1.1 Particularités dues à la mise en œuvre par projection
1.1.3 Enrobage des armatures
Uma última questão que se coloca para complexificar esse cenário e que se relaciona ao direcionamento de anúncios online e também às fake news é a crescente inserção das emoções como critério para disseminação e classificação da informação nas redes sociais.
Na internet, a instância da estética, onde as imagens são parte integrante de boa parte do discurso - se não seu elemento principal, como é o caso dos vídeos -, surge um espaço público “marcadamente estético”, onde os apelos emocionais do usuário estão submetidos às leis do entretenimento (Bucci, 2009, citado por Borges Júnior, 2019). Nesse cenário, a imagem como forma predominante de representação do mundo levaria a um crescente apelo ao ver, que tem como consequência "a possível perda de influência da razão, ou, no mínimo, uma certa tendência de privilégio do estético enquanto aquilo que não se enquadra especificamente no domínio racional" (Borges Júnior, 2019, p. 537)
A ecologia contemporânea das mídias digitais, segundo Bakir e McStay (2018), ao citar Richards, 2007, é crescentemente "emocionalizada" por várias razões. Uma delas é o anonimato e a possibilidade de se expressar livremente por trás de um avatar. "É um espaço fértil para a ascensão do conteúdo de mídia direcionados e contextos de notícias (como bolhas de filtro na forma de feeds de notícias do Facebook) que provocam reações afetivas." (Bakir e McStay, 2018, p. 159) Além disso, é também onde é crescente o número de pessoas lucrando com a publicidade baseada em dados de comportamento. Para eles, fake news funcionam como clickbait, aquele conteúdo da web criado para gerar atenção e atrair
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cliques sem preocupação ética ou com a verdade, muitas vezes usando técnicas de sensacionalismo e imagens fortes, gerando lucro para seus criadores.
Baseadas em polémicas, fatos curiosos ou absurdos, fake news têm 70% mais chances de viralizar que as notícias verdadeiras e alcançam muito mais gente (Vosoughi, Roy e Aral, 2018). Mais engajamento nas redes sociais significa mais tempo gasto nas plataformas, o que reverte em lucro para seus donos.
Bruno, Bentes e Faltay (2019), ao citar Bruno (2018), conceituam o investimento tecnocientífico, econômico e social em processos algorítmicos de captura, análise e utilização de informações psíquicas e emocionais extraídas de nossos dados e ações em plataformas digitais (redes sociais, aplicativos, serviços de streaming, plataformas de compartilhamento e/ou consumo de conteúdo audiovisual etc.) como economia psíquica dos algoritmos.
As informações que interessam ao veloz capitalismo de dados não são mais apenas os rastros de nossas ações e interações (cliques, curtidas, compartilhamentos, visualizações, postagens), mas também sua “tonalidade” psíquica e emocional. É esta economia psíquica e afetiva que alimenta as atuais estratégias de previsão e indução de comportamentos nas plataformas digitais (e eventualmente fora delas). (Bruno, Bentes e Faltay, 2019, p. 5)
O uso da análise das emoções para tornar mais sofisticada a máquina de direcionamento de publicidade, por exemplo, do Facebook, foi revelada em alguns escândalos recentes. Em 2014, um estudo foi realizado com 700 mil usuários quando eles tiveram seus feeds de notícias da rede social manipulados pelo estado emocional. Sem saber do experimento, que queria testar contágio emocional em escala massiva, usuários foram divididos em dois grupos - um visualizava conteúdo positivo e o outro, conteúdo negativo. Segundo os autores do estudo, o contágio emocional foi confirmado quando os usuários reproduziram, em suas atualizações de status, o estado emocional preponderante em seus feed. (Bruno, Bentes e Faltay, 2019) Outro exemplo, de 2018, é o escândalo da
Cambridge Analytica, já mencionado.
Através de testes de personalidade aparentemente inocentes e da expressão de opiniões, emoções e sentimentos, plataformas de redes sociais impõem uma nova lógica
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que entrelaça corporações de tecnologia digital, ciência e sociedade, onde dados pessoais digitais e também informações psíquicas e emocionais alcançam três dimensões: econômica, científica e a do controle comportamental. Nas engrenagens desse capitalismo de dados, segundo Bruno, Bentes e Faltay (2019, p. 5), está:
...um poderoso laboratório que, sob as interações online, captura, analisa e direciona imensos volumes de dados para aplicação de estratégias de modificação do comportamento humano. [...] No seio desta lógica, os dados pessoais digitais e suas informações psíquicas e emocionais são simultaneamente: a principal “moeda” do modelo de negócios que prevalece nas plataformas digitais; a fonte privilegiada de conhecimento de uma nova ciência de dados; um meio de controle do comportamento, orientado para diferentes fins, do consumo ao voto.
A partir do estudo de 2014 anteriormente mencionado, segundo Bruno, Bentes e Faltay (2019) descobriu-se como uma espécie de “efeito colateral” do experimento: a exposição dos usuários a conteúdos emocionais, tanto positivos quanto negativos, os tornou mais ativos e engajados na plataforma. Como o objetivo das plataformas de rede social é capturar e mobilizar a atenção dos usuários para que eles passem o máximo de tempo possível conectados, "as estratégias deste mercado se voltam para desenvolver mecanismos persuasivos de captura da atenção, nos quais o agenciamento algorítmico exerce um papel central" (Bentes, 2019, p. 222).
A lógica é, portanto, mais emoções, mais atenção, mais tráfego para os sites para os quais os posts apontam. Além disso, mais tempo gasto nas redes sociais, mais dados coletados. Nos dois casos, mais lucro - tanto para os anunciantes das plataformas como para as próprias plataformas.
Para atrair mais atenção, as plataformas de redes sociais têm, então, caminhado em direção à criação de cada vez mais ferramentas de coleta de dados emocionais, como
emoticons, emojis, GIFs animados, figurinhas, a categoria “sentimento/Atividade” em um post, a evolução do botão "Like" para reações no Facebook, ou seja, um "design e uma
arquitetura voltados para alimentar algoritmos de plataformas e aplicativos com dados psíquicos e emocionais, de modo a torná-los disponíveis para o cálculo computacional". (Bruno, Bentes e Faltay, 2019, p. 8)
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Nesta lógica, insere-se o fenômeno das fake news. Se os algoritmos das redes sociais priorizam interações e engajamento, as fake news são, na verdade, um produto lucrativo deste modelo de negócio que sustenta as redes sociais, uma vez que recebem mais reações e despertam emoções. Se os boatos se dispersam rápido porque têm valor; são informações não-oficiais que propõem uma realidade que o grupo desconheceria; são um alerta, uma informação urgente que deve ser comunicada; são atuais, um "furo" de informação; têm um caráter coletivo; e, por fim, despertam emoções, torna-se possível dizer que as fake news são o produto máximo do modelo de negócios da rede social e o resultado da engrenagem do capitalismo de vigilância. São também produto da super personalização da informação e de critérios que não se baseiam na veracidade das informações para seleção e distribuição de informação.
Fake news já representam um aumento na carga emocional e frequentemente são deliberadamente afetivas, o que é mais evidente em temas relacionados a eleitores, segundo Bakir e McStay (2018), que citam El-Sharawy (2017): “O Facebook favorece conteúdo emocional que atinge as pessoas, seja verdade ou não”. Há ainda outros aspectos preocupantes dessa situação, como as fake news automatizadas baseadas em análise de dados dos sentimentos dos usuários, por exemplo.
Dado o rápido início, escala e natureza do problema contemporâneo de notícias falsas, é importante considerar possibilidades no futuro próximo. No contexto de notícias falsas, isso inclui a capacidade de manipular sentimentos públicos por meio de fake news automatizadas. Essa possibilidade distinta surge porque o sucesso das notícias falsas vem de seus criadores terem interesse financeiro em "sentir-se por dentro" (“feeling-into”) em conversas on-line e criarem manchetes para se relacionar com grupos específicos (como apoiadores pró-Trump). Existe uma oportunidade clara e relativamente simples de se casar com a tecnologia que detecta emoções on-line através do idioma e palavras que indivíduos e grupos publicam, com notícias automatizadas, manchetes de notícias e corpo do texto escritos por computadores. (Bakir e McStay, 2018, p. 168)
Um exemplo citado pelos autores é o de um grupo de adolescentes da Macedônia, que alegadamente criaram notícias falsas pró-Trump, durante a campanha eleitoral
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presidencial de 2016 nos Estados Unidos. Segundo Bakir e McStay (2018), eles exploraram as crenças, desejos e preocupações de públicos específicos dos EUA para atingir muitos cliques e lucrar. E tiveram sucesso pois "as comunidades de mídia social on-line (como no Facebook) já incentivam a formação de câmaras de eco, seja via filtro-bolha, viés de confirmação ou ambos" (Bakir e McStay, 2018, p. 169). Por isso, a maior preocupação com as fake news é a análise de emoções nas palavras e em imagens, que já é amplamente utilizada para ideias sobre o sentimento social em relação a um assunto que pode ser valioso para uma empresa.
Hoje já é possível observar a manipulação de sentimentos e a criação de esfera pública artificial no debate político que eventualmente chega aos trending topics do Twitter, quando, por exemplo, hashtags de apoio ou de crítica sobem para os primeiros lugares após alguma declaração de um determinado político, muitas vezes impulsionados por robôs, algo também observado por Bakir e McStay (2018, p. 170):
Além de gerar automaticamente notícias falsas com uma forte voz editorial, otimizada por tom e georreferenciada para públicos específicos, os bots de software podem ser usados para espalhar amplamente essas notícias falsas automatizadas, dando a impressão de que a notícia falsa é popular e endossada por muitos (uma pesquisa de 2016 de 26 países constata que a maioria das pessoas compartilha predominantemente notícias das quais aprova; Instituto Reuters 2016).
Por fim, se fake news circulam sem correção, em comunidades fechadas, se as pessoas passam a desacreditar fatos verdadeiros divulgados pelos meios de comunicação social, e se fake news são afetivas e inflamatórias, estamos indo na direção oposta da esfera pública de Habermas, que pressupunha consenso através de um debate racional, após ouvir pontos de vista diferentes. Se o debate público é baseado em emoções, em separação entre ganhadores e perdedores o resultado lógico é a polarização da sociedade, queda na legitimidade de governos e decisões democráticas equivocadas baseadas em desinformação (Bakir e McStay, 2018).
Fica claro, nesse momento, que esse modelo de comunicação se torna prejudicial para que os cidadãos tomem decisões racionais baseadas em fatos. Junto disso, a disseminação de informações falsas e a tendência de encerrar os usuários em uma só visão
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de mundo, a partir do que ele consumiu no passado, são ameaças reais para a democracia e para um cenário comunicacional contemporâneo.
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