá, hup-lá-hô, hup-lá!
He-lá! He-hô Ho-o-o-o-o! Z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z!
Ah! Não ser eu toda gente e toda parte! 166
Como na Odisseia, o fluxo autorreflexivo das sensações depende essencialmente “dessa relação entre a volta ao lar, nóstos, e a inteligência, nóos, de Ulisses.”167 A profissão de engenheiro naval aparece como símbolo de uma personalidade dotada de astúcia e inteligência, capaz de construir, como em Ode Marítima, navios-poemas que atravessam as intempéries da viagem e da escrita. O poeta dá voltas com a inteligência como quem viaja por um oceano subjetivo de sensações à procura da exterioridade perdida. Lisboa constitui o horizonte simbólico dessa viagem. Mas, ainda que errante, e marcado pelo signo da diferença, o poeta não poderá romper por completo os limites da subjetividade fáustica, deixando insatisfeita sua ânsia pela exterioridade. Ao contrário de Alberto Caeiro, “Argonauta das sensações verdadeiras”, para quem a sensação era externa ao cogito e completamente acessível aos sentidos, em Álvaro de Campos, a sensação não passa de um reflexo subjetivo da exterioridade que, ao desdobrar-se em autorreflexão, permite ao heterônimo diferenciar-se de si em sua multiplicidade. Com efeito, estilhaçada pelo fluxo autorreflexivo das sensações, a identidade de Álvaro de Campos é constantemente impulsionada em direção à exterioridade, abandonando ocasionalmente o enclausuramento do cogito heteronímico. Mas a circularidade autorreflexiva das sensações não lhe permite contemplar, como no mestre heterônimo, a singularidade das
166 PESSOA, F. Obra Poética, “Ode Triunfal”, p.311.
167 SELIGMANN-SILVA, M. “Ulisses ou a astúcia na arte de trocar presentes”, in O local da diferença,
146 formas sensíveis. Ao contrário, ela o transporta com impulso redobrado para a distância subjetiva, marcando-o sempre com o desconforto de sentir-se estrangeiro por toda parte.
Estou hoje vencido como se soubesse a verdade. Estou hoje lúcido como se estivesse para morrer, E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.168
Atente-se para a variedade de símbolos que articulam o tema da viagem. Como se observa nos poemas “Lisbon Revisited”, mesmo quando em Lisboa, sua Ítaca contemporânea, o heterônimo não poderá contentar-se com a sensação de retorno ao lar. As malas por arrumar, as partidas de comboio, o motor do automóvel último-modelo, o ir e vir dos navios nas docas são algumas das imagens que designam o anseio de encontrar uma forma objetiva que o reconforte da busca sensacionista pela exterioridade perdida.
Tenho que arrumar a mala de ser. Tenho que existir a arrumar malas.169
Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra, Ao luar e ao sonho, na estrada deserta,
Sozinho guio, guio quase devagar, e um pouco
Me parece, ou me forço um pouco para que me pareça,
Que sigo por outra estrada, por outro sonho, por outro mundo, Que sigo sem haver Lisboa deixada ou Sintra a que ir ter,
Que sigo, e que mais haverá em seguir senão não parar mas seguir?170 Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime!
Ser completo como uma máquina!
Poder ir na vida triunfante como um automóvel último-modelo!171 Mas, ah outra vez a raiva mecânica constante!
Outra vez a obsessão movimentada dos ônibus.
E outra vez a fúria de estar indo ao mesmo tempo dentro de todos os comboios De todas as partes do mundo,
De estar dizendo adeus de bordo de todos os navios,
Que a estas horas estão levantando ferro ou afastando-se das docas.172 168 PESSOA, F. Obra Poética, “Tabacaria”, p.363.
169 PESSOA, F. Obra Poética, “Grandes são os desertos, e tudo é deserto”, p.382.
170 PESSOA, F. Obra Poética, “Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra”, pp.371-372. 171 PESSOA, F. Obra Poética, “Ode Triunfal”, p.306.
147 Na estrada de Sintra, perto da meia-noite, ao luar, ao volante,
Na estrada de Sintra, que cansaço da própria imaginação, Na estrada de Sintra, cada vez mais perto de Sintra, Na estrada de Sintra, cada vez menos perto de mim...173