“O signo é aquilo que busca permanecer, que se quer indestrutível, que aspira ao eterno.” 147
2.1. Breve histórico
Fig.39 – Museu Carlos Costa Pinto. Salvador-Bahia. Foto: Saulo Kainuma, 2003.
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O Mu s eu Ca r los Cos t a Pin t o (fig.3 9 ), s it u a d o n o Cor r ed or d a Vit ór ia , em S a lva d or – Ba h ia , é or igin á r io d o a cer vo d o colecion a d or b a ia n o Ca r los Cos t a Pin t o (1 8 8 5 -1 9 4 6 ). Ca r los d e Agu ia r Cos t a Pin t o er a filh o d o com en d a d or J oa qu im d a Cos t a Pin t o e d e S op h ia Hen r iqu et a Ma ced o d e Agu ia r . S eu a vô m a t er n o foi o Ma r ech a l Fr a n cis co Per eir a d e Agu ia r , p r op r iet á r io d o S ola r d o Bom Gos t o. In iciou s u a ca r r eir a p r ofis s ion a l n a Ma ga lh ã es & Cia ., em p r es a exp or t a d or a d e a çú ca r , ch ega n d o a o ca r go d e d ir et or p r es id en t e. Com o colecion a d or d e ob r a s d e a r t e r eu n iu a o lon go d e s u a vid a u m a s ign ifica t iva e eclét ica coleçã o, fa zen d o com qu e p er m a n eces s e n a Ba h ia u m d os m a is im p or t a n t es a cer vos d o p a ís . S egu n d o S ola n ge Godoy (1997, p.110),
con t em p or â n eos , Cos t a Pin t o e Ca s t r o Ma ya [r efer in d o-s e a o colecion a d or Ra ym u n d o Ot t on i d e Ca s t r o Ma ya , 1 8 8 4 -1968] s ã o d ois h om en s qu e s ou b er a m in t egr a r à a t ivid a d e em p r es a r ia l o a p oio à cu lt u r a , in cor p or a n d o à s s u a s cid a d es – S a lva d or e Rio d e J a n eir o – im p or t a n t es lega d os qu e s er ia m transformados em fundação-museu nos anos 60.
Na ver d a d e, a r es p on s á vel p ela exis t ên cia d o Mu s eu foi a es p os a d o colecion a d or , D. Ma r ga r id a d e Ca r va lh o Cos t a Pin t o (1 8 9 5 -1 9 7 9 ), n a s cid a Ballalai de Carvalho. A ela coube realizar o sonho do marido, imortalizando-o a p ós a s u a m or t e (1 9 4 6 ), a o d oa r p eça s d e s u a coleçã o, con s t it u in d o u m a fu n d a çã o e in s t it u in d o u m m u s eu . O Mu s eu Ca r los Cos t a Pin t o foi inaugur a d o em 5 d e n ovem b r o d e 1 9 6 9 , s ob a or ien t a çã o e d ir eçã o d a museóloga Mercedes Rosa.
O Mu s eu Ca r los Cos t a Pin t o é u m m u s eu d e a r t es d ecor a t iva s , d e coleçã o fech a d a148, com p os t o p or 3 .1 7 5 p eça s , cla s s ifica d a s em 1 2
coleções149: Cr is t a l, Des en h o, Diver s os , E s cu lt u r a , Gr a vu r a , Im a gin á r ia ,
Mob iliá r io, Or d en s Hon or ífica s , Ou r ives a r ia , Pin t u r a , Por cela n a e Pr a t a r ia . S ã o ob jet os d e vá r ia s p a r t es d o m u n d o, d os s écu los XVII a o XX. A m a ior coleçã o é a d e Pr a t a r ia com 9 2 3 exem p la r es , en t r e os qu a is es t ã o a s 2 7
148 Coleção fechada designa um museu que não adquire nem aceita doação de peças.
149 E s s a cla s s ifica çã o foi in s t it u íd a p ela m u s eóloga Mer ced es Ros a , qu e in iciou a
d ocu m en t a çã o m u s eológica d a coleçã o em 1 9 6 3 , t or n a n d o-s e p os t er ior m en t e d ir et or a d a instituição.
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pencas d e b a la n ga n d ã s em p r a t a150, o m a ior con ju n t o exis t en t e em m u s eu s .
E s s e gr u p o, b a s e d a leit u r a151 qu e s e s egu e, é d a t a d o d os s écu los XVIII e
XIX. J u n t o com a s jóia s d e cr iou la s for m a o d ifer en cia l, o d es t a qu e d a instituição dada à sua singularidade.
2.2. As pencas de balangandãs
Fig.40 – Vitrine das pencas de balangandãs. Museu Carlos Costa Pinto. Fotografia Enzo Battesini, 2004.
Ao ob s er va r a s 2 7 p en ca s d e b a la n ga n d ã s em p r a t a exp os t a s em vit r in e d o Mu s eu Ca r los Cos t a Pin t o (fig.4 0 ), d is t a n cia d a s em s u a r ed om a d e vid r o, é d ifícil p er ceb er a s u a fu n çã o e u s o. É p r ecis o t en t a r vis u a lizá -la s , a p a r t ir d a icon ogr a fia exis t en t e, p or t a d a s p ela s n egr a s e m u la t a s b a ia n a s , s ob r ep os t a s a os t r a jes fes t ivos (b eca e d e b a ia n a ), p r es a s p or t ir a d e p a n o ou
150 E xis t e n o a cer vo, u m a ú n ica p en ca d e b a la n ga n d ã s em ou r o com 4 8 p eça s e cor r en t e
(Nºinv. 850.IX.116), atribuída ao século XX.
151 E vid en t em en t e, n ã o foi d es ca r t a d o o ca r á t er ú n ico (d e exis t en t e) d e ca d a p en ca d e
b a la n ga n d ã s d es s a coleçã o. E s t e foi p r im eir a m en t e exp lor a d o p a r a qu e es t a a n á lis e d e conju n t o p u d es s e s er r ea liza d a . Con t u d o, d evid o a s u a s ca r a ct er ís t ica s com u n s , a gen er a liza çã o foi n eces s á r ia em b en efício d e u m a leit u r a t ip ológica p a r a a in ves t iga çã o d o seu processo de produção de sentido enquanto classe de objeto.
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cor r en t e d e p r a t a à a lt u r a d a cin t u r a / qu a d r is (fig.4 1 )(vid e ca p ít u lo 3 , in d ícios d e u s o). Um d os s eu s a s p ect os s en s ór ios , a gor a p er d id o, é a s on or id a d e. E s s e p ot en cia l d e a t r a çã o/ a çã o s on or a é in er en t e à s u a com p os içã o, e in t en cion a l, vis t o qu e, m u it os a m u let os (com o os s in os e guizos)152 t êm a fu n çã o d e “es p a n t a r ” a s in flu ên cia s m a lign a s a t r a vés d o
s om . Com o a s p en ca s d e b a la n ga n d ã s (fig.4 2 ) a gr u p a m u m a s ér ie d e d ifer en t es elem en t os em s u a m a ior ia ocos , em p r a t a , e s ã o p os t a s n a cintura153, p en d en d o n os qu a d r is fem in in os , t or n a m -s e a lt a m en t e
m ovim en t a d os e con s equ en t em en t e s on or os a o s e ch oca r em u n s com os ou t r os . S eu s om m et á lico, ch oca lh a n t e, t ilin t a n t e é t ã o m a r ca n t e qu e lh e con fer iu u m a d en om in a çã o d e r efer ên cia on om a t op a ica p a r a a m a ior ia d os autores (vide capítulo 3, etimologia).
Fig.41 – Baiana. Carybé. Desenho a crayon, 1 9 6 9 . Acer vo Mu s eu Ca r los Cos t a Pin t o. Fotografia da autora.
Fig.42 – Pen ca d e b a la n ga n d ã s . Ba h ia , s éc.XIX. Acer vo Mu s eu Ca r los Cos t a Pinto. Fotografia da autora.
Qu a n t o à vis u a liza çã o, percebe-s e in icia lm en t e o b r ilh o d a p r a t a em con t r a s t e com a s a ia b r a n ca , d e es t a m p a d o color id o ou p r et a , qu e lh e s er ve
152 Após a fuga do Egito, no deserto do Sinai, Deus estabeleceu uma aliança com os filhos de
Is r a el e en t r e a s leis h a via a s p r es cr ições r efer en t es à s ves t im en t a s d os s a cer d ot es qu e es t a b elecia qu e “h a ver á em t od a a or la d o m a n t o u m a ca m p a in h a d e ou r o e u m a r om ã , ou t r a ca m p a in h a d e ou r o e ou t r a r om ã . Aa r ã o o ves t ir á p a r a oficia r p a r a qu e s e ou ça o s eu s on id o qu a n d o en t r a r n o s a n t u á r io d ia n t e d e Ia h weh , ou qu a n d o s a ir , e a s s im n ã o m or r a ” (E x 2 8 , 3 4 -35). E s s a cit a çã o n a Bíb lia d e J er u s a lém (1 9 8 5 , p .1 4 8 ) t r a z a s egu in t e n ot a “vestígio d e u m a con cep çã o p r im it iva a m p la m en t e es p a lh a d a , s egu n d o a qu a l o t ilin t a r d a s ca m p a in h a s a fa s t a va os d em ôn ios ”. Com es s a in t en çã o s ã o u s a d os os ch oca lh os in d ígen a s b r a s ileir os (m a n a cá ) n os r it u a is d e p a jela n ça . Ta m b ém n o Ca n d om b lé, o a d já . “in s t r u m en t o id iófon o for m a d o p or u m a , d u a s ou t r ês ca m p â n u la s ” (LODY, 2 0 0 3 , p .6 3 ), fu n cion a com o meio evocatório das entidades de outros planos.
79
com o fu n d o, m old u r a . Algu m a s vezes , u n em -s e a o p r a t ea d o b r ilh a n t e á r ea s color id a s fos ca s , in d ica n d o a p r es en ça d e ou t r os m a t er ia is com o o b r a n co leit os o d os d en t es d e a n im a is , o m a r r om es cu r o d a s m a d eir a s e côcos , e a t é o ver m elh o d os cor a is , o a la r a n ja d o t r a n s lú cid o d a s cor n a lin a s , et c. A for m a percebida é claramente a de um conjunto fragmentado (reunião de uma série de diferentes elementos justapostos, num jogo de revelação e ocultação, onde os m a is volu m os os e com p r id os s e s ob r es s a em ), ir r egu la r (com volu m es p r ed om in a n t em en t e es fér icos e cilín d r icos ), com p lexo, p r ofu s o, d in â m ico, d is p os t o em u m s em icír cu lo, com u m a for t e t en d ên cia à s im et r ia or ien t a d a pelo frontão da nave (elemento centralizador formal e conceitualmente).
Difer en t em en t e d e ou t r os s ign os m á gicos u s a d os es con d id os , a sonoridade, o volume e o peso (variando de 327,9g a 1.636,6g) das pencas de b a la n ga n d ã s in d ica m a s u a n eces s id a d e d e exp os içã o, d e s er em vis t os . O u s o d a s p en ca s à cin t u r a es t a b elece u m a con exã o cor p ór ea en t r e a d er eço e u s u á r ia , qu e p r et en d e fixa r o olh a r d o ob s er va d or p a r a a r egiã o d os qu a d r is da mesma. Essa área de sedução tem um forte apelo à sexualidade154.
O m od elo es t r u t u r a l s egu id o p or u m a p en ca d e b a la n ga n d ã s é b em d efin id o, ele é con s t it u íd o p or t r ês p a r t es (fig. 4 3 ): cor r en t e, n a ve ou ga ler a e elem en t os p en d en t es . A cor r en t e d e elos s er ve p a r a fixa r o a d or n o à u s u á r ia , perpassando-lh e a cin t u r a . A n a ve ou ga ler a (fig. 4 4 ) é a p a r t e qu e a gr u p a os elem en t os p en d en t es . Ger a lm en t e, a p r es en t a d ecor a çã o em s u a p a r t e s u p er ior (es p écie d e fr on t ã o), é a r t icu la d a a p a r t ir d e u m a b is a gr a la t er a l, qu e d á a ces s o p a r a a s u a p a r t e in fer ior s em icir cu la r e d en t icu la d a , on d e fica m os p en d en t es . A p a r t e in fer ior e s u p er ior u n em -s e a p a r t ir d e u m or ifício la t er a l, op os t o à b is a gr a , fixa d o p or p a r a fu s o d en om in a d o “borboleta”155. Os elem en t os p en d en t es va r ia m em t ip ologia , m a t er ia is ,
tamanho e quantidade.
154 S egu n d o es s e p r in cíp io, a s la vr a d eir a s p or t u gu es a s , p a r a ga r a n t ir a d ecên cia , n ã o
u s a va m s eu s cola r es m u it o d es cid os , m a n t en d o o lim it e a cim a d a cin t u r a , evit a n d o qu e “olh os m a licios os ” fos s em “leva d os a fixa r -s e em p a r t es m a is ín t im a s d o cor p o” (COS TA e FREITAS, 1992, p.24)
155 “Derivação: p or a n a logia . Por ca ou p a r a fu s o p r ovid o d e d u a s a s in h a s , com a s qu a is ele é
80
Fig.43 – Pa r t es d e u m a p en ca d e b a la n ga n d ã s . Acer vo Mu s eu Ca r los Costa Pinto. Fotografia da autora.
Fig.44 – Na ve d e u m a p en ca d e b a la n ga n d ã s . Acer vo Mu s eu Ca r los Cos t a Pinto. Fotografia da autora.
2.2.1. A corrente
A cor r en t e156 (fig.45) a p a r ece em 2 4 d a s 2 7 p en ca s d e b a la n gandãs.
Ap en a s t r ês exem p la r es n ã o p os s u em cor r en t e, p eça s n º 2 2 4 9 .XII.0 5 7 , 2 2 5 5 .XII.0 6 3 e 2 2 5 8 .XII.0 6 6 (Ap ên d ice A, gr á fico1 ). Devid o à s u a p equ en a la r gu r a , ela fica em gr a n d e p a r t e ocu lt a , en volt a p ela s ves t es . E m p r a t a , for m a d a s p or elos com fech o d e colchete157, a s cor r en t es va r ia m en t r e 4 8 ,0 e
1 6 8 ,0 cm d e com p r im en t o. Qu a t r o d ela s p os s u em a lém d a n a ve, ob jet os is ola d os p en d en t es (fig.4 6 ). Des t es , t r ês s ã o figa s158 em m a d eir a en ca s t oa d a s
em p r a t a , e o ou t r o é u m a ch a ve d e s a cr á r io ou cofr e159 em p r a t a . As figas
m ed em 8 ,2 cm ; 1 3 ,5 cm e a m a ior (a d a p en ca n º 2 2 6 7 .XII.0 7 5 ), d e gr a n d e d im en s ã o, p os s u i 1 6 ,5 cm d e com p r im en t o. A ch a ve m ed e 9 ,5 cm . Nã o foi loca liza d a icon ogr a fia ou n a r r a t iva qu e a t es t a s s e ou es cla r eces s e t a l u s o. E s s a s p eça s p od er ia m or igin a lm en t e t er p er t en cid o à n a ve ju n t o a os d em a is elem en t os p en d en t es . Ta m b ém n ã o s e id en t ificou qu a lqu er exem p la r d e outras coleções ou iconografia que portasse esses elementos isolados.
156 S egu n d o Ma ch a d o (1 9 7 3 , p .1 5 ), “a cor r en t e r eceb e o n om e d e ‘cor r en t ã o’ ou ‘gr ilh ã o’
(grilhão também é a denominação dos chamados colares-de-aliança)”.
157 4 d a s 2 4 p en ca s qu e p os s u em cor r en t e, n ã o a p r es en t a m m a is o fech o p or t er em s id o
anteriormente soldadas.
158 Exemplares nº 2267.XII.075, 2268.XII.076, 2269.XII.077 (Vide Apêndice B) 159 Exemplar nº 2265.XII.073 (vide Apêndice B)
81
Fig.45 – Cor r en t e d e p en ca d e b a la n ga n d ã s . Fot ogr a fia d a autora.
Fig.46 – Corren t e d e p en ca d e b a la n ga n d ã s , com figa p en d en t e. E xem p la r 2 2 6 8 .XII.0 7 6 . Fot ogr a fia da autora.
2.2.2. A nave
A n a ve, em p r a t a , fu n d id a , va za d a , r ecor t a d a e cin zela d a , va r ia em d im en s ões , a a lt u r a d e 7 ,5 a 1 4 ,0 cm e a la r gu r a en t r e 8 ,5 a 1 9 ,0 cm , m a n t en d o s em p r e u m a r ela çã o en t r e a a lt u r a e a la r gu r a d e h = l, t en d en d o, p or t a n t o, à h or izon t a lid a d e A d ecor a çã o é feit a em a p en a s u m a d a s fa ces , o r ever s o é lis o, já qu e qu a n d o em u s o n ã o é vis t o. O cor p o d a n a ve é va za d o em á r ea s a lt er n a n d o es p a ços ch eios e va za d os . Qu a n t o à fixa çã o d a cor r en t e à n a ve, a m a ior ia é feit a a t r a vés d a á r ea va za d a exis t en t e n a p a r t e s u p er ior d es t a (fig.4 7 ). E n t r et a n t o, 7 d os 2 7 exem p la r es (fig.4 9 ) a p r es en t a m lu ga r es p ecífico d e s u s p en s ã o (fig.4 8 ), u m a r o em s u a p a r t e s u p er ior , o qu e p arece sugerir uma forma primitiva ou uma variante descartada160.
160 O for m a t o a s s em elh a -s e à s cim a r u t a s d o s écu lo XIX, con for m e s er á vis t o n o p r óxim o
capítulo. As m od er n a s p en ca s d e b a la n ga n d ã s , cop ia d a s d a s p eça s d o s écu lo XIX, n ã o apresentam essa solução.
82
Fig.47 – Na ve d a p en ca d e b a la n ga n d ã s 2256.XII.064. Fotografia da autora.
Fig.48 – Na ve d a p en ca d e b a la n ga n d ã s 2264.XII.072. Fotografia da autora.
A a b er t u r a d a s n a ves é feit a ger a lm en t e à s in is t r a161, on d e s e
fixa m p or m eio d e u m p a r a fu s o t ip o “b or b olet a ” a s p a r t es s u p er ior e in fer ior (fig.5 0 ). Qu a n t o a es t a , m óvel, d en t ea d a p a r a ga r a n t ir u m a d is p os içã o u n ifor m e d os elem en t os p en d en t es , a p en a s d u a s p en ca s d e b a la n ga n d ã s possuem n a ve d u p la (Ap ên d ice A, gr á fico 2 ). Um a n a ve d u p la (fig.51) com p r een d e d u a s p a r t es m óveis d en t ea d a s in d ep en d en t es , ca d a qu a l com seu conjunto de elementos e fechamento/abertura próprios.
Fig. 5 0 – Na ve s im p les , a b er t u r a à s in is t r a , d a p en ca d e b a la n ga n d ã s 2 2 5 4 .XII.0 6 2 . Acer vo Mu s eu Ca r los Cos t a Pin t o. Fotografia da autora.
Fig.51 – Na ve d u p la d a p en ca d e b a la n ga n d ã s 2 2 4 9 .XII.0 5 7 . Acer vo Mu s eu Carlos Costa Pinto. Fotografia da autora.
A n a ve t r a z d ifer en t es d ecor a ções em s eu fr on t ã o162 classificadas aqui
em 7 t ip os163 (fig.5 2 ). Tod os eles s egu em a es t r u t u r a d e fr on t ã o p a r t id o
(fig.5 3 ). A con s t r u çã o or ien t a -s e a p a r t ir d e u m eixo cen t r a l qu e d et er m in a a com p os içã o s im ét r ica d a for m a e d a d ecor a çã o, t en d en d o a u m a configuração triangular. Essa estrutura é similar a dos frontões das
161 1 9 n a ves p os s u em a b er t u r a à s in is t r a (la d o es qu er d o) e 8 à d es t r a (la d o d ir eit o). E s t a s
s ã o a s n º 2 2 4 9 .XII.0 5 7 , 2 2 5 3 .XII.0 6 1 , 2 2 5 5 .XII.0 6 3 , 2 2 5 7 .XII.0 6 5 , 2 2 6 3 .XII.0 7 1 , 2 2 6 6 .XII.0 7 4 , 2 2 7 0 .XII.0 7 8 , 2 2 7 3 .XII.0 8 1 (Ap ên d ice B). Ob jet os t r id im en s ion a is s ã o descritos, segundo convenção museológica, sob a perspectiva do objeto e não do observador, ou seja, a direita refere-se ao lado direito da peça.
162 Na fa lt a d e u m voca b u lá r io es p ecífico, r ecor r eu -s e a u m a t er m in ologia u s a d a em
a r qu it et u r a e em ob r a s d e t a lh a , cu jo t r a b a lh o d ecor a t ivo a p r es en t a u m a n ít id a s em elh a n ça com a s ob r a s d e joa lh er ia . O fr on t ã o d es ign a o “con ju n t o d ecor a t ivo qu e a r r em a t a a p a r t e superior” (MOUTINHO; PRADO; LONDRES, 1999, p.159).
163 A coleçã o Mu s eu Ca r los Cos t a Pin t o p os s u i os t ip os m a is ca r a ct er ís t icos d e n a ves ,
en t r et a n t o, exis t em ou t r os for m a t os , va r ia ções e d ecor a ções com o p od e s er ob s er va d o em outros acervos como o da Fundação Instituto Feminino da Bahia e Museu de Arte da Bahia.
fachadas de igrejas, retábulos, oratórios, cachaços de cadeiras, cabeceiras de camas. Já a parte inferior das naves tende ao formato semicircular (fig.54).
Fig.53 – Fr on t ã o p a r t id o. Fon t e: (MOUTINHO; PRADO; LONDRES, 1999, p.159)
Fig. 5 4 – E s t r u t u r a com p os it iva d e u m a p en ca d e balangandãs. Fotografia da autora.
A d ecor a çã o d os fr on t ões m a is ca r a ct er ís t ica é a qu e t r a z en cim a d os p á s s a r os n a s la t er a is164. Os t r ês p r im eir os t ip os a p r es en t a m com o elem en to
d ecor a t ivo d efin id or p á s s a r os id en t ificá veis com o p om b a s , qu e n a s im b ólica cr is t ã r ep r es en t a m o Divin o E s p ír it o S a n t o165. A n a ve d o t ip o 1 (fig.5 5 ),
apresenta como elemento característico a pomba em repouso. Essa figuração p od e s er vis t a em a ces s ór ios d e cu lt o cr is t ã o com o n a vet a s e cib ór ios , e também em cetros do Divino Espírito Santo (fig.56).
Fig.55 – Na ve d e p en ca d e b a la n ga n d ã s d o tipo 1. Fotografia da autora.
Fig.56 – Divin o E s p ír it o S a n t o em p r a t a . Brasil, séc.XVIII-XIX. 166
As n a ves d o t ip o 2 e 3 (fig.5 2 ) t r a zem p om b a s com a s a s a b er t a s , d en om in a d a s a la d a s ou es p a lm a d a s (fig.5 7 ). E s s e elem en t o é en con t r a d o em b a n d eir a s d a Fes t a d o Divin o, em ob jet os d e cu lt o cr is t ã o, a p a r ecen d o com o elem en t o icon ogr á fico em ob r a s d e t a lh a , p in t u r a s e com o s ím b olo d a cid a d e do Salvador167 (fig.58).
164 O t ip o 2 , p á s s a r o com a s a s a b er t a s r ep r es en t a m p om b a s d o Divin o E s p ír it o S a n t o. E s s a
icon ogr a fia p od e s er vis t a em ob jet os d e cu lt o cr is t ã o com o n a Cu s t ód ia feit a p elo ou r ives baiano Boaventura de Andrade em 1807, pertencente ao Convento do Desterro da Bahia.
165 Na Bíb lia (1 9 8 5 , p .1 8 4 2 ) en con t r a -s e a fon t e p a r a es s a r ep r es en t a çã o. “Ba t iza d o, J es u s
s u b iu im ed ia t a m en t e d a á gu a e logo os céu s s e a b r ir a m e ele viu o E s p ír it o d e Deu s descendo como uma pomba e vindo sobre ele” (Mt, 3:16).
166 Col. Beatriz e Mário Pimenta Camargo. Fonte: MUSEU DE ARTE BRASILEIRA, 1997,
p.52
167 Alude ao episódio bíblico do Dilúvio (Gn 8:9) no qual Noé envia a pomba para verificar se
já h á t er r a fir m e e a a ve r et or n a à a r ca com u m ga lh o ver d eja n t e in d ica n d o a exis t ên cia d e veget a çã o, u m d es em b a r qu e s egu r o. A in s cr içã o S ic illa a d Arca m re v e rs a e s t (e ela r et or n ou à arca) geralmente acompanha essa representação.
Fig.57 – Na ve d e p en ca d e b a la n ga n d ã s d o tipo 2. Fotografia da autora.
Fig.58 – An d or p r oces s ion a l d e S ã o Fr a n cis co Xa vier , p a d r oeir o d a cid a d e d o S a lva d or . Ca t ed r a l Ba s ílica d e S a lva d or . Fonte: IPAC, 1998, p.179
A n a ve d o t ip o 3 (fig.5 9 ) a glu t in a t r ês p om b a s d o E s p ír it o S a n t o a la d a s e es p a lm a d a s com a p a lm et a t r ilob a d a cen t r a l. Difer en t em en t e d os d em a is t ip os , s ó t r a z t ext u r a d ecor a t iva , em cin zela d o, n es t es elem en t os cen t r a is . Todo o resto é de superfície lisa.
A n a ve d o t ip o 4 (fig.6 0 ) n ã o p os s u i elem en t os d efin id or es n a s extremidades laterais do frontão. Assemelha-se às naves dos tipos 1 (fig.61) e 2 (fig.6 2 ) a n t es d e r eceb er em d ecor a çã o em s eu s fla n cos . Tod a s ela s , ju n t o com o t ip o 3 (fig.59), s ã o en cim a d a s n o cen t r o p or p a lm et a t r ilob a d a . S om en t e os d ois exem p la r es d o t ip o 4 n ã o s ã o d en t ea d os em s u a p a r t e in fer ior m óvel. Além d is s o, p os s u em d ecor a çã o, en qu a n t o t od a s a s ou t r a s são lisas. Essa decoração é cinzelada com motivo puntiforme.
Fig.60 – Na ve d o t ip o 4 . Fotografia da autora. Fig.61 – Na ve d o t ip o 1 . Fotografia da autora. Fig.62 – Na ve d o t ip o 2 . Fotografia da autora.
A n a ve d o t ip o 5 (fig.6 3 ) t r a z fr on t ã o cir cu n d a d o p or cin co ca b eça s d e a n jos (qu er u b in s168), t en d o a o cen t r o a r gola d e s u s p en s ã o. Ca b eça s d e
querubins169 for a m fa r t a m en t e u s a d os n a or n a m en t a çã o b a r r oca n o Br a s il
((MOUTINHO; PRADO; LONDRE S , 1 9 9 9 , p .3 1 9 ), com o p od e s er vis t o em p ea n h a s d e im a gen s d e Nos s a S en h or a e p in t u r a s s a cr a s cr is t ã s (fig.6 4 ). Toda a parte superior é cinzelada com motivos fitomorfos.
168S egu n d o n ot a d a Bíb lia d e J er u s a lém (BÍBLIA, 1 9 8 5 , p .1 4 2 ), “o t er m o cor r es p on d e a o d os
karibu b a b ilôn ios ; gên ios , m et a d e h om en s , m et a d e a n im a is , qu e vigia va m a p or t a d os templos e dos palácios”.
169 Qu a n d o, s egu n d o a Bíb lia (1 9 8 5 , p .1 4 2 -1 4 3 ), Deu s d eu in s t r u ções a Mois és s ob r e a
con s t r u çã o d a Ar ca d a Alia n ça , d et er m in ou en t r e os m ot ivos d ecor a t ivos : qu er u b in s d a s egu in t e for m a “fa r á s u m p r op icia t ór io d e ou r o p u r o, com d ois côva d os e m eio d e com p r im en t o e u m côva d o e m eio d e la r gu r a . Fa r á s d ois qu er u b in s d e ou r o, d e ou r o b a t ido os fa r á s , n a s d u a s ext r em id a d es d o p r op icia t ór io; fa z-m e u m d os qu er u b in s n u m a extremidade e o outro na outra” (Ex, 25:17-19).
Fig. 63 – Nave do tipo 5. Fotografia da autora. Fig. 6 4 – Nos s a S en h or a d a Fa r t u r a . Ba r r o p olicr om a d o, 1 6 7 7 . Col. Pa r t icu la r – SP. Fonte: MARINO, 1996,p.48
A nave do tipo 6 (fig.65) é decorada com ramagens dispostas em curva e contracurva. A folhagem só é cinzelada em estriados nas extremidades inferiores laterais. Esse motivo, característico do estilo Barroco170, foi
b a s t a n t e u t iliza d o em ou r ives a r ia , t a lh a e p in t u r a (fig.6 6 ). O fr on t ã o d es s a n a ve, d a d a à s ob r ied a d e e a u s ên cia d e t ext u r iza çã o s it u a -s e m a is a o gos t o Rococó e Neoclá s s ico. Na b a s e d o fr on t ã o r eceb e u m a in com u m d ecor a çã o em torçal.
Fig. 65 – Nave do tipo 6. Fotografia da autora.
170 “Orlas onduladas e uma profusa decoração fitomórfica e zoomórfica compõem a mais
comum gramática ornamental barroca” (SOUSA, 2000, p.363).
Fig.66 – Alt a r d o Con s is t ór io d a Ir m a n d a d e d o S a n t ís s im o S a cr a m en t o d a a n t iga S é d a Ba h ia . Ta lh a , s éc. XVII. Col. Mu s eu d e Ar t e Br a s ileir a – Fu n d a çã o Ar m a n d o Álva r es Penteado. Fonte: MUSEU DE ARTE BRASILEIRA, 1997, p.47
A n a ve d o t ip o 7 (fig.6 7 ) t r a z o fr on t ã o la d ea d o p or figu r a s a n t r op om or fa s p er fila d a s e a fr on t a d a s , cen t r a d a s p or u m a lir a en cim a d a p or a r o d e s u s p en s ã o. Na s ext r em id a d es , r a m a gen s em for m a d e volu t a . E s s e m ot ivo d ecor a t ivo Neoclá s s ico171 foi id en t ifica d o em ou t r a s p eça s d e p r a t a
(fig.68 ), t r ês b a n d eja s d e es p evit a d eir a s im ila r es172. Ta m b ém for a m
en con t r a d a s d u a s p en ca s d e b a la n ga n d ã s p er t en cen t es a u m a coleçã o particular em São Paulo173 (BRANCANTE, 1999, p.169 e176).
171 Com p õem o r ep er t ór io or n a m en t a l d o Neoclá s s ico “or n a t os com p a lm et a s , gr ega s e
on d a s , a os qu a is s e s om a m m ot ivos com o folh a s d e a ca n t o, d elfin s , lir a s , u r n a s , m á s ca r a s de carneiro e leão” (MOITINHO, PRADO e LONDRES, 1999, p.266).
172 Além d o exem p la r p er t en cen t e a o Mu s eu Ca r los Cos t a Pin t o, d ois ou t r os for a m
en con t r a d os . Um d eles , p er t en cen t e a o Mu s eu d e Ar t e S a cr a d e S ã o Pa u lo, in d ica n d o s er d o Rio d e J a n eir o, s éc.XIX (d is p on ível em : http://www.sarasa.com.br/artesacra/p32.htm). O ou t r o, in t egr a va o ca t á logo d o Du t r a leilões d e fever eir o d e 2 0 0 3 (d is p on ível em :