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4. Effective interventions and recommended approaches

4.3 Tertiary measures

4.3.1 Ensuring clean water and food supplies

Outro traço discursivo recorrente nas entrevistas é o destaque à função social do trabalho da PF: a concepção de que a execução de investigações representa um bem para a sociedade, para o cidadão. Ou seja, os policiais projetam sobre si mesmos a identificação de benfeitores da coletividade. Tem-se aí aquilo que abordamos no primeiro capítulo, acerca das identidades organizacionais: o vinculo identitário entre o membro da organização e a própria organização, está atrelado ao culto da excelência, bem como da instituição restauradora da ética.

Maria Ester Freitas (2006) explica que a excelência se desloca do ser para o fazer, exigindo da organização que os resultados sejam atingidos. Esse culto da excelência tem

desdobramentos sobre a identidade dos membros da organização, tornando-se elemento importante na vida do indivíduo. “A carreira e o status profissional tornam-se os elementos organizadores da vida do indivíduo, aquilo que lhe dá sentido, auto-imagem e reconhecimento, único referente capaz de proporcionar-lhe sucesso e realização pessoal” (FREITAS, 2006, p. 63). Na Polícia Federal isto se torna mais evidente, conforme comprovam as falas a seguir:

Hoje eu acho que a Polícia Federal está meio como que um ícone dentro da sociedade, como uma instituição que ainda passa uma certa garantia de seriedade, coisa que está muito difícil hoje em dia. (...) E é legal, porque você vê que sai daquele paradigma de instituição de controle social e opressão popular, como começou, para alguma coisa que está trabalhando pró-sociedade. Uma sensação que é boa para gente que faz parte da instituição, é boa para a instituição e é boa para a sociedade. (AGENTE 2, 2008)

O objetivo da Polícia Federal é muito claro, eu acho que é pegar aquele núcleo inteligível da nossa falsa democracia e tentar que eles também respeitem as leis. (...) Então, o objetivo da Polícia Federal, ao meu ver, é conseguir que moralize um pouco a sociedade, em termos de verba pública. Ao contrário do que as pessoas acham que não é de ninguém, é de todo mundo, é nossa verba. A gente paga impostos altíssimos. É um dos países que tem a maior tributação do mundo e o pessoal acha bonito. O cara rouba e acha que não é com ele. ‘Ah não, o cara foi preso!’ Não, não é assim. O cara foi preso roubando dinheiro meu, dinheiro seu, tirando merenda de criança. São situações absurdas que hoje em dia a gente está começando a combater esse tipo de ação e eu acho que em um futuro bem próximo isso vai ter uma repercussão muito boa. Principalmente, pela prudência que alguns vão tomar ou vão deixar de tomar certas atitudes com medo da represália, porque o que está acontecendo é que estamos chegando cada vez mais perto. O Brasil é um país de muita riqueza, o que está dependendo é só de moralização. (THALES, 2008)

O fala do papiloscopista Thales reforça bastante o discurso da missão da instituição, marcada por forte carga de heroísmo, de função moralizante. Freitas (2006) diz que este tipo de discurso é comum nas organizações modernas. “A pretensão dessas organizações é transformar-se na instituição social por excelência, no ator central da sociedade, fornecendo o modelo de referências predominantes para o conjunto dos comportamentos coletivos” (FREITAS, 2006, p.59).

Interessante observar que, se por um lado, a PF é vista como a instituição capaz de moralizar a sociedade, por outro lado, ela mesma é considerada por seus integrantes, um órgão marcado pela honestidade e pela integridade. Em praticamente todas as entrevistas, os

policiais, bem como o aposentado Jorge Pires, ressaltam que a PF é um órgão que combate à corrupção interna, não se deixando contaminar por qualquer tipo de desvio de conduta.

E o que é o principal diferenciador da Polícia Federal: ela não mede esforços para cortar na própria carne. Então nós temos uma Corregedoria forte, um Assuntos Internos muito forte, que trabalha para limpar primeiro a sua própria instituição. E a instituição estando limpa, bem aparelhada, com bons profissionais, ela pode trabalhar melhor para a sociedade. É nesse sentido que ela investiu e tem dados os resultados que nós estamos acompanhando aí. (NOGUEIRA, 2008)

A honestidade. Pelo menos ainda não tive a oportunidade de me decepcionar com isso, não. Espero que nunca me decepcione. (KELMER, 2008)

Eu acho que a honestidade. É o pilar da Polícia Federal. É a integridade dos policiais. Acho isso muito bom. (THALES, 2008)

Eu acho que eu fui o que se faz hoje na PF. O que contribuiu muito pra isso, em primeiro plano, foi que nós fizemos, num período de aproximadamente dez anos, uma limpeza interna. Nós trabalhamos em cima dos corruptos que eram policiais federais, não importava a função dele, se era delegado, se era agente, se era escrivão. A intenção era: vamos limpar a polícia, tirar a carne podre e colocar uma carne nova no lugar. Conseguimos isso. (PIRES, 2008)

Um outro discurso bastante presente nas entrevistas é o da autonomia. A maioria dos entrevistados entende que a Polícia Federal tem o diferencial de ser mais independente e autônoma que outras instituições - por isso, conseguiria atingir pessoas consideradas intocáveis. O escrivão Marcos Guedes, quando perguntado sobre quais valores ou características considera mais marcantes na PF, respondeu: “Acho que é a independência, né? Essa autonomia da investigação, entendeu? Não vou dizer que ela é absoluta, mas realmente nos últimos anos tem sido a regra” (GUEDES, 2008).

O delegado e chefe do departamento de Polícia Federal de Juiz de Fora também enfatiza o tema “autonomia” em sua resposta, que enfatiza não só a questão da independência, como também do discurso do trabalho pró-sociedade:

O lema é servir a sociedade, longe de estar atrelado a qualquer partido político, a qualquer situação. Apesar da Polícia Federal ser um ente, uma instituição ligada ao Executivo, mas ela tem uma liberdade ampla de atuação, certo. E é assim que eu espero que continue e aumente ainda mais essa liberdade. Que ela possa ter autonomia para que atue, porque uma polícia autônoma, independente, ela pode trabalhar com mais liberdade. Claro que sempre respeitando a Justiça e as leis. Isso é mais importante e deve ser sempre ser preservado. (NOGUEIRA, 2008)

Um dos papiloscopistas, que pediu para não ser identificado, também vê a

autonomia como um diferencial da PF, o que a possibilita trabalhar no combate à corrupção. Então, como a Polícia Federal tem uma estrutura, uma capacidade de atuar em outras áreas, ela tem uma maior independência para poder fazer isso. E a sociedade cobra muito mais, em relação a essa atuação. Por isso que a Polícia Federal nesse aspecto, de combate à corrupção, ela tem essa importância. Como se vê, ao prender Daniel Dantas, que era ligado ao outro governo, ou mesmo prender pessoas ligadas ao governo atual, o Marcos Valério. Você consegue perceber que bem ou mal ela tem uma independência para fazer esse tipo de trabalho. Talvez, uma outra polícia, ela não conseguiria fazer com tanta independência, tá? (PAPILOSCOPISTA 1)

Neste sentido, percebemos uma similaridade entre o que os jornais veiculam e o discurso policial. O combate à corrupção, que tem como alvo pessoas de destaque social, seja pela condição econômica ou cargo político que exercem. E, além disso, uma autonomia para investigação, o que faz da PF, na visão dos entrevistados, um órgão investigativo diferenciado.