1.2 LES TECHNOLOGIES DE L'EXPLORATION 5
1.3.4 Erosion atmosphérique 18
Aparentemente, Frei Bernardo de Brito, ao encontrar a prova da história da Imagem e ao promover a abertura da lapa e a inscrição, teria permitido a recu- peração de uma amnésia social27. Essa recuperação, recebida com alguma satis-
fação no seio dos devotos da Senhora, introduziria novas vivências no Santuário, por parte dos peregrinos.
Em Dezembro de 1609, deslocou-se ao Sítio uma das mais interessantes figuras da vida religiosa e cultural portuguesa. Referimo-nos ao chantre Manuel Severim de Faria que, sobre a visita, deixou a seguinte descrição:
24Barbosa Machado, op. cit., p. 527. O autor cita Severim de Faria na sua Notícia de Portugal. Lisboa, 1740,
p. 285.
25Padre Manuel de Brito Alão, op. cit., fls. da dedicatória e 53.
26Padre Manuel de Brito Alão, op. cit., fl. 119. Cf. o nosso estudo, D. Gastão Coutinho e o prestígio da
linhagem. Voz da Nazaré. N.º 200, (Fevereiro 1994), p. 6 e ainda Mário Baptista Pereira, D. Gastão Coutinho, alcaide-mor de Torres Vedras. Voz da Nazaré. N.º 200, (Fevereiro 1994), p. 6. baseado em IAN/TT, Chancelarias Régias, D. João IV, livro 3, fls. 209 ss.
27Entendemos por amnésia social uma das perturbações da memória colectiva que se caracteriza pela
ausência de recordações. Essa amnésia pode ser de várias categorias. Entre elas existe a amnésia lacunar total e a de factos recentes. A primeira refere-se a um período limitado de tempo e é a consequência direc- ta da falta de fixação da recordação. A segunda envolve o esquecimento de acontecimentos recentes e pode tornar-se numa constante produção de fábulas (A. L., Mémoire. In Encyclopédie Universalis. Paris, 1980, vol. X, p. 788-789].
“(...) Nos partimos logo [de Porto de Mós] a Nossa Senhora de Nazaré, no qual caminho gastamos o dia por ser aspero. Chegamos a noite e nos agazalhamos nas casas que estão para os hospedes defronte da igreja nobre- mente edificadas (...) Aqui mandou dizer o Sõr Chantre missa e nos offere- cemos aquella diuina Imag~e que tantos seculos há se conserua naquelle lugar sempre milagrosa (...) Depois de saidos da Igreja fomos ver o sinal das ferraduras que deixou o Cavalo em que ia D. Fuas Roupinho quando parou na ponta daquella altissima rocha, a qual hé tão perigosa achegada que hé necessario usar dos pés e das mãos para poder chegar a tocalas. Aqui nos contarão que o anno atras pela festa desta Senhora havendo grande con- curso de gente como he costume chegou h~ua mulher a ver estas ferraduras (...) cahio daquella imensa altura na Praia em baixo onde estava infinita gente que vendoa vir pelo ar chamaraõ em seu socorro cõ grande instancia a Senhora de Nazaré, e foi ella tão misericordiosa, que dando a molher na praia, fiquou taõ segura, e intacta, como antes (...) De Nossa Senhora a Alcobaça ha duas legoas. Aqui nos apeamos para ver o Mosteiro (...)”28.
Comparemos agora este relato com o do Padre Pero Domenech, que, na segunda metade do século XVI, orientou um grupo de peregrinos, oriundo do Colégio dos Meninos Órfãos de Lisboa:
“(...) De hy [Caldas] fomos a Pederneira omde fomos recebidos com a cruz e o dia seguinte fomos pola manhã a Nossa Senhora de Nazaret e con- nosco todo o povo e andando pollo caminho veo huma grande chuyva e foy grande a caridade de aquelles homens que logo todos os meninos forom cubertos com as capas. Dissemos missa cantada em Nosa Senhora com muytas cantigas e trovas e prosas de Nosa Senhora, cousa que depois cantando quanto sabiamos com deseio de cantar mais, hum dos padres começou a cantar altas vozes Avé Maria. Foy hum dia de muyto gram rego- cijo espiritual e por ser dia de festa estava hy muyta gente de diversas par- tes. O outro dia fomos a Alcobaça e outro a Batalha”29.
28M. Severim de Faria, Viagens em Portugal de Manuel Severim de Faria. 1604-1609-1625. Ed. lit. Joaquim
Veríssimo Serrão. Lisboa, 1974, p. 132-134.
29Francisco de Assis Oliveira Martins, O Colégio de Jesus dos Meninos Órfãos da Mouraria. Lisboa, 1959, p.
16. IAN/TT, Espólio Silva Marques, pasta 29, Crónica dos Meninos Órfãos (transcrição do antigo director do Arquivo Nacional), capítulo VIII (não se colocaram os sublinhados originais). Não sabemos se esta peregrinação ao Sítio tinha como objectivo encomendar à Senhora o bom sucesso das naus da Índia, ser- viço que “os Reys passados mandauão fazer per seus Cappello~es, & mininos Orfaõs” (cf. Padre Manuel de Brito Alão, op. cit., fl. 39 v).
Na análise comparativa, verificamos que em ambas as descrições se realça o grande número de devotos da Senhora presentes no Santuário durante o tempo das festas, assim como a importância das celebrações litúrgicas. Mas, à parte estas semelhanças, existem algumas diferenças fundamentais que nos remetem para as novas práticas peregrinas, após 1600. A narrativa do chantre demonstra que os peregrinos do século XVII conheciam a história da Imagem mariana e do milagre do cavaleiro, assim como dos seus vestígios (o caso da marca da ferradura). Por outro lado, realça a necessidade dos devotos tocarem esses sinais. Como referiu o Professor Jorge Dias, trata-se de uma necessidade inserida no pensamento mítico, nas suas características mágicas e na chamada lei do contágio, segundo a qual aquilo que uma vez esteve em contacto com forças superiores, continuará a exer- cer o seu poder, ainda que o contacto real tenha terminado30. Se a história fosse
conhecida no século XVI, não é de crer que o Padre Domenech e os meninos teriam agido de outro modo, dando a sua narrativa conta disso?
Outra mudança relevante foi a possibilidade de os peregrinos, no século XVII, poderem já ser hospedados no espaço do Santuário. Ao que tudo indica, só nessa altura o Sítio dispôs de condições de alojamento para os visitantes. Isto é, antes, os romeiros não podiam permanecer ali, comodamente, durante muito tempo. No Cancioneiro geral de Garcia Resende, Henrique da Mota, numa das
30Vilarinho da Furna. Uma aldeia comunitária. Lisboa, 1981, p. 196.
suas trovas, profetiza um fim desgraçado para uma “mula muyto magra, & velha (...) que hya em rromaria a nossa senhora de Nazarete”, pela escassez de alimento que ali iria encontrar: Se fordes a Nazaree/ aly he vosso fartar:/ ho ~qgram duçura he / area, & agoa do mar. / Se v’deos bem ajudar / nesta jornada, / quero vos profetizar / que aues la de ficar / estirada31. Também quando a rainha D. Leonor,
esposa de D. Manuel, se deslocou ao Sítio, em 1520, foi necessário Vasco de Pina providenciar os mantimentos necessários para a comitiva (33 galinhas, 14 capões, 20 perdizes, 14 carneiros, 6 almudes de vinho e fruta)32. Do mesmo
modo, duas freiras que ali foram em 1530, acompanhadas de um almocreve, para estabelecer um mosteiro no local, precisaram de se aviar previamente nas Caldas33. A solução mais razoável para os romeiros era permanecerem na vila da
Pederneira e, a partir dela, durante o dia, deslocarem-se à ermida, como sucedeu com os meninos órfãos. Com efeito, excluindo o caso do ermitão e da sua famí- lia, parece ter sido pouco vantajoso habitar o local antes da sua “domesticação”, que terá ocorrido no final de Quinhentos ou, o mais tardar, no inícios da centú- ria seguinte. No primeiro quartel do século XVI não existia sequer a intenção de permitir o cultivo da área em redor do local de culto. Quando o genro do ermi- tão, cerca de 1520, “pedira ao senhor provedor que lhe dece de sesmaria todas as terras e pacigos das bestas que a dita Senhora vem em romagem” foi considerado que tal “hera em grande prejuizo da gente que a dita Senhora vem em romaria e asim não ser onesto, a redor da igreja, hauer cazeiros nem lavradores, por todo ser necesario para pacigo”34.
Finalmente, a terceira diferença. Na centúria de Seiscentos, os homens pos- suíam mais um atractivo espaço de visita nos arredores do Santuário. Referimo-
31Garcia de Resende, op. cit., vol. V, p. 229.32Possidónio M. Laranjo Coelho, A Pederneira. Apontamentos para a história dos seus mareantes, pesca-
dores, calafates e das suas construções navais nos séculos XV a XVII. O Archeólogo Português. Vol. XXV, (1924), p. 199-200.
33Frei Jorge de São Paulo, Antiguidades das Caldas da Rainha e do tempo da Rainha D. Leonor. Rev., pref.
e notas por Fernando da Silva Correia. Caldas da Rainha, 1959, p. 64-65
34Confraria de Nossa Senhora da Nazaré/Arquivo Histórico, Real Casa de Nossa Senhora de Nazaré, (dora-
vante designado por CNSN, RCNSN), pasta 110, documentos vários, documento intitulado “Posse e pres- cripcão...”, traslado do manuscrito de 27 de Dezembro de 1520 (cf. P. Penteado, Nossa Senhora..., vol. II, apêndice I, documento XV) (conforme indicamos na bibliografia, as cotas do Arquivo Histórico da Confraria que aqui apresentamos são referentes a 1989, sendo necessário consultar a sua tabela de equiva- lência). Cf. ainda, a partir do “livro dos regimentos, provisões e mais sentenças...”, fls. 22-25, mais comple- to, a nossa transcrição em A demarcação do Sítio em 1520 (no prelo). Este manuscrito, que esteve na posse da Casa de Cadaval desde o século XVIII, graças à nossa intervenção, foi adquirido em 1995 pela Confraria de Nossa Senhora da Nazaré. Referenciado por Frei Manuel de Figueiredo, Dissertação historica-critica em que claramente se mostram fabulosos..., Lisboa, 1783, p. 97. Os foreiros quinhentistas, a que se refere Manuel Vieira Natividade, (O Mosteiro d’ Alcobaça. Alcobaça, 1885, p. 37), não eram habitantes do Sítio, mas mora- dores de outros lugares que possuíam algumas terras da Senhora, arrendadas ou emprazadas (cf. Padre Manuel de Brito Alão, op. cit., fl. 61 e Fr. Manuel de Figueiredo, op. cit., p. 88).
-nos à praia ou ribeira da Pederneira. A ela nos referiremos adiante. No início do século XVI, ela deveria ainda estar ocupada pelas águas do Oceano. Só com o progressivo assoreamento da costa, a praia ficaria disponível. A população apro- veitou este novo espaço, localizado defronte da vila, para ali depositar, sobretudo após 1593, as suas grandes embarcações, que então já não podiam procurar refú- gio no porto interior da lagoa da Pederneira (cf. ilustr. 16)35. Com esta desloca-
ção da vida económica, os romeiros, na sua maioria provenientes do interior do país, passaram a ter mais fácil acesso a alimentos frescos, vindos do mar36.
Verificamos que nem todas as novas práticas introduzidas no século XVII foram motivadas pela intervenção de Frei Bernardo de Brito. A pressuposta recuperação da amnésia social foi apenas mais um factor que veio contribuir para o aumento da procura do Sítio. Mas um factor extremamente importante, dado que permitiu a recuperação de um passado desconhecido e o reforço da mensagem espiritual do Santuário.