Interessado na temática do conflito, a solução que Coser (1964) propõe é voltar para um ponto anterior em que o conflito tinha importância investigativa por ser reconhecido como uma forma de interação social. Essa posição no tempo se refere aos estudos de Simmel a respeito do conflito, com sua ênfase na visão de que o “conflito é uma forma de socialização”18
(p. 31). Apesar de considerar que as ideias de Simmel ainda estavam inacabadas, entende que este autor deveria ser revisto para poder ser superado.
Para Coser, Simmel era ao mesmo tempo o ponto de partida, e o último que havia tratado do assunto. Entretanto, julgava que seu trabalho estava ou incompleto, ou precisava de uma crítica.
Em linhas gerais, o que Coser propõe é superar uma tendência à normatividade que a teoria de Simmel apresenta a respeito do conflito. Por exemplo, para Simmel, o conflito é sempre positivo, e Coser procura criticar essa forma de determinismo.
Para poder analisar e criticar a obra de Simmel, Coser a divide em 16 grandes proposições que resumem os pontos principais do pensador alemão a respeito do conflito. A partir disso ele se aprofunda em cada um dos temas na tentativa de complementá-los, conforme síntese a seguir.
Proposição 1: Para Simmel, o conflito estabelece fronteiras entre os grupos, reforça a consciência e estabelece ! a repulsa recíproca mantém um sistema social na medida em que equilibra os diversos grupos. Coser sugere considerar diferenças entre conflito e
atitudes hostis ou antagonistas, pois entende que o conflito leva a relacionamentos, enquanto atitude hostil é uma propensão ao conflito, sem que este chegue a ocorrer em 100% das ocasiões.
Proposição 2: Para Simmel, a hostilidade interna tem valor positivo na medida que " ! 1" ! " ! " " $( a resistência diminui a opressão e dá satisfação ao oprimido. Coser propõe romper com a normatividade da teoria de Simmel. Em outras palavras, sugere que o “conflito em sempre é disfuncional”19 (COSER, 1964, p. 47) em
vez de considerá- " 1" ! ! * +/ as saídas para reduzir a
tensão entre partes que não seja o conflito obrigatoriamente.
Proposição 3: Conflito, para Simmel, 1 " " !' " # " # " # superior, não há motivos para ser evitado. Coser diferencia conflitos ora como um fim, e ora como um meio para se obter algo. A partir dessa tipificação, entende que quando o conflito é visto como um fim em si (no caso de uma hostilidade contra um inimigo), ele só se se satisfaz com o conflito, ao passo que quando é um meio para se atingir o objetivo, se o objetivo for atingido por outro meio, o conflito poderia não ser utilizado.
Proposição 4: Para Simmel, o sentimento de hostilidade que surge contra o oponente é um tempero a mais na disputa, mas não a essência principal. Segundo Coser, quando o conflito é um meio, ele nem sempre carece de hostilidade para se efetivar, mesmo que não simpatizar com o competidor seja uma vantagem na disputa.
Proposição 5: Na visão de Simmel, n( 1 ! ' ! " * $( '
pelo fato de os relacionamentos provavelmente abrigarem tanto elementos de repulsão, quanto de atração. Para Coser, a noção de antagonismo só está presente se houver proximidade íntima entre as partes em conflito, o que, na prática, sugere que quanto maior a proximidade, maior a intensidade do conflito.
Proposição 6: Segundo Simmel, quanto maior a proximidade dos oponentes, maior a intensidade do conflito. Para Coser, entretanto, isto não significa que haja uma tendência de haver mais conflitos nos grupos mais próximos.
Proposição 7: Para Simmel, a unidade se forma após a erupção do conflito. Coser entende que alguns conflitos tendem a estreitar a unidade do grupo, especificamente aqueles cujos objetivos estão de acordo com os valores que ergueram a existência do grupo.
Proposição 8: Simmel entende que relacionamentos sólidos são capazes de superar momentos de conflito. Portanto, o conflito é uma oportunidade de verificar a consistência do
relacionamento. Já para Coser, não é a existência do conflito que atesta a solidez do relacionamento, posto que há relações duradouras sem conflito. Além disso, deve ser considerada a diferença entre relações que aumentam a hostilidade, das que apenas promovem brigas constantes, estando as últimas menos sujeitas à noção de que o conflito seria a ferramenta adequada para medir a estabilidade do relacionamento.
Proposição 9: Para Simmel, o conflito externo impõe proximidade interna de tal forma que, ou se estabelece vínculos fortes ou se separa definitivamente, motivo pelo qual, o conflito externo acaba por aumentar a coesão interna, sendo o despotismo uma forma extrema de centralização, considerada a melhor forma de se integrar o grupo em uma guerra. Coser entende que a coesão nem sempre leva à centralização de poder, pois depende tanto do tipo de grupo quanto da forma do conflito, sendo, entretanto, mais susceptível em situações de guerra e quando demanda um sistema de divisão de trabalho mais elaborado. Quanto ao despotismo, parece mais estar associado à fraqueza de coesão.
Proposição 10: Simmel aponta que um grupo em situação de conflito não tolera desvios
! ! ! ' * ! ( " # /' !# s internos, dada a
proximidade do centro com a periferia. Já para Coser, a intolerância quanto a desvios de conduta ocorre mais em grupos que permanecem de maneira continuada em situação de conflito, e que exigem dedicação integral do membro. Quando a situação de conflito não é contínua, ela não exige nem dedicação individual e nem rigor na escolha dos membros, e portanto, tolera mais o conflito interno.
Proposição 11: Simmel indica que a existência de inimigos é uma forma de manter a coesão de um grupo, particularmente dos pequenos, daí que é saudável ao líder inculcar em seus liderados a existência de um inimigo para manter a coesão. Para Coser, em grupos que o estado de atenção para o conflito é mais alerta, basta uma ameaça, mesmo que não real, para contribuir à coesão do grupo.
Proposição 12: Segundo Simmel, ideologia é capaz de conduzir consciências individuais a um objetivo comum. Coser entende que quanto menor as razões pessoais para o conflito e maior as coletivas, mais agressivo será o conflito, pois os valores coletivos tendem a ser aceitos de maneira mais radical, sendo a objetivação do conflito, elemento de coesão importante.
Proposição 13: A ideia da teoria de Simmel é que, salvo situações em que o objetivo é exterminar o inimigo, o conflito produz relacionamento entre as partes onde antes não havia, e tende a criar mecanismos de regulação de atividades, estabelecendo uma espécie de padrão de relacionamento entre as partes. Para Coser, o conflito é capaz de iniciar relacionamentos até
entre os oponentes, na medida que é um canalizador de novas normas que regulam a relação entre as partes. Da mesma maneira, reafirma a necessidade de cumprimento de regras pouco utilizadas, estimulando assim, solidariedade.
Proposição 14: Para Simmel, a organização e unidade do inimigo podem ser favoráveis, pois canalizam o conflito para um ponto específico em vez de ficar diluído em várias frentes. Coser usa o exemplo da negociação sindicato x patrões para confirmar essa proposição, pois, estando as partes organizadas, tendem a concentrar esforços para eliminar as diferenças.
Proposição 15: No entendimento de Simmel, o conflito tende a manter o equilíbrio de poder, na medida em que ambas as partes tentam se manter competitivas diante da outra (entenda-se, que, paradoxalmente, como no caso da corrida armamentista, deveria acelerar o conflito, mas mantém a paz, graças o equilíbrio entre as partes). Para Coser, isso não pode ser pensado como uma regra, pois tal equilíbrio de poder e portanto, acomodação entre as partes,
& 1 + !+ " ! # / ! ! ! * # $
o combate é uma forma de manter o equilíbrio.
Proposição 16: O conflito, para Simmel, proporciona o desenvolvimento de coalisões e o surgimento de aliados, que em situações de paz não poderiam sequer ter a possibilidade de se relacionar. Coser complementa, ao afirmar que coalisões temporárias estão mais presentes
* ! ! ( "/ '"/ 1" * ! "
distanciadas culturalmente, menor os pontos de intersecção entre as partes. Salienta ainda que a maioria dos acordos que ocorrem quando os grupos já estão estabelecidos, têm propósito defensivo, havendo, entretanto, uma desconfiança por parte de outros grupos quando observam essas coalisões.
Em linhas gerais, Coser (1964) aponta que em estruturas sociais flexíveis – entenda-se, não dogmáticas – o fato de haver múltiplos interesses por parte de cada um dos participantes do grupo, faz com que impeça um comportamento mais próximo de um ou outro axioma, levando a uma situação de equilíbrio que atua no sentido inverso ao estabelecimento do conflito. É como se, paradoxalmente, a estrutura multiconflituosa desenvolvesse mecanismos para trazê-la ao equilíbrio, afastando o risco de um conflito destrutivo em seu interior. A resposta, portanto, está no entendimento da estrutura.
Coser (1964) conclui que o que alimenta um conflito disfuncional é uma estrutura rígida, impermeável à tolerância e institucionalizada. É a rigidez que impede a discussão aberta das diferenças, aumentando de forma latente a hostilidade, que sob conflito, tende à ruptura.
Observam-se duas importantes contribuições de Coser, a partir de sua discussão das ideias de Simmel, e que muito se assemelham às conclusões de Dahrendorf. A primeira é sua
oposição ao entendimento do conflito como uma norma social que levará sempre ao mesmo resultado. Ele rompe com a visão determinista de Simmel. O resultado do conflito deixa de ser uma certeza e passa a ser um leque de possibilidades. A segunda se relaciona à necessidade de se dedicar ao entendimento da estrutura social para se compreender o conflito.
Isso abre definitivamente espaço para a pesquisa empírica na tentativa de entender como determinado grupo social, sob condições específicas de existência, se comporta diante do conflito. A resposta está na estrutura. O próximo passo é, portanto, se dedicar a elaborar seu desenho.
A construção do esboço da estrutura social da indústria da TI será feita a seguir em duas etapas. A primeira é descrever eventos que ocorrem em seu interior na tentativa de capturar a essência de seu funcionamento. Em seguida, a partir dos problemas levantados na observação participante, elaborar questões e submetê-las aos indivíduos presentes na estrutura social para buscar por meio deles as respostas.
Feito isso, terão sido apresentados os elementos que permitirão compreender os elementos estruturais que impulsionam o conflito na organização, que é uma pergunta importante a ser respondida. Quanto à positividade ou disfuncionalidade do conflito, será feito um cruzamento da situação da indústria da TI observada com as respostas dos membros do
staff, e discutido posteriormente na conclusão.
O capítulo a seguir apresenta a Indústria da Tecnologia da Informação, o ambiente em que o conflito está sendo observado nesta pesquisa.