Nesta bem-aventurança do livro “O Sermão da Montanha” de Huberto Rohden, a metafísica e a experiência mística estão também presentes, como ele bem evidencia em sua exposição deste texto.
Na Bíblia de Jerusalém está exarada esta bem-aventurança no Evangelho de Mateus, Cap. 5, v. 10 (p. 1711): “Felizes os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus”.
Konings (2005, p. 32) traduz: “Felizes os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos Céus”.
No exame desta bem-aventurança, lembramos que o tema da justiça já foi apresentado quando da “bem-aventurança dos que têm fome e sede de justiça” (p. 37-8).
Aqui, Rohden descreve porque os homens cristificados e que proclamam a verdade, são perseguidos.
Também, nesta bem-aventurança, o discurso de Jesus é objeto de perguntas e perquirições, que nos envolvem com a contradição, a oposição dos contrários.
Por que os justos e retos são perseguidos, exatamente por serem justos? Toda sociedade civilizada, após séculos ou mesmo milênios na sua formação, constitui-se em bases morais, luta por princípios estabelecidos na justiça e na ética, sendo esta última o substrato da moral.
Então, por que perseguição para os que propugnam pela justiça? E pela ética? Estas são dimensões sociais sem as quais torna-se impossível uma sociedade manter-se viva, prosperar, realizar seus valores e continuar na sua trajetória.
Rohden afirma que desta prática está repleto o Evangelho de Jesus, como tal, e as Sagradas Escrituras. Ele explica (p. 50): “Por causa do meu nome sereis odiados de todos, e chegará a hora em que todo aquele que vos matar, julgará prestar um serviço a Deus”.
Segundo nossos princípios, nossa consciência tanto social como ética ou mesmo religiosa, a perseguição é para os homens fora dos nossos padrões de justiça, ética, bem-estar e verdade.
A história humana tem revelado que os interesses materiais e interesses contrariados, da mais variada natureza, são o móvel de muitas ações deploráveis, e a Verdade não é tolerada ou aceita pelo homem comum, “não espiritualizado”.
Rohden (p. 51) considera duas razões fundamentais para que o homem justo seja objeto de perseguição:
1) – [...] “um indivíduo persegue outro indivíduo, não porque este seja mau, mas também pelo fato de ser bom”.
Ele explica que o homem justo representa um perigo, ou ameaça a outro, que pode ser bom, mas menos bom do que aquele ao qual ele hostiliza.
O homem espiritual lança sua luz, sem opressão ou turbulência, mas destaca- se da sociedade na qual ele vive. A luz deste homem é mais forte do que a dos outros, então sua presença é perigosa para o homem de escassa espiritualidade, assim:
2) - “[...] o desejo de ser tão espiritual como o outro apresenta-se”, ou “uma atitude de despeito e agressividade são despertados nos seres menos espiritualizados” (p. 51).
sinceras” e a dos homens “orgulhosos e insinceros consigo mesmos” (2008, p. 51). Como uma consequência nostálgica dessa incompreensão do ser humano, Rohden continua explicando: “essa guerra é uma guerra no plano moral” (p. 52), e o homem espiritual é uma exceção à regra. O homem espiritualizado vive a sua experiência e não pode transferi-la a ninguém, argumenta Rohden, e a solidão, ou seja, a atitude e o comportamento do homem espiritualizado, que são individuais e subjetivos abala toda uma sociedade pela novidade ou inovação deste propugnador da justiça e do Reino de Deus.
A mística de Rohden é expressiva neste ponto de sua exposição quando refere-se à “comunidade dos santos” (p. 53), que é formada por “anônimos e solitários pioneiros do Infinito”.
Uma observação também de ordem mística aparece nesta análise de Rohden, quando expõe que a presença de homens cristificados não aparece muito no mesmo lugar e tempo, mas apenas dois ou três. E completa seu argumento: “A misteriosa lei da polaridade ou da trindade (dois ou três)” circulará entre este pequeno número de homens crísticos e comunicará ao “universo espiritual” (p. 54) os ensinamentos e ações de acordo com o Cristo.
Transcreveremos, em parte, este final da exposição de Rohden, para melhor ilustrarmos a sua mística (p. 54):
No tempo de Jesus, eram Pedro, Tiago e João essa tríade espiritual que presenciaram o Mestre no seu sofrimento e na sua glória. O total dos discípulos era doze, quatro vezes três, e, quando um deles falhou, se apressaram os restantes onze a preencher a lacuna; mas quem designou o substituto de Iscariotes não foram eles, mas foi o ‘espírito santo’, como referem os livros sacros. Nenhum homem podia restabelecer o número sagrado quatro vezes três; só o espírito de Deus.
Centraliza-se neste trecho a visualização da mística que destaca, em profusão, do ensinamento de Rohden, abrindo-nos ou desvelando-nos a apreensão ou a compreensão do mundo espiritual que, como substrato, tem o plano moral na análise desta bem-aventurança (como dito antes), e não só explica como também aprofunda sobre a perseguição aos que laboram e constroem o Reino de Deus aqui na Terra.
Rohden busca o esclarecimento deixado por Pitágoras, o matemático e filósofo de Samos (antiguidade grega), quando diz saber que:
“[...] três é o número da sacralidade vertical, e que quatro é o número das realizações horizontais. O número três é a mística do primeiro mandamento; e quatro é a ética do segundo mandamento” (p. 54).
Sequencialmente, ao buscar outros teólogos em suas interpretações desta mesma bem-aventurança, lembramos Carter (2002, p. 186) quando afirma que o reinado de Deus procura relações sociais diferentes e uma distribuição equitativa de acesso aos e dos recursos.
Portanto, é a justiça equitativa de que falam todos os princípios legais, das legislações e sistemas jurídicos (podendo ser mais visíveis nas leis modernas), tendo como consequência prática a diminuição das dificuldades e injustiças e o desequilíbrio social. Seria uma possibilidade (ou talvez uma realidade) para que o Reino de Deus fosse vivenciado como forma de paz e reflexo do poder de Deus. Este poder é profundamente sutil e silencioso para os ouvidos pouco atentos e percepção humanos.
“E a perseguição é por causa da retidão (justiça)” (CARTER, 2002). Os seres de boa vontade são perseguidos, mas serão recebidos no Reino de Deus sendo que as ações humanas materializam a justiça de Deus.
Zeilinger (2008, p. 65) observa que a concretude desta bem-aventurança, ora analisada, é claramente um sinal de Deus, “sinal universal do ser cristão”.
Segundo este mesmo autor, a expressão “por causa da justiça” deve ter sido bem corrente no Cristianismo primitivo, que, de uma maneira geral, na literatura sapiencial, conforme Sb 2,10-20 vê nesta perseguição a prova da “filiação divina” do justo, e estes são considerados dignos d’Ele.
Pode-se dizer também que esta bem aventurança implica a exigência da confiança em Deus e a perseguição deve não exasperar os servidores de Cristo.
Esta é uma relação fundamental com Cristo: uma vida justa, reta e correta leva a esta confiança e à paz que desperta nos seguidores de Cristo. Deles é o Reino dos Céus.