O tradutor, enquanto mediador de culturas tem que descobrir o efeito cômico do texto original e encaixá-lo na língua-alvo, já que a função principal do humor é gerar hilaridade na platéia ou nos leitores.
A prioridade da presente pesquisa é o campo textual, mas não deve se deixar de lado o cênico, ressaltando que Shakespeare era dramaturgo e que as suas peças eram escritas para serem encenadas. Certamente, o ato da leitura de suas peças pressupõe imageticamente a encenação da cena onde o humor se apresenta.
A respeito do humor no texto e que é encenado no palco, o método utilizado pelo dramaturgo é simples: gerar mal-entendidos decorrentes de trocadilhos. A título de exemplo, um trecho da peça A Megera Domada, no Ato II, Cena I:
PETRUCCHIO: Don‗t mistreat the one who woos you.
PETRUCCHIO: Oh delicate dove, a crow would please you?
KATHERINA: It‗s better than a vulture. (2005, p. 58)
Segundo o Oxford Dictionaries (OD), woo14 remete ao cortejo, enquanto caw15 remete ao vôo do corvo. A proximidade entre ambos os verbos feita por Catarina remete ao fato de que o som das aves (cantar para se acasalar) também pode ser descrito (ao menos no teor poético) como ―wooing‖.
Em outras palavras, Petrúquio está cortejando a megera, para casar com ela, embora a conotação sexual (acasalar) esteja implícita.
Como traduzir o humor de Shakespeare? Stanislaw Baranczak (1992, p. 70), tradutor polonês de Shakespeare, levanta esta questão. O desafio de traduzir o humor do dramaturgo se resume em sua seguinte asserção: tem que traduzir ―de modo que o público ria16
‖.
Se a função de um texto é rir, ainda que o texto suscite problemas de tradução, é comum que o texto ou seja completamente eliminado ou então substituído por um texto bem-humorado completamente diferente, que será igualmente divertido na língua-alvo. Baranczak assegura que Shakespeare escrevia as suas piadas e cenas cômicas com um propósito, que era ――agradar‖. Não há nenhuma razão para que seu tradutor estrangeiro faça o contrário. ―Agradar‖, provocar o riso no seu público nativo, deve ser também a prioridade principal do tradutor‖ (1992, p. 70, tradução minha17) .
Como o próprio Baranckzak pontua, ―[...] o público não pode esperar se divertir de verdade com o humor verbal numa performance de Shakespeare‖ (BARANCKZAK, 1992, p. 71, tradução minha18
). O tradutor cita um exemplo da peça Hamlet, embora numa perspectiva teatral e não textual, mas relacionado ao ato de traduzir:
14 Disponível em: http://www.oxforddictionaries.com/definition/english/woo?q=woo 15 Disponível em: http://www.oxforddictionaries.com/us/definition/american_english/caw 16
Original em inglês: ―So that the audience will laugh.‖
17
Original em inglês: ―[…] Shakespeare wrote his jokes and comical scenes with one purpose in mind, […] ―to please.‖ There is no reason why his foreign translator should do otherwise. ―To please,‖ to elicit his native audience's laughter, should be the translator's top priority too.‖
18
Original em inglês: ―[...] the audience cannot expect any genuine amusement caused by verbal humor at a Shakespeare performance.‖
Qualquer um dos solilóquios de Hamlet, mesmo em uma tradução média, tem – se interpretado por um bom ator – o poder de deixar o público surpreso. Por outro lado, qualquer cena cômica em
Hamlet provavelmente deixará o público em um
estado de embaraçosa incompreensão. (idem, tradução minha19)
Desta forma, Baranczak propõe a sua teoria de tradução de peças de Shakespeare: o mural retangular (idem, p. 73). Cada parede deste retângulo representa estes elementos a respeito da tradução de Shakespeare: Fidelidade, Clareza, Efeito Poético e Funcionalidade Teatral, representados pela imagem abaixo:
Imagem 1: O Retângulo de Stanislaw Baranczak
Quando o tradutor prioriza um destes elementos, outros desabam. A respeito da Fidelidade, se o tradutor se vale da fidelidade literal (aproximação filológica, como denomina Baranczak), como conseqüência a tradução não será tão compreensível, o valor poético é nulo e dificilmente será útil num teatro.
A respeito do Efeito Poético, se este elemento é valorizado pelo tradutor, certamente não será tão fiel ao efeito poético do texto original, muito menos será compreensível e aplicável ao teatro.
Sobre o elemento Clareza, este por sua vez, pode ser útil à Funcionalidade Teatral, salvo que a plateia não terá problema de
19
Original em inglês: ―Any of Hamlet's soliloquies, even in an average translation, has - if performed by a good actor - the power to leave the audience stunned. By contrast, any of the comical scenes in Hamlet is likely to leave the audience in a state of embarassed incomprehension.‖
compreensão, mas pode falhar em Fidelidade e Efeito Poético, pois a Clareza afastará o sentido original e o Efeito Poético será nulo no palco.
E a Funcionalidade Teatral, por mais que seja uma prioridade dos tradutores de Shakespeare, ela tende a romper com aqueles outros três elementos acima citados, pois a visão do diretor acaba sendo a influência da tradução neste âmbito.
Em outras palavras, o diretor-tradutor quer que o espetáculo aconteça, sem se preocupar tanto com o contexto original, a poeticidade dos diálogos e a compreensão dos mesmos. Sobre estas paredes, Baranczak fornece a implicância (e porque não também a sua importância) de cada uma delas para o tradutor:
A parede de Fidelidade, mesmo que instável às vezes, evite que ele se afaste dos significados pretendidos por Shakespeare; a parede da Clareza o impede de cair na imprecisão semântica ou opacidade, a parede do Efeito Poético nunca deixa-o esquecer que Shakespeare era, afinal, um mestre incrivelmente talentoso da linguagem; e a parede de Funcionalidade Teatral lembra que Shakespeare era um gênio do palco que nunca em sua vida escreveu uma única cena maçante. (BARANCKZAK, 1992, p. 74, tradução minha20)
Baranczak sugere que o tradutor tente manter estes quatro elementos no seu ato tradutório, como também quer que estes elementos apoiem-se um no outro. Como ele próprio adverte: ―Se uma simples parede desabar, o tradutor fica sem proteção alguma às ameaças resultantes, e qualquer uma delas pode ser letal ao seu trabalho (1992, p. 73, tradução minha21). Como se vê, o tradutor fica passível de críticas a respeito do seu trabalho.
20
Original em inglês: ―The wall of Faithfulness, even though shaky at times, protects him from straying too far from Shakespeare's intended meanings; the wall of Comprehensibility prevents him from lapsing into semantic vagueness or opaqueness; the wall of Poetic Effect never lets him forget that Shakespeare was, after all, an amazingly gifted master of language; and the wall of Theatrical Functionality reminds him that Shakespeare was a genius of stage action who never in his life wrote a single dull scene.‖
21
Original em inglês: ―If a single wall collapses, the translator is left with no protection from the resulting threats, any one of which can be lethal for his work.‖
Como se trata de traduzir o humor de Shakespeare, o tradutor se depara com mais um elemento: o Efeito Cômico. No caso, o retângulo passa a ser um pentágono, e quando esse elemento surge, acaba se tornando o mais importante de todos, e como conseqüência, interfere apenas em uma das quatro paredes que cercam o tradutor, o muro de Fidelidade Literal.
Imagem 2: O Pentágono de Stanislaw Baranczak
Novamente Baranczak ressalta o seu princípio de tradução de humor shakespeariano, agora aglomerando estas cinco paredes de seu princípio tradutório; as piadas de Shakespeare devem ser engraçadas e ―não há como escapar a este princípio férreo. E, a fim de tornar o seu humor engraçado, algumas das quatro paredes têm que recuar um pouco para dar lugar para a quinta (1992, p. 75, tradução minha22).
Cada piada de Shakespeare ou cena cômica parece ser naturalmente predisposta a trabalhar em estreita colaboração com estes três princípios (Fidelidade, Efeito Poético, Clareza). Quando a piada é suficientemente óbvia, ela é compreensível no idioma em que é lida ou encenada (em termos de palco).
Uma grande cena ou uma tensão no enredo da peça também podem ser auxiliadas por outra piada: esta última muitas vezes esclarece uma situação ou revela algo sobre um personagem. Assim, vemos que Baranczak compactua com Nason (1906); as passagens cômicas servem para o alívio tenso da peça trágica.
Uma vez que a comicidade tem o apoio dos três primeiros princípios, ele aumenta a inteligibilidade (compreensão), o efeito
22
Original em inglês: ―there is no escaping from this iron-clad principle. And in order to make his humor funny, some of the four walls have to retreat a little to make place for the fifth.‖
poético, e a funcionalidade teatral. Quando aquele determinado trecho cômico é esclarecido (o que não significa que se afastou da idéia original), ele tem sentido para a platéia ou leitor, e certamente surtirá mais efeito em um palco do que numa página de livro.
Como tão bem diz Baranczak, o choque entre Fidelidade Literal e Efeito Cômico na mente do tradutor responsável ―pode não evitar, mas sim acabar com a vitória do Efeito Cômico‖ (1992, p. 75, tradução minha23).
O tradutor, enquanto exerce o duplo papel de leitor do texto impresso e de se colocar como espectador de teatro, deve se concentrar em como este humor tem que ser representado no palco, de modo que seja compreensível ao espectador, para posteriormente publicá-lo em formato de livro.
Dentro da área de humor verbal, o que Shakespeare produziu uma vez ―para agradar‖ o seu público pode ―ir pelo ralo‖ pela falha do tradutor,ou seja, o humor pode se perder na tradução.
Assim, concorda-se com Baranczak que, ao traduzir Shakespeare ―o primeiro ato de negligência cometido pelo tradutor é geralmente desistir de qualquer tentativa de traduzir o humor verbal original de uma forma que poderia fazer o público rir genuinamente‖ (BARANCZAK, 1992, p. 71-72, tradução minha24).
Se for possível rir de uma tradução de humor do dramaturgo para o palco, para Baranczak (1992, p. 71), isto se deve mais à presença de humor situacional (o aqui-agora) do que ao humor verbal. Baranczak concorda também com Cristina Marinetti, quando ela pontua que assim como as peças de teatro, ―o humor freqüentemente está ligado ao tempo e ao contexto, assim como depende e trabalha dentro do aqui-agora de sua eventual performance‖ (2005, p. 31, tradução minha25
).
Se formos considerar este aspecto pragmático, de certa forma, o teatro surtirá possivelmente o mesmo efeito do que uma página. E apesar que a leitura de uma página possa imaginar a encenação desta cena cômica, o teatro, enquanto sistema de situação e confronto, cumprirá melhor o objetivo de causar o riso num leitor.
23
Original em inglês: ―cannot help but end with the Comic Effect's victory.‖
24
Original em inglês: ―the first such act of negligence committed by the translator is usually giving up any attempt to render the original verbal humor in a way which might make the audience genuinely laugh.‖
25
Original em inglês: ―humor, is often time-bound and context-generated, it depends on and work within the here-and-now of its eventual performance.‖