• Aucun résultat trouvé

4. Développement de Nagios

4.2. Développement de "plugins"

4.2.1. Envoi de notifications au Nagios Central

Os esforços em perseguir, matar ou disciplinar os Payayá perduraram durante séculos. O desterramento era radical, pois parecia não haver lugar para se apoiar. Impedidos de se recolher, a fuga era um imperativo, cuja tônica foi dirimida quando se voltaram para Yapira. Esta nascente pareceu aos olhos coloniais inviável comercialmente, pois nas suas proximidades não se encontrou o mineral almejado pelos bandeirantes e pelos demais agentes brasílicos (CUNEGUNDES, 1999). A Yapira e seu contorno regional se tornou o lugar de refúgio, como demonstra a narrativa do Cacique Payayá:

Por que que a gente tá aqui? Não é estudando não, é compreendendo o labirinto que se formou, você percebe que não existia mais lugar no

mundo para os Payayá. Uns dizem que encontram resquícios em São

Paulo, outro no Texas[11], outros em Utinga, aqui onde entra nós. Então

o que a gente percebe é que não existia mais espaço para os Payayá. Eles eram guerreiros mesmos, eram pessoas muito inteligentes, eram pessoas que tinham uma capacidade de guerrear incomum [...] e sem

lugar pra onde ir eles procuraram um lugar onde não tivesse ouro pra se refugiar. E onde é esse lugar? Yapira, que significa Cabeça do Rio.

Eles vinham ficavam lá naquela região toda por onde vocês vieram [...] Tapiramutá, lugar onde se espera a anta, e aí desce e vem pra essa região aqui. O cara bebe água aqui e volta pra serra (Cacique Juvenal Payayá, Cabeceira do Rio, abril de 2016, destaques acrescentados).

A atividade mineradora, intensificada no século XVIII na região de Jacobina, dizimou muitos indígenas, obrigando-os a ir em direção ao sudoeste, que corresponde atualmente aos municípios de Tapiramutá12 e de Utinga. Neste aqui os

Payayá encontraram a possibilidade de manter a relação telúrica com os vales

11 Os estudos de Thomas Campbell identificam indígenas Payayá no Texas, Estados Unidos,

especialmente na região de San Antonio. Segundo o autor, a primeira vez que se teve notícias deles nos EUA foi em 1690. O rio referência em San Antonio recebe o nome Payayá, pois foi perpetuado pela sociedade Yanaguana que lá habita (CAMPBELL, 1975).

longitudinais, com as escarpas abruptas que limitam os platôs, com a vegetação espinescente da caatinga, ou verdejante da floresta estacional semidecidual, com a água e com os demais elementos constituintes de suas paisagens.

Os rios, especificamente, sempre foram um espaço mítico para eles, como também uma fonte de sustento, pois os peixes compunham sua dieta alimentar. No entanto, no século XVIII, os rios já estavam sob domínio das povoações coloniais, mas não especificamente as águas nas proximidades da nascente do Rio Utinga, onde o curso d’água não tinha ainda uma feição mais caudalosa. Com efeito, a disponibilidade de peixes era muito limitada, mas havia outras amenidades para degustar, como por exemplo, o acajutibiró, um tipo de caju de sabor amargo encontrado nessa região, que fazia parte da alimentação Payayá.

No caso Morro do Chapéu, Jacobina, que foi o centro mais nervoso da mineração, aquela região de Campo Formoso, de Pindobaçu e Papagaio que hoje é Caém. Aí os mineradores chegaram e dominaram a área e começaram a avistar a serra. Então mata índio, mata índio. Eles achavam que tinha ouro e os índios sendo dizimados.

E os índios começaram então a fazer muitas armadilhas e aí eles começaram a inviabilizar a colonização baiana, e aí você ver isso nas entre linhas [...]. Aí os índios [...] foram vindo pra o lado de cá. E como eles conheciam aqui como ninguém voltaram para sua área pra colher

o caju, que era chamado acajutibiró, que era a época de colher o caju

amargo, né? Mas também gostavam de peixe, né? E era na beira do rio, e na beira do rio os portugueses começaram a dominar. Eles já não tinham mais lugar onde ir na verdade (Cacique Juvenal Payayá, Cabeceira do Rio, abril de 2016, destaques acrescentados).

Mesmo com o aqui Cabeceira do Rio, novos enfrentamentos surgiram, pois ele não produz um isolamento protetor, motivando por vezes o próprio conflito. Outros colonizadores, sobretudo franceses e italianos, chegaram e se fixaram ali, promovendo um novo aquartelamento aos Payayá que, para permanecer na terra, mais uma vez foram sujeitados ao imperialismo. Múltiplos processos de violência confluíram para matizar a feição do atual povoado Cabeceira do Rio.

Os Payayá que resistiram à espoliação carregam as marcas dessa violência. Torpemente miscigenados, submissos e escravizados, eles receberam a insígnia dos seus respectivos “donos”. “A minha família, por exemplo, passou a ser chamada de Gonzaga. [...] Esse nome Gonzaga ele é um nome tradicional, antigo, da França. [...] O

que se pode imaginar é que o dono do escravo dava a ele seu sobrenome”, afirmou o Cacique Payayá (Cabeceira do Rio, dezembro de 2016).

Designados por outros nomes, os Payayá emudeceram. A derrocada pelos constantes massacres silenciou o ritmo que os animava. Mas foi a própria ferida do cativo que fez brilhar a nudez do rosto. A experiência do colapso se mostra como crítica às relações sociais alérgicas que tentaram reduzir a alteridade à unificação.

Saturados do imperialismo, os Payayá se reuniram na Cabeceira do Rio e resolveram assumir sua condição indígena. Internamente, seus representantes foram eleitos e desde a década de 1990, deliberadamente, aglutinaram esforços para tonificar o sentido do um-para-outro de sua identidade.

O desejo de um “povo renascido”, na expressão do Cacique Payayá (GUZMÁN, 2016, p. 28) não é fruição de afirmar-se indígena. Pelo contrário, esse movimento é sentido pela violência imediata de uma sociedade intumescida pela caducidade do direito à diferença.

O caminho para oficialização dos Payayá foi bem sinuoso. O próprio movimento indígena na Bahia, no qual buscaram suporte, ainda não era muito articulado até o final do século XX. Somente no ano de 2008, por meio do Primeiro Encontro das Culturas dos 14 Povos Indígenas da Bahia (E 14) realizado na aldeia Tuxá, município de Rodelas, que os Payayá tiveram a oportunidade de dialogar com as lideranças indígenas em um só tempo. Este foi um evento crucial na trajetória dos Payayá, pois permitiu que as lideranças dos povosAtikum, Kaimbé, Kiriri, Kantaruré, Pankararé, Pankararu, Pataxó, Pataxó Hã-Hã-Hãe, Truká, Tumbalalá, Tupã, Tupinambé, Tuxá e Xucuru-Karir acordassem por unanimidade um termo que reconhecia os Payayá como 15º povo indígena da Bahia.

Todos esses povos, especialmente os Pataxó Hã-Hã-Hãe, apoiaram a legitimação dos Payayá perante a Funai, fortalecendo sua participação e construindo um certo protagonismo na militância indígena. Os Payayá contribuíram para a formação e/ou fortalecimento de várias organizações, tais como a Associação Hã-Hã- Hãe Indígena de Água Vermelha (AHIAV), o Movimento Unido dos Povos e Organizações Indígenas da Bahia (Mupoiba), como também organizações de interesse social mais amplo como grupos e feiras de literatura, a exemplo da Feira de Literatura

de Mucugê (Fligê), Chapada Diamantina (BA). Além disso, tem participado também em comissões consultivas e deliberativas em âmbito estadual, tais como o Conselho Estadual de Educação da Bahia (CEE), o Comitê de Bacia Hidrográfica do rio Paraguaçu (CBHP), o Conselho Estadual dos Direitos dos Povos Indígenas do Estado da Bahia (Copiba), dentre outros.

Esta atuação em âmbito estadual nunca prescindiu de uma forte atuação local e regional, sobretudo no que se refere à política ambiental e às ações de preservação das condições climático-hidrológicas e fitogeográficas das paisagens do sertão, especialmente na Chapada Diamantina. Entre as ações se destacam os esforços na recuperação da barragem nele situada, que envolveu a população do povoado Cabeceira do Rio, bem como o cultivo de mudas nativas em um viveiro para a recuperação da mata ciliar do rio Utinga.

Figura 13: Responsabilidade para com o rio Utinga, Cabeceira do Rio

Fotos: Juvenal Payayá, 2018.

Paisagem de taboas, sua retirada foi uma das ações recentes que contribuíram para a articulação política, no sentido ético, dos Payayá em Cabeceira do Rio. Trata-se de assumir a responsabilidade com a alteridade que é tanto o rio Utinga quanto o próprio povoado e sua população.

O viveiro, por exemplo, não constitui apenas uma ação conservacionista: antes, implica a metafenomenologia da alteridade que está também na diversidade fitogeográfica da caatinga que tem sido, tanto quanto os Payayá, vilipendiada pelo colonialismo e pela modernização. No viveiro, estabelece-se uma nova articulação entre essa modernização e a terra, por meio dos Payayá, reorientando a relação para um sentido ético.

Essas ações são orientadas pelo sentido ontológico e metafísico da Yapira. É ontológico à medida que ela é base fundamental da existência, e é metafísico devido ao tensionamento e a recriação contínuos entre o eu e o outro, como também pela cosmovisão Payayá que combina natureza e cultura para posteriormente dessubstancializá-las. Os fenômenos meteorológicos, as plantas, os animais, os mortos, os espíritos, o Outro humano, a geomorfologia e os artefatos produzem a subjetividade manifestam como cuidado, sobretudo, com a Yapira.

Figura 14: Diversidade fitogeográfica da Caatinga, Viveiro Payayá, Cabeceira do Rio

No entanto, a maioria dos Payayá residem fora da Yapira. Eles estão em situação urbana, o que representa 64% da sua população. Eles estão distribuídos nos municípios baianos de Jacobina, Morro do Chapéu, Porto Seguro, Salvador e Utinga, e na cidade de São Paulo, para a qual a família do Cacique se mudou nos anos 1960, onde permanecem ainda alguns parentes residindo na metrópole paulistana, mesmo após o retorno para a Bahia de muitos de seus irmãos e parentes. Destes, os únicos municípios onde há população Payayá residente na área rural são Morro do Chapéu e Utinga, com destaque para este último, que corresponde à localização do povoado Cabeceira do Rio (Tabela 1).

Tabela 1: População Payayá segundo situação de domicílio - Brasil

População rural População urbana População Total

Município N % N % N %

Utinga (BA) 32 29,6% 19 17,6% 51 47,2% Porto Seguro (BA) 26 24,1% 26 24,1% Morro do Chapéu (BA) 7 6,5% 13 12,1% 20 18,5% Salvador (BA) 5 4,6% 5 4,6% São Paulo (SP) 5 4,6% 5 4,6% Jacobina (BA) 1 0,9% 1 0,9%

Total 39 36,1% 69 63,8% 108 100%

Fonte: MAIP, 2014. Elaboração: Jamille Lima.

Esses dados apresentam o cenário de 2014 que envolvia os Payayá associados ao MAIP. Assim, devem ser compreendidos como indicativos daquele momento, estando em constante modificação e ampliação à medida que o movimento continua e, sobretudo a partir de 2019, o Território Indígena Payayá foi finalmente concedido.

Apesar da sua maioria encontrar-se em situação urbana, os Payayá têm a ruralidade como modo de ser, o que é presente em Cabeceira do Rio, mas também naqueles que migraram para São Paulo e ali viveram por anos, ou aqueles que vivem em outras áreas urbanas de cidades da Bahia. Sua ambiência no contexto urbano não implica em um processo de desagregação cultural e aculturação, como costumeiramente é manifesto pelo imaginário nacional que, segundo Nunes (2010),

associa por um lado índios e floresta/natureza, e por outro, não-índios e cidade/civilização.

Essa ruralidade foi histórica e geograficamente vivida no périplo de fugas e reconstruções que os levaram a Yapira. Como campesinos, eventualmente adquiriram porções de terra em outros tempos, tendo perdido parte delas em processos de desapropriação e expropriação. Mas é na vivência rural, no sentido de cuidado com a Terra (GIRALDO, 2013), no sentido dardeliano do termo geograficidade, que Yapira figura este sentido de “aqui”: vivo, múltiplo e dinâmico, não como expressão da imobilidade ou de uma essência cristalizada em algum tempo-espaço: lugar-refúgio que permite a existência material e simbólica dos Payayá.

Como já destacado, é nesta condição de mistura que o indígena nordestino se coloca: agricultor, negro, índio, baiano, nordestino. Em vez de questionamento de uma pretensa autenticidade, esta condição é a própria expressão da historicidade da constituição deste aqui Yapira: um elo que não está somente no passado remoto rememorado, mas em uma forma de constituição que envolve a evasão de si.

A existência Payayá, hoje, está fundada no movimento de retorno a Cabeceira do Rio. A multiplicidade que os Payayá são atualmente está baseada neste aqui, mesmo que não residam ou retirem dele as condições para a reprodução material de suas vidas. Ser Payayá hoje não está ligado de forma linear e enclausurada à Cabeceira do Rio, nem àquilo que ela representa pelo que foi: é presentificação da possibilidade de Ser – as relacionalidades possíveis e, sobretudo, o enfrentamento e a negação do processo de rostificação enquanto descaracterização do Ser Payayá.

Este engajamento do ser na perspectiva de Lévinas é guerra (SEBBAH, 2018). E é justamente aquilo que os Payayá, ao se voltarem para Cabeceira do Rio, buscam: o enfrentamento para defesa do Território, como bem expressa outra poesia de seu Cacique.

Chega pois, morrer e pensar ser galardão? Não. Melhor é o saber. A vida é de Deus E a terra também. Ela não tem valor nem preço A terra é de quem estava no lugar. É Payayá.

No entanto, como destacado, hostilidade e hospitalidade congraçam uma ambiguidade que implica e envolve a alteridade. Se defender o território é guerra, ir ao encontro do lugar é acolhimento, não esculpindo uma relação alérgica, mas uma imbricação ambígua e incontornável.

A defesa se dá pelo enfrentamento e pelo acolhimento. A partilha se dá pela seção, na negociação, mas também na requisição, no embate. Retornar a Yapira é, assim, uma guerra e um assumir a responsabilidade para-com-o-Outro.

3 ROSTIFICAÇÃO: A CONSTITUIÇÃO DO

MURAMENTO DOS PAYAYÁ

A história colonial, em sua geograficidade e historicidade, nos permitiu acompanhar o processo de desbaratamento dos Payayá, como desterramento, ao mesmo tempo que explicitou a força de Yapira como aqui Payayá.

Neste capítulo, realizamos mais uma dobra neste processo, singrando pela constituição do muramento dos Payayá, o qual silenciou, por mais de dois séculos, a verbalidade do ser Payayá. Esse povo foi continuamente marcado pelo estigma da inferioridade indígena e expropriado, pela rostificação, de sua indianidade.

Compelidos a não se ver como indígenas, o esquecimento e o esbulho de seu aqui se tornou o maior foco de sua retomada, levando-os ao Território Indígena Payayá. Este dá outro contorno à sua guerra, cujos perigos perpassam sua própria objetificação: resistir a reduzi-lo à sua dimensão produtiva ou material, cultivando-o como terra sagrada na qual sua alteridade se radicaliza.

Documents relatifs