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S´eparation par la prise en compte de la non-n´egativit´e

Dans le document Th`ese pr´esent´ee par Cosmin LAZAR (Page 69-73)

Como atrás afirmámos,grande parte da investigação inicial relativa aos efeitos da creche centrou-se de forma predominante na avaliação do seu impacto sobre o desenvolvimento socioemocional da criança. O aparecimento deste tipo de investigação foi grandemente influenciado pelo facto de, no domínio da psicologia, em especial nas correntes psicodinâmicas, haver sido reconhecida a importância das primeiras relações que a criança estabelece com as figuras parentais, em especial com a materna. Entre os vários modelos teóricos que vieram conferir relevância à relação materno-infantil no desenvolvimento precoce destacamos o modelo centrado nas relações objectais (Mélanie Klein, 1932; Spitz, 1965), o modelo psicossocial (Erikson, 1963) e o modelo etológico (Bowlby, 1969). Estes modelos, entre outros, vieram enfatizar a importância do estabelecimento de relações afectivas precoces como a tarefa principal da primeira infância e a condição para a emergência de vida mental.

É ainda no seio da corrente psicodinâmica que irão emergir as preocupações relacionadas com o afastamento precoce da criança em relação ao meio familiar e com a descontinuidade introduzida, em consequência, na relação mãe-filho. Estas preocupações surgem na sequência dos estudos realizados, nomeadamente, por Spitz (1945), Harlow (1976), Bowlby (1969, 1973), Ainsworth et al. (1978), e Anna Freud (1968) acerca das crianças institucionalizadas e das consequências das separações precoces. Os efeitos devastadores que foram observados nessas crianças, traduzidos sobretudo em quadros depressivos de sintomatologia diversa mas sempre grave, com consequências nas várias esferas do desenvolvimento, e até, como mostraram os estudos de Spitz, com risco de morte para a criança, levaram a que as separações e institucionalizações precoces fossem consideradas como factores etiopatogénicos poderosos na determinação de patologias graves do desenvolvimento. Bowlby (1973), um dos autores que mais enfatizou o valor patogénico das perdas sofridas precocemente, afirmou ser frequente encontrar no adulto sofrendo de depressão o traço de uma perda devido a uma separação durante a infância. Na verdade, para Bowlby a ruptura da ligação (attachment) entre a criança e a sua mãe, devida à morte desta ou apenas à separação, teria as mesmas consequências, originando três tipos de respostas (protesto, desespero e desligamento), as quais considerou também características da depressão do adulto (Bowlby, 1973).

Ainda que, como refere Gabriela Portugal (1998), estes estudos tenham sido realizados em instituições como hospitais e asilos, ou seja, em contextos muito precários

do ponto de vista da sua adequação como contextos de desenvolvimento, eles contribuíram decisivamente, por um lado, para a divulgação de aspectos relacionados com o desenvolvimento afectivo precoce e com a sua relação com a organização da vida mental, e, por outro, para a difusão da noção de que a separação introduzida precocemente na díade mãe-filho constituiria um factor de risco substancial. Como afirmam Gonzalez-Mena e Eyer (1989) a propósito das ideias dominantes nos anos 70 (séc. XX) acerca da creche “The ghosts of yesteryear’s orphan babies, ruined by institutionalization, hovered over the child care field and led many questions whether infants and toddlers belong in day care at all” (p. 1). Para além dos estudos pioneiros, que retratavam situações de separação e privação graves, outros estudos vieram ainda chamar a atenção para a possibilidade de a descontinuidade dos cuidados maternais poder constituir também um factor nefasto para o desenvolvimento da criança. Lebovici e Soulé (1977), por exemplo, referem-se ao valor etiopatogénico das descontinuidades e distorções das interacções mãe-criança (separações breves mas repetidas e distorções diversas), e Ajuriaguerra e Marcelli (1989), embora admitam que as “organizações anaclíticas” descritas por Spitz (1945) são pouco frequentes, fazem notar que as reacções depressivas infantis são bastantes mais comuns, correspondendo a falhas afectivas parciais (resultantes de ausências breves mas repetidas, imagens maternais múltiplas, mãe ela própria deprimida) ou a inadequações da interacção mãe-bebé (cf. Coelho, 1996, para uma revisão da relação entre separação e depressão na infância).

É, pois, no contexto destas concepções acerca da importância da ligação materno-infantil e também dos efeitos das rupturas dessa ligação, que deverão ser enquadradas as preocupações expressas nos primeiros estudos acerca dos efeitos da creche, ou de outras modalidades de educação não parental. Tendo a teoria da vinculação formulada por Bowlby obtido grande divulgação, é sobretudo no quadro dessa teoria que os estudos acerca dos efeitos da creche vão emergir (Thompson, 1987). De acordo com a teoria da vinculação o bebé desenvolve uma representação interna da relação de vinculação durante a segunda metade do primeiro ano de vida, sendo considerado que esta representação se mantém relativamente estável e orienta o seu comportamento em novas situações (Bowlby 1969, 1973). Esta teoria teve grande impacto levando a questionar, em primeiro lugar, se a colocação da criança na creche não teria como consequência imediata a quebra da possibilidade de estabelecimento de vínculo entre a criança e a mãe e, num segundo tempo, se a criança teria a possibilidade de estabelecer múltiplos vínculos, e ainda, neste caso, se a relação com o educador

(entendido aqui num sentido abrangente como o adulto disponível na creche) se constituiria como uma verdadeira relação de vinculação.

Até certo ponto poder-se-á dizer que estas interrogações moldaram as ideias dominantes na sociedade ocidental e é nelas que radica a expressão comum entre nós da creche como “um mal necessário”, que traduz o cepticismo acerca da educação precoce não parental que durante muito tempo marcou também a posição de diversos autores (Portugal, 1998).

Um dos autores que mais enfatizou os riscos, em termos de desenvolvimento socioemocional, associados à colocação da criança na creche, foi Belsky (1984, 1986, 1987), cujos artigos levantaram a possibilidade de a colocação da criança na creche durante o primeiro ano de vida se associar a um aumento de evitamento da mãe e a um aumento de insegurança na relação de vinculação, sobretudo no caso de a criança aí passar mais de 20 horas por semana. Uma vez que, como afirmámos, a teoria da vinculação se havia popularizado, a sua sugestão teve grande impacto entre os pais e os profissionais. A colocação da criança na creche foi assum ida como um factor de risco, tendo Belsky (1984), após uma revisão dos estudos realizados acerca dos efeitos da creche no desenvolvimento da criança, considerado como uma evidência que a colocação da criança na creche, ou noutra modalidade de educação não parental, no primeiro ano de vida, constituía um factor de risco, favorecendo no imediato o desenvolvimento de ligações inseguras, e, a médio prazo, nos anos pré-escolares e escolares, dificuldades no processo de socialização e na interacção com os pares.

Para além de Belsky, outros autores reforçaram também o papel potencialmente negativo que poderia assumir a educação não parental, em especial em modalidades colectivas como é o caso da creche, no domínio do desenvolvimento emocional e do processo de socialização da criança (cf. Portugal, 1995, para uma revisão extensa acerca desta problemática). Uma vez que se admitia haver sido provado que, com excepção das crianças pertencentes a grupos de risco por razões socioeconómicas ou biológicas, os padrões de vinculação avaliados pela Situação Estranha14 (Ainsworth et al., 1978) se mantinham estáveis durante o segundo ano de vida, sendo as afirmações em contrário (Thompson et al., 1982, 1983; Waters, 1983, ambos citados em Belsky et al., 1996)

14 A Situação Estranha ( Strange Situation, no original) corresponde a um procedimento laboratorial estandardizado, elaborado, no quadro da teoria da vinculação, por uma equipa dirigida por Ainsworth. Este procedimento é constituído por uma sequência de vár ios episódios de separação e reunião do bebé com a mãe, que se destinam a apreciar o sistema comportamental de vinculação do bebé com um ano de idade, de acordo com as três categorias definidas na construção deste procedimento: inseguro-evitante; seguro; inseguro- resistente ou ambivalente (Ainsworth, Blehar, Waters & Wall, 1978).

consideradas controversas, os estudos sobre os efeitos da educação não parental assumiram esse pressuposto, e vieram então pôr em evidência que um dos efeitos da educação não parental no primeiro ano de vida seria a diminuição da segurança na vinculação entre o bebé e a mãe (Blehar, 1974; Rutter, 1979; Vaughn, Love & Egeland, 1980; White & Meyerhoff, 1984; Athanassiou, 1988; Falk, 1988; Belsky & Rovine, 1988; Truchis, 1988; Clarke-Stewart, 1989; Lamb & Sternberg, 1990; Sroufe, 1990, entre outros). Em geral os autores que se mostraram cépticos em relação à creche consideraram que o desejável seria que a criança permanecesse na família, em particular com a mãe, pelo menos no primeiro ano de vida, sendo argumentado que a colocação na creche comprometia a ligação da criança com a mãe, e teria consequências no seu desenvolvimento posterior, ainda que essas consequências pudessem não ser fáceis de objectivar.

O comprometimento dessa ligação foi sobretudo apreciado em termos de um aumento de vinculações inseguras entre a mãe e o bebé, tendo sido estabelecida uma associação entre emprego materno e vinculação insegura. Como afirma Gabriela Portugal (1998):

A conclusão explícita que Belsky retira da sua avaliação dos dados relativos aos efeitos da creche no desenvolvimento da criança é que a ecologia do emprego materno a tempo inteiro coloca as crianças numa situação de risco, favorecendo o desenvolvimento de ligações inseguras e comportamentos agressivos, oposição e intolerância. A mensagem implícita é a de que o emprego materno e a permanência do bebé na creche é uma coisa má para a criança (Portugal, 1998, p. 169).

A associação entre emprego materno e vinculação insegura foi, contudo, objecto de explicações relativamente diversas. Jaeger e Weinraub (1990) referem a este respeito duas linhas de investigação, distintas nomeadamente nas suas origens teóricas. As autoras consideram que essas linhas de investigação correspondem a dois modelos explicativos diferentes. O primeiro, que designam de maternal separation model, centra- se na separação da criança e nas suas interpretações acerca dessa separação aquando da ida para a creche, correspondendo sobretudo às investigações que procuram apreciar o impacto directo dessa experiência na segurança da ligação com a mãe. O segundo, designado de quality of mothering model, considera fundamentalmente os efeitos do emprego materno como sendo indirectos, mediados pelos seus efeitos na qualidade da interacção mãe-criança, correspondendo às investigações que se têm centrado no modo como o estatuto do emprego materno afecta a dinâmica familiar, o comportamento ou qualidade da interacção entre a mãe e a criança e o seu impacto no desenvolvimento da criança. De acordo com Jaeger e Weinraub (1990), estes dois modelos derivam da teoria

da vinculação. No entanto, o primeiro apoia-se fundamentalmente nas formulações teóricas de Bowlby acerca da etiologia de ligações afectivas caracterizadas pela insegurança e pelo evitamento, enquanto que o segundo tem as suas origens sobretudo nos trabalhos de Ainsworth acerca das diferenças individuais nos padrões de ligação à mãe, avaliados através da Situação Estranha.

Num sentido idêntico, também Howes (1990) se refere, por um lado, às teses que sugerem que as separações diárias interferem com o estabelecimento de uma relação segura (por exemplo, Belsky, 1986) e, por outro, às que sugerem ser sobretudo o stress associado com o emprego que torna difícil a algumas mães serem suficientemente responsivas para os seus bebés de modo a facilitar uma vinculação segura (Clarke- Stewart, 1989). Exemplos destas duas tendências podem também ser encontrados, por um lado, em Barglow, Vaughn e Molitor (1987), que interpretaram os dados que sugeriam um maior índice de insegurança na vinculação por parte das crianças que frequentavam a creche como indicando que os bebés experienciavam as separações diárias como rejeição maternal, e, por outro, em Brazelton (1986, 1989), ao referir a probabilidade de as separações diárias diminuírem a capacidade da mãe para desenvolver uma atitude de sensibilidade e empatia em relação ao seu bebé.

Na verdade, alguns estudos, para além de considerarem as consequências apreciadas em termos da vinculação, incidiram de uma forma mais específica na qualidade das interacções estabelecidas entre a criança e a mãe. Estes estudos foram sobretudo suscitados pela importância atribuída aos processos interactivos precoces, entre o bebé e a mãe, na regulação dos ritmos do bebé e no estabelecimento de fenómenos transaccionais precoces (Stern, 1980; Brazelton, 1987), e pelo facto de se considerar que a regulação do desenvolvimento ocorre através das interacções, consideradas por esse motivo como a principal fonte de variação do desenvolvimento socioemocional precoce (Sameroff & Emde, 1989; Mazet, 1993). Nesta perspectiva, a disponibilidade emocional do adulto que cuida da criança, apreciada sobretudo em termos da sensibilidade e responsividade deste em relação às suas necessidades, é encarada como estando associada com o estabelecimento de uma vinculação segura ao ano de idade. A qualidade da interacção entre a mãe e a criança, considerada como uma condição para o estabelecimento de uma vinculação segura, é neste caso apreciada sobretudo em termos da conjugação entre a competência do bebé para sinalizar os seus estados e necessidades e a sensibilidade e prontidão da mãe para lhes responder, ou seja, como um processo bidireccional marcado por fenómenos de reciprocidade (Isabella, Belsky & Von Eye, 1989; Sroufe, 1989; Bornstein & Tamis-LeMonda, 1990; Thompson,

1997; Wolff & Van Ijzendoorn, 1997, entre outros). Os fenómenos interactivos precoces entre a criança e a mãe passaram a ser considerados como tendo um valor preditivo importante do desenvolvimento posterior da criança, considerando-se que interacções calorosas e reciprocamente gratificantes se associam com a emergência posterior de capacidades da criança nos domínios social, cognitivo e linguístico (Baumrind, 1989; Seifer et al., 1996; Boom, 1997; Kochanska, 1997; Frankel & Bates, 1990; Wendland- Carro, Piccinini & Millar, 1999; entre outros).

É, pois, neste contexto que surge a interrogação que subjaz à segunda linha de investigação assinalada por Howes (1990), uma vez que se pressupunha, na linha da posição de Brazelton (1986), a que anteriormente fizemos referência, que as separações diárias induzidas pela colocação da criança na creche teria efeitos negativos na interacção entre a criança e a mãe, por diminuição da capacidade desta para aprender a identificar as sinalizações do seu bebé e estabelecer uma continuidade comunicativa. Estes “perigos” foram considerados não apenas durante o primeiro ano de vida mas ao longo da infância, em particular até ao 3º ano de vida, embora a primeira situação tivesse sido considerada mais crítica, em particular no caso de educação não parental extensa, desencadeando investigações que relacionavam especificamente a duração de educação não parental com os seus efeitos na interacção mãe-filho. Esta associação foi ainda recentemente enfatizada por Belsky (1999), que encontrou uma associação entre o aumento da quantidade de tempo passado na creche nos primeiros três anos e uma interacção mais pobre entre a criança e a mãe aos 2/3 anos de vida da criança, justificada sobretudo por menor sensibilidade materna. A essa interacção mais pobre foi ainda associada uma maior incidência de problemas de comportamento e má adaptação social, sobretudo em rapazes.

Alguns autores, contudo, têm levantado objecções à generalização da conclusão de que a educação extrafamiliar representa por si só um risco para a criança, e em particular às teses de Belsky, sendo sobretudo argumentado que os eventuais danos verificados em crianças que frequentaram a creche deveriam ser considerados tomando em linha de conta variáveis relativas aos diversos contextos. Em geral esses autores consideram as conclusões de Belsky como sendo apressadas, uma vez que se baseariam em estudos realizados em ambientes particulares (Portugal, 1998).

De um modo mais específico, Thompson (1987) critica em particular a interpretação feita por Belsky (1986) acerca dos sinais identificados como sendo de rejeição e insegurança na vinculação, considerando que eles podem corresponder

apenas a estilos sociais diferentes e mesmo a independência da criança, e encara também com muitas reservas a associação estabelecida entre essas perturbações na vinculação com a mãe e os problemas no domínio do comportamento na idade pré- escolar. Phillips, McCartney e Howes (1987) e Chess (1987) reagiram também com alguma veemência às teses de Belsky, considerando que este autor, ao ignorar a diversidade e qualidade dos contextos, e afirmar que a entrada da criança na creche no primeiro ano de vida constitui sempre um situação grave de risco, estaria a enviesar a leitura dos resultados dos estudos por si revistos. Phillips, McCartney e Howes (1987) discordam da análise feita por Belsky acerca dos resultados desses estudos e referem-se especificamente a um conjunto de investigações que estabeleceram uma associação entre a qualidade e estabilidade dos contextos de educação não parental e o desenvolvimento posterior da criança, considerando ainda que à partida não seria possível deduzir das investigações realizadas até essa data que as crianças criadas em casa e na creche, por si só, apresentariam padrões de desenvolvimento diferentes ou mesmo diferenças na vinculação com as mães. Também Thompson (1987) considera que a posição de Belsky é demasiado determinista, ignorando a grande plasticidade que se sabe existir no desenvolvimento, argumentando ainda que o padrão de vinculação apenas funciona como um factor preditivo do desenvolvimento posterior da criança se as restantes condições (mudança de creche, de adulto responsável pelos cuidados ou das condições sociais em que esses cuidados são prestados) se mantiverem relativamente inalteradas.

Aliás, num estudo mais recente, Belsky, Campbell, Cohn e Moore (1996) reconheceram que a estabilidade dos padrões de vinculação, apreciados em termos não só da relação com a mãe, mas também com o pai, é menor do que havia sido sugerido em estudos anteriores, mesmo tratando-se de amostras de crianças que não eram consideradas de risco. Na discussão destes resultados, que consideram surpreendentes, os autores interrogam-se acerca do impacto das transformações ocorridas nos anos que mediaram este estudo e as investigações iniciais acerca dos efeitos da creche, nomeadamente o impacto do crescente envolvimento do pai nos cuidados e educação dos seus filhos, e na ecologia da família. Belsky et al. (1996) afirmam mesmo:

(…) it now seems inappropriate to assume that stability rather than instability is the norm when it comes to measurement of attachment security using the Strange Situation (…). To the extend the instability proves inexplicable, questions will be raised about the reliability of the attachment construct as assessed by the Strange Situation (Belsky et al., 1996, p. 924).

Refira-se, a propósito da Situação Estranha, que a sua adequação ou fiabilidade tem sido também questionada por outros autores (Ragozin, 1980; Goossens & Melhuish, 1996; Pederson & Moran, 1996; Verweij, Goossens & Koops, 1992; McCollum & McBride, 1997; entre outros), que sugerem nomeadamente que esse procedimento de avaliação pode não ser psicologicamente equivalente para crianças que frequentam a creche em relação a crianças criadas em casa, e ainda que essa metodologia poderá não ser adequada para avaliar os padrões de vinculação em contextos culturais diferentes daquele em que ela foi construída. Trnavsky (1998), por exemplo, num estudo com bebés chineses, usando a Situação Estranha, encontrou diferenças importantes nos comportamentos não só dos bebés mas também das suas mães face às situações que integram esse procedimento, nomeadamente em virtude de a interacção entre ambos tender a ser mais próxima e ser pouco habitual que esses bebés sejam deixados sozinhos, o que terá contribuído para aumentar o nível de stress dos bebés e das próprias mães15.

As críticas e controvérsias em relação às investigações desenvolvidas em torno dos efeitos da creche não se restringem, contudo, aos dados que emergiram na esfera emocional e especificamente sob o ângulo das interacções e dos processos de vinculação.

Em relação, por exemplo, aos distúrbios do comportamento e às dificuldades no processo de socialização, ligados por vários autores à educação não parental através de uma associação entre esta e sinais de má adaptação social e de comportamentos disruptivos nas idades pré-escolares e escolares, agressividade e dificuldades nas relações com os pares (por exemplo, Belsky 1984, Belsky & Rovine, 1988, Clarke- Stewart, 1989), outros estudos não encontraram confirmação para estes efeitos. DiLalla (1998), por exemplo, num estudo realizado com 124 crianças de 5 anos, não encontrou efeitos directos da experiência de creche nos comportamentos agressivos ou pró-sociais das crianças. Tendo nesse estudo o temperamento da criança (avaliado pelos pais com utilização de duas escalas) sido tomado em linha de conta, a autora verificou ainda que o temperamento da criança, entendido como uma possível variável moderadora do impacto da experiência da creche, influenciava os comportamentos pró-sociais da criança mas não os seus comportamentos agressivos. Estes resultados são

15 Este tipo de abordagens tem sido, aliás, criticada, por isolar os sujeitos dos ambientes em que se integram e com os quais interagem. Bronfenbrenner (1979), por exemplo, formulou essa crítica em relação a grande parte dos estudos relativos ao desenvolvimento, caricaturando esta perspectiva, como afirma Soczka (1997), “como a

ciência do estranho comportamento das crianças em situações estranhas com adultos que lhe são estranhos, durante os mais breves períodos possíveis de tempo” (Soczka, op. cit., p. 387).

concordantes com os de outros estudos que também não identificaram efeitos negativos da creche nos comportamentos sociais das crianças (Schindler et al., 1987; Hegland & Rix, 1990), tendo, em alguns estudos, sido obtidos indicadores de que não só as

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