Quando questionados especificamente em relação a como se sentem quando lidam com a morte dos pacientes que estavam acompanhando, nossos poetas trazem satisfação em poder acompanhar o processo de morrer, com encantamento; mas também trazem a dor e a tristeza que sentem focando no cuidado exercido e no alívio dado, ainda que racionalizem e minimizem esse sentir.
No momento em que nos percebemos como seres finitos, passamos a compreender melhor a finitude do outro, deixando de encarar a morte como um fracasso da ciência e passamos a percebê-la como algo natural e destinado a todos (Braz & Fernandes, 2001). Neste contexto recordamos que Kübler-Ross (2002) ensina a encarar a morte não como uma ruptura ou uma inimiga a ser combatida, mas como parte integrante da vida, que realça a existência humana, delimitando o tempo de vida e impulsionando a realização de algo produtivo nesse espaço que nos é dado. Nessa abertura de espaço ao cuidar do fim, nossos depoentes revelam sentimentos de gratidão, satisfação em acompanha-los.
“Olha pode parecer meio mórbido, mas eu fico super satisfeita fico feliz de poder participar do processo. Eu tive um paciente consciente e que falava desse desejo de morrer. E teve um dia assim, que ele é militar. E aí eu comecei a
Aí ele não quero não, por mim eu sou enterrado só de cueca, sem roupa, isso é um desperdício de dinheiro, pra que gastar isso. Aí a mãe dele vem conversar
comigo do que ela tava planejando para o enterro dele e eu falei: “ olhe converse com ele porque isso que a senhora tá me colocando diverge do que ele me diz que tá querendo.” Ai a gente começou a conversar novamente, ai eu
puxei o assunto das honras militares, ai ele disse: Eu quero tudo que eu tenho direito, eu quero a banda lá, e ele foi musico das forças navais, Aquele cortejo gigante atravessando toda a cidade, entendeu? isso, poder participar desse processo com o paciente e com as famílias. Isso me traz uma satisfação enorme, entendeu? Isso... poder participar desse processo com o paciente e com as famílias.” (Fragmento de entrevista de Adélia Prado – Psicóloga)
O cenário que os profissionais experimentam sentimentos de realização, dever cumprido e satisfação ao visualizar os resultados do seu trabalho, podem surgir também por meio do reconhecimento manifestado pelo doente com câncer e seus familiares, tendo a sensação de realização profissional no cuidado ofertado, como demonstra Adélia Prado, ao conseguir tematizar sobre a partida e ajudar seu paciente e a família em decisões sobre o pós morte, a realização de desejos. Percebe-se à abertura para o cuidado, para olhar o outro e acompanhar seu fim, quando conseguem acompanhar os pacientes e familiares da melhor forma possível. Percebe-se então, que uma aproximação ao significado que a fase terminal da vida tem para os profissionais que dela se ocupam, é uma ferramenta importante para permitir à equipe de saúde melhor aproximação destes pacientes (Quintana, Kegler, Santos, Lima, 2006).
“Na minha situação, Jéssica, eu tenho um profundo bem querer, uma profunda satisfação, não chega a ser prazer, a palavra não é prazer, mas é uma enorme
satisfação de poder acompanha-los da melhor forma possível e de levar a dignidade, trazer o abrandamento do sofrimento. Ajudar a família a
acompanhar o processo da melhor forma possível, às vezes é difícil até essa melhor forma possível.” (Fragmento de entrevista de Carlos Drummond – Médico)
A narrativa de Carlos Drummond nos relembrando ao significado potente do cuidar do fim que revelam como motivação do fazer desses profissionais, trazendo satisfação em acompanhar e levar dignidade aos processos de morte e morrer. Gutierrez e Ciampone (2006) ampliam esta reflexão, quando desvelam que esta relação entre prazer e sofrimento no trabalho dos profissionais, dedicação ao lidar com a dor e o sofrimento do paciente e de seus familiares, manifesta-se como forma de significação do seu fazer, trazendo o prazer na realização das atividades inerentes ao cuidar.
“Aí, primeiro eu acho que é um privilégio. Assim, poder acompanhar um processo de evolução, né? De fechamento de um ciclo. Porque eu pude e tive o privilégio de acompanhar, de ser... de acompanhar, de estar junto nesse processo de enfrentamento, né? De adoecimento, de prognóstico, e vivenciar esse processo de despedida com eles, com a família, né? Ajudando, sendo
facilitador da reorganização das despedidas, de um processo de vida enquanto ele está aqui”. (Fragmento de entrevista de Cora Coralina – Psicóloga)
“Eu me senti... é estranho se eu falar que eu fiquei feliz? Né? Eu fiquei
junto a eles. De verdade.” (Fragmento de entrevista de Alice Ruiz – Assistente
Social)
“Eu... o meu sentimento é muito bom, é excelente assim. Eu, eu... eu tenho quase... não é prazer, é uma satisfação, uma segurança, é ter a oportunidade
de fazer a diferença na vida dele, né? Nesse curtinho, às vezes nem tão curto
assim, porque às vezes são meses.” (Fragmento de entrevista de Lya Luft – Médica)
A sensação do privilégio em acompanhar os processos de morte, da satisfação e da segurança em proporcionar cuidado, parece motivar nossos profissionais a prosseguir na arte de cuidar. Almeida, Sales e Marcon (2013) disserta que os profissionais de enfermagem sentem gratificação, alegria e satisfação ao realizar cuidados paliativos e temperam o seu dia a dia profissional com amor e paixão, ultrapassando a barreira paciente-enfermeiro, perpetuando o contato entre seres humanos. No cenário do nosso estudo, encontramos esse sentimento em todos os entrevistados, não apenas no profissional da enfermagem.
O ser humano vive em uma situação contínua de escolhas, de correr riscos e assumir as implicações decorrentes de suas decisões (Martin, 2006). E essas escolhas podem indicar a liberdade do ser profissional de saúde em estar com o outro de forma autêntica. À vista disso, nota-se que nossos depoentes não se sentem obrigados em ter que realizar este cuidado, mas sim escolhem cuidar de maneira sensível, desenvolvendo profundo bem querer pela realidade em acompanhar pacientes na iminência do fim da vida.
Os depoentes manifestaram sentimentos de alegria, satisfação, empatia, amor e, principalmente, preocupação para com o outro. Esses sentimentos configuram um cuidar autêntico e são ingredientes fundamentais à pratica da filosofia dos cuidados paliativos, pois
na paliação oncológica, além de saber reconhecer as necessidades biopsicossociais e espirituais do doente e sua família, os profissionais de enfermagem devem ter respeito, amor, empatia, saber lidar com as questões da finitude e colaborar para a transcendência do doente, da família e de si próprios (Sales & Silva, 2011).
Não podemos deixar de destacar que para alcançarem a potência do cuidar, por vezes precisam conseguir confortar a si próprio, sendo imprescindível o cuidado com o processo de formação acadêmica e de educação para a morte, bem como o cuidado com as dores desses cuidadores, além do próprio auto cuidado. Isso se for possível reconhecer o pesar, e eles revelaram um pouco desse entristecer.