BIM22 é um conceito que fundamentalmente envolve a modelagem das informações do edifício, criando um modelo digital integrado de todas as disciplinas, e que abrange todo o ciclo de vida da edificação. A modelagem 3D paramétrica e a interoperabilidade são características essenciais que dão suporte a esse conceito (SANTOS, 2009).
O conceito BIM surge nos EUA em meados da década de 1980, mas é nos anos 2000 que toma força nos escritórios de arquitetura norte‐americanos quando o renomado arquiteto Frank Gehry juntamente com o arquiteto Cristiano Ceccato fundam a Gehry Technologies em 2002, tornando‐se pioneiros no uso do BIM. No Brasil, segundo Angélica Covelo Silva, "temos um atraso de cerca de 15 anos em relação aos países desenvolvidos quanto a tomar
conhecimento, saber o que é, integrar a cadeia produtiva, capacitar profissionais e trabalhar pela implantação" (SILVA apud PRATES, 2010). O que significa que ainda estamos tateando
no que se refere à implementação desse novo conceito, embora o momento seja de transição no qual o uso do BIM está sendo impulsionado por um mercado imobiliário aquecido, pressionando principalmente os escritórios de grande porte. É o que afirma Larissa Baroni em recente artigo da Revista AU: “o processo de migração parece não ser mais
uma opção. Pelo menos para aqueles que querem manter‐se na disputa do mercado de trabalho, a adaptação é uma exigência” (BARONI, 2011, p. 66).
Trabalhando em todo o ciclo de desenvolvimento do projeto com um modelo em 3D do edifício e informações associadas aos elementos do mesmo, a plataforma BIM é capaz de aumentar a produtividade nos escritórios e agregar qualidade ao projeto arquitetônico. Além disso, o conceito de “interoperabilidade”, no qual é possível alinhar todos os dados do projeto produzidos por diferentes profissionais – todas as disciplinas envolvidas no projeto – , gera um importante incremento na coordenação e compatibilização do projeto. Desse modo “os escritórios brasileiros que já adotam a plataforma estão transformando seu
conhecimento em vantagem competitiva” (ROSSO, 2011, p. 63).
Como esta pesquisa trata do processo de produção do desenho do projeto em escritórios de grande porte, a expectativa era de encontrar o BIM implantado ou em processo de implantação na maioria dos escritórios em estudo. Porém, dos cinco escritórios
estudados apenas o escritório 01 relatou o uso efetivo da plataforma BIM, demonstrando a preocupação em se manter competitivo no mercado.
A gente tem projetos aqui montados em 2D por conta de contrato, mas tem outros que o contrato rege em 2D mas a gente tá desenvolvendo em Revit23. Porque a gente entende que é um ganho interno nosso de conhecimento e que a gente tem que desenvolver isso pro mercado. (...) A gente entende que o mercado ainda não tá preparado pra isso, mas ele está realmente se preparando. (...) muita gente já deve estar pensando no Revit ou ArchiCAD24 ou qualquer outro tipo de ferramenta 3D25. (...) o futuro é esse, não tem como... tá bem aí.
Além da preocupação com o mercado, o escritório 01 também atenta para a qualidade da execução da obra, entendendo que o conceito BIM é capaz de diminuir os problemas gerados pela distância entre o projeto e a obra.
(...) eu acredito que os projetistas todos já estejam se embrenhando dentro disso [BIM] porque é uma ferramenta que vai beneficiar totalmente o produto que no final é o que: é a obra em si, é o edifício em si. Então eu acho que dentro dessa ferramenta a obra ela tem muito mais domínio e a gente acredita que esse hiato entre projeto e obra acabe sendo muito menor. Porque a transição de produto gráfico, documento gráfico pra obra é muito grande hoje ainda.
Por fim, a arquiteta descreve o uso do BIM como rotina já implantada no escritório, embora não seja usado em todos os projetos. O 3D pra nós ele faz parte desde o momento zero, ele vai do momento zero até o detalhamento. Então a gente tem uma política aqui dentro de que o 3D ele não é somente uma ferramenta pra (...) tornar concreto um conceito de arquitetura num momento que você apresenta um estudo de viabilidade, ele vai muito além disso. Ele hoje pra nós aqui, ele é a nossa ferramenta de trabalho. O escritório hoje tem um foco muito forte em Revit, a gente tá trabalhando muito em Revit. Tem vários projetos aí que já estão sendo concebidos dentro do Revit. Então pra nós a questão do 3D ele não é um complemento, ele realmente é ferramenta de trabalho. O fato de encontrar apenas um escritório em processo de transformação para o uso da nova plataforma BIM demonstra claramente uma resistência da maioria dos escritórios de arquitetura, uma vez que esse processo exige uma mudança cultural. Como vimos, os escritórios em estudo têm características conservadoras quanto a uma série de questões, e a 23 Revit: Software da Autodesk para desenvolvimento de projetos na plataforma BIM. 24 ArciCAD: Software da Graphisoft para desenvolvimento de projetos na plataforma BIM. 25 A arquiteta não usa a denominação BIM em seu depoimento, porém o modo como se refere à “ferramenta 3D” entende‐se que se trata do conceito de BIM (Building Information Modeling).
adoção de novas tecnologias no processo de produção do projeto esbarra nessa cultura. Larissa Baroni observa essa tendência:
De um lado, a oportunidade de agregar maior qualidade e mais eficiência aos projetos arquitetônicos. Do outro, o medo de romper com o tradicionalismo e o desconhecimento do novo. Paradoxos que ainda fazem muitas empresas se questionar se vale ou não a pena migrar para o BIM. Um processo de transformação que, na opinião de Américo Corrêa Junior, executivo da Autodesk, tende a ser um pouco mais lento do que a transição da prancheta para o CAD. “A primeira mudança se restringiu ao meio, ou seja, tudo o que antes se fazia no papel passou a ser feito no computador. O BIM, no entanto, vai exigir uma mudança cultural de toda a cadeia da construção civil, inclusive dos escritórios de arquitetura”, explica (BARONI, 2011, p. 65).
Mas não é somente a resistência à adoção de novas tecnologias que dificulta as iniciativas neste campo, a resistência à introdução de novos conceitos no processo de projeto também é um obstáculo. O conceito BIM amplia os recursos para o desenvolvimento de projetos de qualidade, trazendo novas formas de pensar o processo de projeto que passa a ser mais integrado e colaborativo.
Segundo Ana Paula Koury, a integração e colaboração de equipes de projetos, hoje possível com o BIM, permeiam o debate da construção civil no Brasil há mais de 30 anos. A “necessidade colaborativa” como conceito foi discutida no final dos anos 1970 pelo arquiteto Rodrigo Lefévre, que defendia “a revisão do estatuto autoral da arquitetura com o
objetivo de integrar as várias especialidades”, por considerar que o mito autoral
“prejudicava a possibilidade de integração da arquitetura em uma nova era de
conhecimentos complexos e articulados” (KOURY, 2008). Mesmo que tenham ocorrido
muitas transformações desde então, ainda há muitas lacunas a serem preenchidas, o que mantém o debate válido, como afirma o engenheiro Leonardo Manzione:
A mudança mais importante de paradigma é a atitude colaborativa e multidisciplinar. Com o BIM, o projeto autoral, como é tradição na arquitetura brasileira, deixa de existir, dando espaço a um projeto desenvolvido em equipe e de maneira simultânea. (...) Essa é uma forma totalmente diversa da que estamos habituados com o 2D, que é um modelo distribuído e trabalhado de maneira sequencial (MANZIONE apud SAYEGH, 2011, p. 73).
Para tanto, ainda segundo Ana Paula Koury, há a necessidade de superar limites históricos e culturais. Como descrito no capítulo 1, o campo da arquitetura possui um sistema de valores no qual a valorização artística e criativa acentua a posição social do arquiteto, de forma que o mito autoral se perpetua em função desta relação. Abandonar
essa posição contradiz a aparente autonomia que o arquiteto persegue por meio de seu desenho no processo de produção da arquitetura.
Na prática, a implementação desta nova plataforma de trabalho é permeada de dúvidas e desafios. Parte da resistência também reside no fato de que a transição é lenta e que há perda de produtividade no início do processo. “No começo do uso do BIM, a curva de
produtividade da empresa tende a cair porque informações avançadas precisam ser inseridas desde o início do projeto” (LOURENÇON, 2011, p. 76), porém a perda de rendimento é
temporária, vindo a alcançar um aumento considerável de produtividade posteriormente. O escritório 02 demonstra a resistência em função da perda inicial de produtividade:
Outro programa que a gente tá relutando bastante e muita gente usa hoje é o Revit. Mas o que a gente tá percebendo é que na prática não ajuda muito, (...) você tem que alimentar o programa com um monte de dados... Então você fica o tempo inteiro alimentando o seu programa... (...) É, então a gente percebe que tem gente que já tá usando, mas a gente não tá usando ainda. “A esse panorama, soma‐se o grande investimento no processo de imigração. Licenças,
maquinário e treinamento de pessoal demandam dinheiro e tempo que alguns escritórios ainda não estão dispostos a bancar” (SAYEGH, 2011, p. 74), como se pode observar no
depoimento do escritório 04:
Não, a gente não tá no BIM ainda. A gente não tá trabalhando com BIM, nem com Revit (...) É, 2D. Seria ideal trabalhar em 3D, mas aí demanda um equipamento superior, os desenhos ficam carregados, você precisa ter... cada máquina tem que ser um servidor pra você jogar. E quem paga esse investimento, e quem é beneficiado por isso no final? Eu acabei de voltar de uma reunião da ASBEA que discutiu isso, quer dizer, o escritório de arquitetura tem que se adaptar a essa realidade do 3D e do BIM e da modelação, mas o escritório de arquitetura é o primeiro da ponta, ele que tem que começar investindo pra mandar pro outros... Embora pareça cedo para apontar transformações geradas pelo uso da nova plataforma, algumas mudanças já podem ser observadas, conforme a descrição de Pâmela Reis: Outra mudança sentida pelos escritórios que implementaram o BIM é a alteração no prazo das etapas do projeto. No processo convencional, a carga de trabalho do arquiteto seria menor nos estudos preliminares e aumentaria conforme o projeto se aproxima do executivo. No BIM, esta curva se inverte, as decisões são antecipadas e uma carga maior de trabalho é deslocada para o ante‐projeto (REIS, 2011, p. 70).
As alterações nas etapas do processo de projeto sugerem a necessidade de uma reorganização nas estruturas internas para a produção do projeto, uma vez que as estruturas de equipes da maioria dos escritórios de arquitetura, a exemplo das identificadas nesta pesquisa, servem ao processo de projeto convencional. Ao mesmo tempo, entende‐se que o uso de modelos digitais 3D ao longo de todo o processo permite maior experimentação espacial, dinamizando o ato de projetar. Porém, ao dotar o uso efetivo do BIM, as transformações no processo de projeto são mais profundas, alterando inclusive o desenho do projeto, como acredita Ana Paula Koury:
Com a nova ferramenta, não se pode mais separar o projeto do desenho. Inverte‐se, ainda, a aproximação anterior, ou seja, a arquitetura antes era o resultado da execução do conjunto desenhos mais o seu memorial descritivo. Com a plataforma BIM, faz‐se o inverso, os desenhos e memoriais são resultado de uma arquitetura que é virtualmente modelada, construída. Assim, pode ser testada antes de sua execução no canteiro de obras e o seu desempenho pode ser verificado antes mesmo de ser construída. Essa possibilidade abre novas perspectivas de avaliação do projeto (KOURY, 2008).
Assim, o conceito BIM caracteriza‐se como um sistema complexo cuja implementação no Brasil tem sido um processo lento e cercado de dúvidas e desafios. Parte da hesitação reside na própria complexidade do processo de migração que demanda alto investimento de tempo e dinheiro, porém parte da resistência dos escritórios de arquitetura reside na recusa de introduzir novos conceitos no processo de projeto. Nessa questão, é imprescindível que haja uma mudança cultural acompanhada de uma nova postura profissional colaborativa para que o uso do conceito BIM seja uma experiência positiva, consolidando‐se como uma nova ferramenta de projeto que resulte de fato em incrementos na produtividade e na qualidade do projeto arquitetônico.