The 3 ns beams
4.7 The error bars
A ergonomia, como já foi definida pela Associação de Ergonomistas de Língua Francesa (SELF), é "uma disciplina que agrupa os conhecimentos da fisiologia, da psicologia e das ciências conexas aplicadas ao trabalho humano em vistas de uma melhor adaptação dos métodos, dos meios e do ambiente de trabalho ao homem" (Wisner, 1988, p. 3).
Atualmente, a ergonomia é considerada interdisciplinar, baseada em resultados experimentais obtidos a partir do estudo empírico e que podem proporcionar informações certas para modificar as instalações, as maquinarias, os equipamentos e as ferramentas, assim como a tecnologia para adaptar melhor o trabalho ao homem (Wisner, 1988). Mas se trata de uma disciplina que surge em razão das contribuições da antropometria, da fisiologia do trabalho, da psicologia do trabalho, da psicologia cognitiva, da engenharia e da biomecânica, da toxicologia e de outras disciplinas que se ocupam do "homem em situação de trabalho".
A ergonomia tem descoberto e aceitado a distinção entre o trabalho prescrito, comumente chamado "tarefa", que é elaborado e designado pela direção dos trabalhadores, e é apresentado em manuais de funções, e entre o trabalho real, também chamado "atividade", que é o trabalho desenvolvido efetivamente no dia-a-dia pelo trabalhador em seu posto de trabalho. Esse trabalhador não é somente um ente biológico que só existe como um corpo, mas que também possui dimensões cognitivas, afetivas e relacionais, que estão indissociavelmente ligadas durante o desenvolvimento de sua atividade laboral.
No desenvolvimento de sua atividade, o trabalhador passa por uma adaptação operativa, que pode ser esquematizada, segundo Santos (1988), conforme se observa na Figura 2.1.
Figura 2.1 - Esquema de adaptação operativa
O indivíduo se comporta como um sistema de regulação, isto é, como um sistema cujo funcionamento é regido pelos desvios entre seu comportamento efetivo (instantâneo) e o comportamento prescrito. Ele pode agir em dois níveis: no primeiro nível, o indivíduo adapta os modos operativos, em função do nível de exigência da tarefa e da carga induzida; no segundo nível, o indivíduo limita o nível de exigência da tarefa, quando esse nível assume valores insuportáveis. O segundo nível de regulação só é exercido quando o primeiro já está saturado, quando a adaptação dos modos operativos não pode mais compensar o aumento do nível de exigência da tarefa. Nesse caso, o trabalhador equilibra o sistema, agindo não mais sobre o processo entre a entrada e a saída, mas limitando diretamente a entrada.
É o ser humano na sua totalidade que se compromete no trabalho, toma parte de um trabalho coletivo que não resulta da simples adição dos trabalhadores individuais. Para a ergonomia não existe um "trabalhador promédio", e os estudos antropométricos dão uma base sólida para se pôr em relevo que a heterogeneidade entre os seres humanos é o que predomina, já que existem diferenças individuais que dão lugar a múltiplas capacidades de resistência e de adaptação aos riscos profissionais. É nessa diferenciação que a ergonomia abre seu espaço de aplicação multidisciplinar nas áreas de trabalho.
A ergonomia serve para fins múltiplos. Remete a conhecimentos e tecnologias, (1) para reduzir ou eliminar os riscos profissionais, promovendo um trabalho seguro, apartado dos acidentes de trabalho e das enfermidades profissionais; (2) para melhorar as condições de trabalho, com a finalidade de evitar um incremento da fadiga, provocado pela elevada carga
ENTRADA: TRABALHO PRESCRITO SAÍDA: TRABALHO EFETUADO
ESCOLHA DOS MODOS OPERATÓRIOS ADAPTADOS
CIRCUITO DE NÍVEL 1 CIRCUITO DE NÍVEL 2
Controle e avaliação
global de trabalho em suas várias dimensões: carga física derivada do esforço muscular, carga psíquica e carga mental; e, finalmente, (3) para lograr uma maior eficiência das atividades produtivas (Santos, 1991).
A utilização racional dos conhecimentos ergonômicos apropriados a cada realidade torna possível o melhoramento da produtividade, a redução de acidentes, o incremento da qualidade e a redução dos custos laborais que se manifestam sob a forma de absenteísmo, rotação, conflitos, falta de interesse pelo trabalho, etc. A ergonomia proporciona elementos para questionar a racionalidade e a eficácia econômica da organização científica do trabalho em suas modalidades tayloristas e fordistas, e para humanizá-lo.
Com freqüência, "a experiência e as vivências dos trabalhadores podem contribuir na sua criatividade, efetuando aportes decisivos para o melhoramento das condições e meio ambiente de trabalho, uma vez identificados os riscos e detectado (sic) cientificamente suas causas e origens" (Santos, 1991a, p. 12). Essa decisiva participação dos trabalhadores é insubstituível quando se trata de empresas ou instituições nas quais não trabalham ergônomos em tempo integral.
As transformações operadas no processo de trabalho, pela introdução das novas tecnologias informatizadas e automatizadas, ampliam substancialmente o campo de ação da ergonomia e colocam em relevo a existência de uma impressionante atividade cognitiva por parte dos trabalhadores, sem a qual os novos equipamentos e os softwares seriam incapazes de atualizar todas as suas possibilidades.
O trabalho não é uma descoberta recente da humanidade. É um objeto complexo porque ele é, incontestavelmente, um objeto multidimensional. O conceito de trabalho pode ser abordado, de muitas maneiras, segundo a dimensão considerada: a dimensão econômica, que repercute nas atividades de subsistência; a dimensão psicológica de criação ou de realização de si mesmo; e a dimensão social, que repercute na cooperação, inserção na sociedade ou pesquisa de solidariedade. O trabalho pode ser definido pela análise das atividades, mas também por meio de representações que os homens elaboram e através de idéias que eles fazem a si próprios a respeito do trabalho. Se essa noção faz o objeto na mesma proporção que os debates, isso se deve, sem dúvida, ao fato de sua ambigüidade original: o homem tira sua subsistência do trabalho, ao mesmo tempo que sonha dele se eximir.
O trabalho é um objeto tal que uma única disciplina não pode abarcá-lo. O enigma da complexidade do trabalho não é o problema central da ergonomia. Ela se apresenta não como
uma disciplina particular, mas como uma espécie de “metadisciplina”, que convoca numerosas disciplinas para resolver o enigma da complexidade.
Cazamian (1974, p. 75) explicita dessa forma sua concepção de ergonomia como multidisciplina: “Eu propus esta definição de ergonomia: o estudo multidisciplinar do trabalho humano que dele tenta descobrir as leis para melhor formular as regras. A ergonomia [...] é conhecimento e ação; o conhecimento é científico e se esforça para desembocar nos modelos explicativos gerais; a ação visa melhor adaptar o trabalho aos trabalhadores”.
Para Sperandio (1989, p. 85), “a ergonomia é uma disciplina científica e um pouco particular. Ela é constituída por muitas disciplinas, mais exatamente pelas partes das disciplinas que concorrem para o conhecimento científico do homem no trabalho, sob diversos aspectos fisiológicos, psicológicos, sociológicos e médicos do trabalho humano”. A ergonomia combina, pois, saberes disciplinares, e essa recomposição é finalizada porque ela visa explicar as práticas de trabalho: ela não retém exceto o que é pertinente para a explicação do desenvolvimento do trabalho e seu ambiente.
De outro lado, a ergonomia contribui para transformar as situações de trabalho. Ela visa a adaptação do “trabalho ao homem” (Sperandio, 1989). Se bem que esse objetivo não é incompatível com a adaptação do homem ao trabalho. Notadamente, pelo viés da formação, um estudo será qualificado de ergonômico quando ele visa explicitamente a adaptação do trabalho a diversas características dos homens, ou seja, o arranjo concreto das ferramentas, dos postos de trabalho e dos sistemas homens–máquinas, do meio ambiente e da organização do trabalho, assim como todos os intermediários técnicos utilizados. Deve ficar bem entendido que a questão dos critérios se encontra aqui engajada para decidir o que é uma melhoria. Mas será que esses critérios serão os mesmos para o engenheiro, o analista e a pessoa que trabalha? Certamente não, mas é importante notar que os conhecimentos produzidos são finalizados em relação a esse objetivo geral de melhoria, que é decomposto da seguinte forma: de um lado, pelos aspectos materiais, e de outro, pela organização do trabalho.