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Evaluation quantitative

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5.2 Evaluation des algorithmes de reconstruction de doses

5.2.2 Evaluation quantitative

Para falarmos sobre o conceito que constituía o principal foco de análise desta dissertação, iniciamos este capítulo visitando alguns textos de correntes psicológicas existentes nos anos vinte do século passado criticadas por Vigotski (e, não por acaso, que permanecem grandes representantes da psicologia até hoje). O behaviorismo metodológico de John Watson defendia a psicologia como uma ciência que estudasse o comportamento humano, análoga a qualquer ciência natural, lidando com eventos observáveis e compartilháveis cientificamente; dentro dessa perspectiva, a consciência naturalmente não se encaixava – sua existência não era necessariamente negada pelos behavioristas, mas ignorada, uma vez que não possuía acesso objetivo. Tivesse entrado em contato com as idéias de outros behavioristas a partir dos anos trinta (como o próprio Skinner), Vigotski talvez pudesse ter realizado diálogos mais prolíficos com a teoria comportamental. Já a psicanálise freudiana possuía características bastante diferentes da perspectiva watsoniana. Nos textos a que tivemos acesso, Freud

40 Nesta frase, Vigotski preferiria o termo explicação à palavra compreensão ou descrição. Enquanto autores

como Pino (2005) enfatizam como contribuição vigotskiana a importância de uma abordagem interpretativa ao fenômeno humano, Blanck (2002, p. 43) afirma que o objetivo do russo seria, pelo contrário, examinar a psique através de uma “explicação científica, determinista e causal” das funções psicológicas. De fato, embora estivesse a par da famosa distinção filosófica explicação X compreensão estabelecida pelo alemão Wilhelm Dilthey e tivesse familiaridade com a proposta do filósofo em separar as ciências naturais das ciências humanas com base naquela distinção, Vigotski tinha uma posição bastante interessante a este respeito (1995, pp. 101-105). Ele afirmava, primeiro, que a descrição não era um tipo de análise suficiente em psicologia, visto que duas ações podem ter externamente a mesma aparência e nem por isso ser similares; e também que poderíamos refletir se a passagem da descrição para a explicação não seria uma característica da maturação das ciências em geral. Aliado a isso, ele dizia, ainda, que para realizar tal passagem, era preciso mais do que substituir um conceito por outro: a ampliação da análise descritiva incluía, segundo ele, a etapa de definição do “nexo genético” e na medida em que se desenvolvia e, assim, a ciência se converteria em explicativa. Para ele, vários conceitos de outros campos científicos passavam de descritivos a explicativos graças ao reforçamento desse vínculo genético. O fenômeno não se definia, dizia, por sua forma externa, mas por sua origem real (p. 102). Em tempo, uma declaração interessante de Alvarez e del Río (1998, p. XXI): “Porque uno de los conceptos essenciales en la aproximación vygotskiana a la psicología es que su modo de explicación, en la medida en que parte de presupuestos auténticamente evolutivos e históricos, no es especulativo, sino constructivo. Es decir, la explicación teórica se valida en la medida en que sea possible construir la estructura que se trata de explicar.”

defendia o inconsciente como objeto de estudo por excelência da corrente psicanalítica; e enfatizava que esse e outros fenômenos psíquicos (como a consciência, parte menos significativa da psique) não só eram de natureza irredutível a qualquer espécie de substância como também só podiam, por conta disso, lidar com hipóteses puramente psicológicas: isso significava que nenhum conhecimento da física ou da química seria suficiente para dar conta de apreender o fenômeno psíquico. Tais declarações incorriam, para Vigotski, em idealismo; e ele considerava o sistema freudiano como tendo um caráter anti-dialético e anti-histórico (ainda que admirasse vários aspectos da teoria). Também a Gestalt admitia a possibilidade da consciência (embora não se dedicasse declaradamente a seu estudo); a proposta desse sistema e de alguns seus representantes, a exemplo de Wertheimer, Koffka e Köhler, buscava superar dualismos e atomismos característicos de grande parte das correntes psicológicas da época. Grande admirador da Gestalt, Vigotski tinha grandes zonas de contato com seus teóricos; ele fazia críticas, principalmente, à falta de historicidade das estruturas gestálticas, as quais, ao invés de problemas, tornavam-se postulados que guiavam a priori muitas das pesquisas nessa área. Provavelmente, a teoria das relações parte-todo constitui a contribuição da Gestalt mais significativa ao pensamento do psicólogo soviético.

O breve exame de algumas teorias psicológicas serviu para dar sentido à crítica de Vigotski quanto à crise na psicologia, e caracterizar a proposição de seu conceito de consciência. Percorremos alguns de seus textos e vimos que o conceito passa de um viés mais estritamente reflexológico para um de natureza mais social e semiótica – por conta, no caso, da proposição, em um de seus escritos, do significado da palavra como unidade de análise psíquica. O problema da discordância quanto ao que deva ser essa unidade foi relatado por nós; dedicamo-nos, por algumas páginas, a uma exposição rápida de algumas asserções básicas da teoria histórico-cultural vigotskiana – em primeiro lugar, para dar uma noção ao leitor do que

viria a ser o caráter social da consciência; depois, de como instâncias culturais e históricas formam as funções psicológicas superiores e, principalmente, de como uma análise essencialmente histórica daria conta do estudo dessas funções. Por último, tentamos mostrar de que forma a análise semiótica, o significado das palavras e outros signos poderiam explicar os fenômenos psíquicos. Mapeamos duas unidades básicas de acordo com a perspectiva de Vigotski ou com o ponto-de-vista da escola psicológica soviética – o significado e a atividade; e refletimos sobre a dificuldade (e talvez mesmo a inutilidade) em definir uma unidade de análise específica, tendo em conta a complexidade do objeto a que nos dedicamos, em psicologia, a estudar.

Outra reflexão importante deste capítulo foi o resgate da metáfora do espelho, utilizada por Vigotski em “O Significado Histórico da Crise na Psicologia” (1999ah) para ilustrar a condição epistemológica da categoria consciência. Ele declara, no artigo, que os dualismos em que incorrem algumas teorias psicológicas se devem a uma confusão entre epistemologia e ontologia. Essa confusão ocorre quando tomamos por subjetivo um evento psíquico, quando este último, em verdade, tem natureza objetiva. Assim, comparando a consciência a um reflexo no espelho, ele afirma que devemos estudá-la não como algo totalmente real nem como uma imagem ou ilusão simplesmente, e sim como um evento que é real de outra forma. A consciência deve ser estudada como um fenômeno resultante da realidade e da internalização desta; a breve explicação de sua teoria histórico-cultural também teve o intuito de nos ajudar a visualizar de que modo a realidade é refletida na consciência.

A noção da consciência refletindo a vida, a realidade, não era uma metáfora original de Vigtoski; vimos, por exemplo, que Lenin fez bastante uso dela em pelo menos um de seus escritos filosóficos (1982). Ainda que não falemos exatamente em reflexo, a relação

unidirecional realidade consciência é característica de Marx e Engels, e é considerada, para alguns historiadores (Graham, 1987, 1994), uma das premissas do materialismo dialético, inclusive na Rússia. Tampouco Vigotski foi o único psicólogo soviético a se dedicar à consciência de um ponto-de-vista inspirado no marxismo; seu contemporâneo Sergei Rubinstein (1889-1960) foi um dos teóricos mais conhecidos a se dedicar ao problema da natureza da consciência e sua relação com o mundo material (Rubinstein, 1968), e se utilizava da metáfora do espelho, de certa forma, quando afirmava que o fenômeno psíquico era reflexo do mundo enquanto realidade objetiva (1968, p. 11). O programa rubinsteiniano, dedicado ao estudo da consciência e com fortes preocupações filosóficas, embora próximo cientificamente, não se afinava política e ideologicamente com o vigotskiano; para Joravsky (1989), a ascensão rápida e pouco explicada de Rubinstein a cargos importantes na psicologia soviética teria causado desafetos nos discípulos de Vigotski – e fez o próprio Rubinstein criticar ou ignorar severamente trabalhos elaborados na perspectiva vigotskiana (1989, p. 459). De qualquer forma, o argumento aqui é que o tema da consciência, em especial de um ponto-de-vista inspirado pelo marxismo, era recorrente na psicologia russa desde o início dos anos vinte – ou desde o eclodir da Revolução Russa, também é uma possibilidade de leitura. Luria e Leontiev, a partir dos anos trinta, também desenvolveram seus programas de forma mais independente, mas ainda inspirados pelas reflexões geradas na época da suposta troika; é também a partir desse desenvolvimento que, no curso de suas próprias investigações, os parceiros de Vigotski, especialmente Leontiev, alçaram a atividade à categoria de análise psicológica e fundaram uma escola de orientação sensivelmente distinta da histórico-cultural – embora com as mesmas raízes.

Assim, temos, bem resumidamente, os seguintes temas de pesquisa recorrentes: a preocupação com uma psicologia informada pelo marxismo e por alguns problemas sociais

enfrentados pela União Soviética e o contínuo exame científico e filosófico da consciência e de suas relações com o mundo. Esses itens constituíram uma pauta básica de investigação tanto para Vigotski, no caso, o objeto dessa dissertação, quanto para seus parceiros Leontiev e Luria, e ainda toda uma geração de psicólogos e outros cientistas soviéticos que viveram e produziram durante a primeira metade do século XX.

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