Modélisation de la cavitation
4.1 Equations d’état
A escola, como colocado no segundo capítulo, é uma das principais instituições responsáveis por reificar as normas de gênero e punir aqueles/as que fogem a elas. As nossas entrevistadas trouxeram pontos de importante reflexão no que diz respeito à violência dentro da escola, seja por serem lidas como gays afeminados ou já como mulheres trans/travesti.
Mariana relata que sofreu bullying35na escola desde o momento em que iniciou a sua transição hormonal. Uma importante estratégia naquele momento foi a união com outras meninas trans, de quem é amiga até hoje.
O bullying era muito forte, se hoje já é intenso, antigamente era bem pior, então era dentro do colégio mesmo, e fora também, muitas piadinhas e a gente se juntava, eu e outras trans e outros gays também, nos juntávamos pra nos defender e nos manter firme ali. (Mariana, setembro de 2016).
Os laços de solidariedade entre pessoas trans e eventualmente outras pessoas LGBT se mostraram fundamentais em muitos momentos das entrevistas. Seja por meio do envolvimento na ADEH, na busca por alteração na retificação do registro civil, no ambulatório para consulta com médicos/as pensado para pessoas trans ou, como no caso, fortalecimento em grupo para resistência à violência.
Heloísa foi outra que afirmou ter sofrido bullying durante os anos escolares. Quando ainda se identificava como um garoto, tido como afeminado, o preconceito era frequente, mas no momento em que se afirmou como travesti, a discriminação diminuiu. Ela não conseguiu identificar uma causa para esse processo, mas na visão dela isso pode ter relação com a sua coragem por „sair do armário‟. A coragem então é vista por ela como um fator mais relevante para os seus colegas do que ela ser travesti.
Um incidente de trabalho que impulsionou a transição de gênero
Diferente das outras entrevistadas, Zélia teve uma transição tardia, o que possibilitou a ela uma realidade diferente dentro do mercado de trabalho. O seu primeiro emprego foi em um jornal como revisora, depois passou para reportagem e por fim foi editora. Trabalhou um tempo com jornalismo, depois com direito, onde foi assessora de uma juíza. Trabalhou em diversos locais e por fim encontrou um emprego como comissária de bordo, tudo isso antes da transição de gênero.
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O bullying é o conjunto de violências físicas e psicológicas provocadas intencionalmente por uma pessoa ou grupo de pessoas contra pessoas, em geral, vulnerabilizadas.
Durante esses anos pré-transição, aprendeu diversos idiomas e foi agregando conhecimentos em diversas áreas. Um ponto de inflexão importante ocorreu quando passou por um incidente aéreo, onde ela acreditou que iria morrer, aquele foi o seu momento transformador, a sua epifania. Naquele episódio, ela se deu conta de que não gostaria de terminar a vida daquela forma, ela não faria mais concessões. A transição ocorreu após esse episódio, aos 30 anos de idade.
A transição de gênero a deixava receosa, porque não sabia se conseguiria trabalhar, então relutou ao máximo, tentando conter essa característica, acreditando que conseguiria viver no armário. Nunca se prostituiu e ressalta que não se sente melhor do que ninguém, ao contrário, se sente privilegiada, porque segundo ela não teria perfil para esse trabalho.
Após a transição, começou a trabalhar com o marido, o que foi um facilitador, desde então só trabalhou na empresa dele, começando como sua assessora e agora como diretora de uma empresa ao mesmo tempo em que auxilia na administração de outra. Além disso, Zélia faz duas faculdades, Gastronomia e Gestão Financeira.
Atualmente, trabalha em um meio que considera machista e conservador, que é a Engenharia de Perícia, mas onde não vê resistências por parte dos empregados. Ela pondera que talvez eles não tenham coragem de verbalizar. Por esse tratamento, ela esquece que é diferente, pois passa despercebida.
Viviane é a única que afirma ter abandonado os estudos por conta do bullying na oitava série, que começou por causa da sua transição. Além da escola, teve que sair de casa porque a família não aceitou a sua transição na época. Letícia, que é da mesma geração que Viviane, abandonou os estudos na sexta série, mas isso não teve relação com bullying sofrido na escola, segundo ela.
A escolaridade das entrevistadas variou desde as que abandonaram os estudos no ensino fundamental até uma pós-graduada. Zélia ainda não é formada, mas ela já fez quatro períodos de Jornalismo e Letras e atualmente faz duas faculdades, por ter tanta bagagem educacional formal, compreende que sua história é diferente. Assim como ela, Heloísa, que possui graduação e pós-graduação também entende que é uma exceção.
Assim, eu vejo que comparada com as outras, talvez eu tenha um pouco mais de estudo. Realmente, comparada com as que eu conheço, a
maioria faz programa, então elas nem procuram se especializar em alguma área, estudar (Heloísa, setembro de 2016).
A fala de Heloísa traz algo muito importante de ser ressaltado: a dita falta de interesse em se especializar em alguma área. A ativista trans Márcia Rocha indica que a eventual falta de vontade de mulheres trans e travestis de estudarem provém da sua baixa expectativa de vida, 35 anos, vinculada a um mercado de trabalho que não oferece nem vantagens, nem respeito para elas.
Porque você falar pra ela que você vai arrumar emprego pra ela trabalhar numa fábrica, ela vai dizer que ganha três vezes isso na rua e faço só o que eu quero e eu vou ter que aguentar chefe, aguentar homofóbico, aguentar horário e tudo pra ganhar um terço do que eu ganho. Ah, mas e o futuro? O futuro, não tenho futuro, com 30 anos eu estou morta. [diz ela como relatam muitas trans vítimas da marginalização]. (OLIVEIRA, 2013) Em muitos casos, a transição das mulheres trans e travestis começa em uma idade nova, antes dos 18 anos ou logo após a maioridade. Das nossas entrevistadas, apenas Zélia e Tatiana afirmam ter transicionado após os 18 anos. Por terem tido transições enquanto jovens, e muitas ainda na escola, é fundamental compreendermos como os processos de transfobia ocorreram já desde cedo em suas vidas, mesmo que esses não as tenham feito abandonar os estudos, acabam por limitar suas possíveis escolhas profissionais, como veremos no caso de Heloísa mais adiante.