Os alagamentos no cânion do Rio Peruaçu são bem marcados pelos registros de troncos e marcas de nível d’água em posição elevada no interior das grutas (Piló et al. 1989, Oliveira, 2008, Coelho, 2013) (Figura 7.1). Além desses registros, uma outra evidência dos alagamentos que aqui mostramos são as camadas detríticas ou “camada de lama” em estalagmites presentes na gruta da Onça, localizada no cânion do Rio Peruaçu. Todos estes registros indicam que o
140 nível do rio Peruaçu atingiu dezenas de metros acima do nível atual em resposta a grandes eventos de chuvas. Durante os eventos o fluxo do rio é barrado por grandes cones de material clástico que atingem dezenas de metros de altura. Segundo Coelho et al. (2017) estes cones dividem o cânion a montante nos segmentos Carlúcio – Lapa da Onçacom capacidade de reter o escoamento superficial até a cota 676 m (+ 46 m em relação ao nível atual do rio); e a jusante nos trechos Lapa da Onça – Arco do André com capacidade de retenção até a cota 653 m (+ 53 m). Coelho (2013) descreveu 5 eventos de enchentes no cânion do rio Peruaçu entre os anos de 1300 – 1900 CE, a partir de registros de troncos e marcar d’água ao longo de um perfil topográfico longitudinal do cânion (Figura 7.1).
Nosso estudo com troncos ampliou o registro do número de eventos descritos por Coelho et al. (2017) de 5 para 9 no mesmo período, a partir de conjunto maior de troncos pelo método 14C (Figura 7.1). Apesar de marcar bem a magnitude dos eventos de inundações, a
incerteza cronológica dos depósitos de troncos é relativamente grande. Devido ao não conhecimento do intervalo de tempo entre a morte do lenho e a deposição do tronco. Com isso, a idade do tronco marca uma idade máxima para o evento de inundação, mas é um excelente marcardor da magnitude dos eventos.
Figura 7.1: Perfil esquemático da área de estudo com a posição dos registros de alagamento e os níveis de
alagamento nos segmentos Carlúcio–Lapa da Onça e Lapa da Onça–Arco do André. A linha tracejada em vermelho corresponde ao nível de alagamento responsável pela impressão das marcas de nível d’água M-01, M-2 e M-3. A estrela vermelha indica onde está localizada a Gruta da Onça. Os círculos em vermelho indicam o posicionamento de troncos encontrados neste estudo (Figura modificada do trabalho de Coelho et al. 2013).
141 Dados texturais e mineralógicos nas camadas de carbonato impregnadas com sedimentos clásticos da estalagmite da caverna ONÇA, indicam relação com eventos fluviais. Da mesma forma que na caverna Onça, González-Lemos et al. (2015) registraram em uma caverna no norte da Espanha que apenas as grandes inundações foram capazes de transportar grãos volumosos como o quartzo para superfície das estalagmites. Um outro exemplo reportado, em estudos na caverna Spring Valley, Minnesota-EUA, identificou eventos de inundação em camadas anuais com material detrítico composta por quartzo e argila (Dasgupta et al., 2010). Os autores acima atribuiram as inundações na caverna Spring Valley aos eventos extremos de precipitação na região.
No século passado, a partir da década de 40, foram registrados 9 eventos extremos de aumento de vazão dos rios São Francisco e Pandeiros na região de Januária, sendo 7 destes eventos associados a extremos de chuva em Januária. As camadas de lama com cavidades na estalagmites Onça indicaram 7 eventos extremos de precipitação e 6 possíveis eventos de aumento do nível do Rio Peruaçu. Os dados de monitoramento do nível do Rio Peruaçu dentro da Gruta da Onça são coerentes com o aumento da precipitação. A análise da variação da espessura entre os níveis claros e escuros das laminações permitiu também discutir sobre a variabilidade climática sazonal. (Railsback et al., 1999, 2013) atribuem este tipo de feição textural a períodos úmidos durante os quais a água de gotejamento ficou tão insaturada a ponto de dissolver a camadas pré-existentes na estalagmite.
Os eventos extremos de precipitação registrados nas estalagmites da caverna Onça estão de acordo com os eventos abruptos de chuva registrado pelos menores valores de ⸹18O da estalagmite ANJOS1 (Stríkis, 2015). Portanto, as laminações detríticas da estalagmite Onça estão associadas a eventos extremos de precipitação, sendo as camadas de lama mais espessas contendo grãos de quartzo atribuídas as inundações no cânion do rio Peruaçu.
Uma forma de quantificar as camadas de lama foi através de valores da escala de cinza e da concentração de metais traços. Os elementos traços metálicos como Al, Fe, Si, Mn e Zn se mostraram se mostraram bem associados as inundações na caverna estudada, porque eles estão presentem em maior concentração nos argilos minerais e óxidos transportados pela água durante os eventos de inundação. Este método se mostrou bastante eficiente na identificação de enchentes, assim como constatado em outras estudosque são (Dasgupta et al., 2010; Denniston & Luetscher, 2017; Gázquez et al., 2014; González-Lemos et al., 2015). Entretanto, a principal fonte dos elementos traços na solução da água do gotejamento são as rochas do sistema cárstico, sendo os aerossois atmosféricos uma fonte secundária, enquanto o solo atua na retenção e transferência dos metais da solução do solo para a água do gotejamento na caverna (Tadros et
142 al., 2019). No presente estudo, foi feita a utilização do manganês por ser o único elemento metálico a analisado em ambas as estalagmites da ONÇA2 e 4. Além disso, os valores acima de 95% percentil do elemento traço manganês estão positivamente correlacionados com as camadas de carbonato rico em lama. Portanto, a maior concentração Mn (valores acima de 95% percentil) em laminações detríticas mais espessa são fortes indicadores dos eventos de inundações no cânion do rio Peruaçu. Assim, os registros de laminações detríticas/cavidades, escala de cinza e elemento traço manganês nas estalagmites da ONÇA, além dos troncos nas cavernas mostram fortes evidências dos eventos extremos de precipitação que podem levar a inundação no cânion do rio Peruaçu.
7.3. Variações climáticas no centro-leste do Brasil durante os anos de 1255-2016 (CE)