Ao dissertar sobre a pesca, Diegues (1999) afirma que teve destaque nas primeiras décadas do século XX a pesca realizada pelos descendentes dos pescadores açorianos que tinham chegado a meados do século XVIII para colonizar o extremo Sul do Brasil, naquela época sob ameaça espanhola (DIEGUES, 1999, p. 362). A alusão que Diegues faz sobre a colonização açoriana é uma constante em muitos outros trabalhos realizados sobre o litoral de Santa Catarina65.
Córdova (1986, p. 12) registra essa proximidade com Açores, ao se referir ao povoamento de Santa Catarina quando contextualiza a produção familiar ligada à lavoura. Lago (1983), logo na introdução de seu trabalho, ao descrever a localidade na qual realizou sua pesquisa, a ela se refere como sendo um dos redutos de povoação de açorianos. Diz a autora que tais localidades “são constituídas das populações descendentes dos antigos açorianos, que vieram povoar o litoral a partir de meados do século XVIII” (LAGO, 1983, p.1). Em outro momento, quando descreve as baleeiras, tipo de embarcação utilizada na pesca
65 Reporto-me, por exemplo, aos trabalhos de Ribeiro (1982); Piazza (1988); Caruso (1989, 1995, 2003); Lago (1983); Córdova (1988); Rial (1988; 1991; 2006); Godio e Rial (2006); Godio (2005); Lacerda (1994; 2003); Menezes Bastos (1993); Flores (1997); Gerber (2007; 1997); Albulquerque (1983); Cunha (1987); Beck (1979, 1981, 1993); Maluf (1989; 1993).
local, afirma que “eram confeccionadas pelos artesãos açorianos em Santa Catarina” (LAGO, 1983, p.134). Maluf (1993), ao falar sobre o Canto da lagoa, onde realizou sua pesquisa, não deixa de registrar que se trata de uma das que compõe as margens da lagoa “a partir da colonização açoriana na metade do século XVIII” (MALUF, 1993, p. 14).
É interessante notar que boa parte da população do litoral catarinense costuma se autodenominar como descendentes de açorianos. João Leal, 2007, trabalhou a questão da açorianidade onde, em relação à Santa Catarina percebeu “o modo inconstante e livre como era interpretada a idéia de cultura açoriana” 66 (LEAL, 2007, p. 180) onde, diz o autor, uma das formas de se definir o que era açoriano advinha do que era antigo. Teria, portanto, uma origem açoriana. Inicialmente, Leal avaliou esta variabilidade de respostas sobre o ser açoriano como um equívoco para, a seguir, repensá-la como uma polissemia. “Dei-me conta que as diferentes acepções em que era utilizada a idéia de cultura açoriana [...] mais do que refletir um conjunto de equívocos motivado pelo ‘excesso de zelo’ [...] era uma das expressões mais claras de um fenômeno mais vasto e interessante: a polissemia de que está hoje investida em Santa Catarina a idéia de cultura açoriana” (LEAL, 2007, p.181).
Eugenio Pascele Lacerda, 2003, se deteve em uma pesquisa em que a açorianidade foi considerada uma categoria de apelo identitário, utilizada no arquipélago de Açores e em comunidades de imigrantes e descendentes de açorianos, sendo que realizou seu trabalho de campo em Nova Inglaterra (EUA), Açores e região Sul do Brasil. Em seu empreendimento, o autor buscou descrever a experiência migratória dos açorianos enquanto formação diaspórica transnacional, analisar a emergência da ‘cultura açoriana’ em Santa Catarina a partir da rubrica da ‘invenção da tradição’, reconstruir o modo de vida local dos açoriano-descendentes na Ilha de Santa Catarina, e compor uma etnografia de suas formas de sociabilidade. Lacerda (2003) esclarece que seu propósito incluiu examinar o problema da ambigüidade nas representações identitárias do imigrante, as mudanças nos modos de
66 Especificamente Leal (2007) se referia a uma pesquisa de arquivo que fez sobre o ‘Mapeamento Cultural da Cultura de base açoriana do litoral de Santa Catarina’, iniciativa capitaneada pelo NEA (Núcleo de Estudos Açorianos) no que o autor denomina como a segunda retoma do movimento açorianista (LEAL, 2007, p.179). A primeira retoma teria sido nos anos 1970 e 1980 (p.182). O movimento açorianista seria a composição de um esforço de reforçar esta descendência açoriana, sendo que envolveria muitos estudiosos e intelectuais de Santa Catarina.
pertencimento à unidades políticas e culturais e a natureza atual das relações com a terra de origem e acolhimento (LACERDA, 2003, p. 39). A partir deste propósito, Lacerda (2003) conclui que considera três eventos rituais emblemáticos na sociabilidade e na cultura do ilhéu, açoriano-descendente: “a farra do boi, ligada ao mundo da diversão, do ócio e do sacrifício animal; o culto-festa do divino, ligado ao mundo mágico-religioso e espaço privilegiado de execução de promessas; e a pesca artesanal da tainha, ligada ao mundo do trabalho, da hierarquia e da camaradagem” (LACERDA, 2003, p. 215). Para o autor, onde houver uma localidade litorânea em Santa Catarina reconhecida como descendência açoriano-brasileira, esse três eventos rituais estarão presentes, combinados de distintas formas. “Diria, enfim, nesta mesma perspectiva que o ‘boi’, o ‘divino’ e a ‘tainha’ poderiam ser tomados como síntese da cosmologia ilhoa, isto é, como cifras da visão de mundo do ilhéu [...]” (LACERDA, 2003, p. 215).
Quanto à açorianidade, o autor enfatiza que não encontrou uma resposta uniforme e que nem poderia ser substantivada. Neste sentido, no que se refere ao contexto global, “a açorianidade foi identificada como peça eficaz das retóricas políticas oficiais, na base de um discurso de valorização das raízes açorianas e de incorporação do patrimônio da migração, representado pelas comunidades de imigrantes e descendentes” (LACERDA, 2003, p. 240). Por outro lado, no que diz respeito ao contexto local, o autor conclui que “a açorianidade foi identificada pelo nome de ‘cultura açoriana’, esta significando um progressivo e bem sucedido processo de afirmação identitária, demarcação simbólica de um território e reelaborações culturais das tradições” (Idem, p. 241).
De certa forma, a conclusão a qual Lacerda (2003) chegou coaduna com Leal (2007) que nos aponta que há muitas possibilidades de se dizer, se identificar ou ser reconhecido como alguém ou algo de origem açoriana. Fazendo um contraponto com meu campo, constatei em vários momentos que há uma noção generalizada de que tudo que é da pesca, formas de fazer e de ser, enfim, é de origem açoriana. Neste caso, se considera ainda que o pescador açoriano é menos organizado em relação a pessoas de outras ascendências. Transcrevo a seguir, o trecho de um diálogo ilustrativo com uma senhora que trabalhava exclusivamente com siri:
Já visse que dali para lá é tudo mais organizado? Tudo mais limpo?
Ah, é, sim. Olha só em volta: é rede de um lado, linha pro outro, covo pra outro. É uma bagunça só. Mas também dali para lá já é tudo alemão! Mas vocês também não são de origem alemã? Ah, mas aqui nós somos alemão de outra raça. É alemão pescador! Acho que é mais, como é que se diz? Açoriano. Um alemão açoriano. (Dona Ci, Barra do Sul).
Haveria aí, segundo Leal (2007), a transformação de algumas atividades, como neste caso, a pesca, em signo de uma determinada identidade étnica resumida no conceito de cultura açoriana. Um processo contínuo de objetificação da cultura a partir de traços e elementos da cultura popular. A cultura açoriana seria assim aquela parte da cultura popular do litoral catarinense que poderia ser filiada etnogeneticamente na cultura popular dos Açores; uma espécie de conjunto de sobrevivências (LEAL, 2007, p.187)
Nessa medida, o trabalho de objetificação da cultura popular do litoral catarinense subjacente ao movimento açorianista pode ser definido como um trabalho de açorianização da cultura popular. De fato, o que nele está em causa é transformar em expressões da cultura açoriana, diversos modos de fazer e pensar que, até aí, eram vistos como expressões de lógicas culturais diferenciadas (LEAL, 2007, p.186).
Análise bem diferente desta, mais historiográfica, foi empreendida por Maluf (1989; 1996). Inspirada em Ginsburg (1989), ao invés de fazer uma etnogenese, a autora empreendeu uma análise morfológica a partir de homologias reconhecidas entre as narrativas européias e as por ela coletadas no decorrer de sua pesquisa na Ilha de Santa Catarina, observando traços presentes tanto nos relatos ilhéus quanto naqueles conhecidos sobre a bruxaria européia (MALUF, 1996, p. 136). A autora observa que, tanto quanto na Europa, no Brasil, foram inúmeras as atividades julgadas e consideradas crimes contra a fé e contra os costumes que diziam respeito à bruxaria, feitiçaria, adivinhações, possessão, entre outros. Neste sentido, mesmo ponderando as “diferenças, marcadas por contextos regionais e nacionais específicos, as crenças em bruxaria não são só um fato recorrente na mentalidade popular de toda a Europa, como tiveram uma
trajetória comum na forma em que foram reelaboradas pela cultura cristã dominante, que passa a construir um discurso unificado sobre a bruxa” (MALUF, 1996, p.147).
Muitas seriam e são, portanto, as formas de se dizer açoriano. No caso, o alemão de outra raça é apontado como o que se considera um indicativo de uma forma de ser pescador, mas também de ser mais açoriano pela própria maneira de viver e ser, em nada comparável aos vizinhos que, por não serem pescadores, e portanto, açorianos; ou não serem açorianos pescadores, servem como parâmetro de diferenciação do pescador que virou outra raça daquela que se mantém limpa, organizada, alemã.