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5.4 Enquêtes sur les allégations relatives à une infraction criminelle
Necessariamente, as abordagens teóricas, principalmente no interior da sociologia, passam a dialogar com as novas expressões das ações coletivas anteriormente descritas e, de novo, registra-se a heterogeneidade das análises. Para os objetivos da presente tese, destacamos aqui alguns autores ligados às ações coletivas e solidárias contemporâneas, principalmente aqueles afinados com o paradigma do vínculo e da emancipação social, que apresentam diversas abordagens analíticas, com aproximações e distanciamentos entre si.
Manuel Castells, após extensa obra produzida nos anos 70 e 80, valorizando as novas expressões das lutas sociais, principalmente as contradições urbanas, como novas dimensões das lutas de classes, chega ao final do século enfocando novas
abordagens. Conforme jà dissemos, ele caracteriza a atual sociedade capitalista, como global e informacional. Tal análise tem conseqüências para a percepção da ação social, ou para as ações coletivas e movimentos sociais:
A tecnologia e as relações técnicas de produção difundem-se por todo o conjunto de relações e estruturas sociais, penetrando no poder e na experiência e modificando-os. Dessa forma, os modos de desenvolvimento modulam toda a esfera de comportamento social, inclusive a comunicação simbólica (CASTELLS, 1999, p. 35). Nesse contexto, o autor confere uma importância muito limitada à ação dos movimentos sociais e da política, não reconhecendo neles qualquer contribuição significativa frente aos outros processos de transformação:
Os sistemas políticos estão mergulhados em uma crise estrutural de legitimidade, periodicamente arrasados por escândalos, com dependência total de cobertura da mídia e liderança personalizada, e cada vez mais isolados dos cidadãos. Os movimentos sociais tendem a ser fragmentados, locais, com objetivo único e efêmeros, encolhidos em seus mundo interiores ou brilhando por apenas um instante em um símbolo de mídia. Nesse mundo de mudanças confusas e incontroladas, as pessoas tendem a reagrupar-se em torno de identidades primárias: religiosas, étnicas, territoriais. [...] No entanto, a identidade está se tornando a principal e, as vezes, a única fonte de significado em um período histórico caracterizado pela ampla desestruturação das organizações, deslegitimação das instituições, enfraquecimento de importantes movimentos sociais e expressões culturais efêmeras (Idem, p. 22 –23).
Ou seja, para este autor, frente à força do desenvolvimento tecnológico e das transformações estruturais que provoca, sobra pouco espaço para a expressão dos atores sociais na construção do social. Embora não se possam reduzir suas formulações a esquemas deterministas, ao não relacionar identidade e estratégia sua percepção limita a abordagem analítica do ator social.
Certamente coube a Alan Touraine, através de inúmeras e consagradas pesquisas sobre movimentos sociais desde os anos 60, as mais consistentes elaborações em torno de uma “sociologia do ator” e da “sociologia da ação”.
Destacou-se como estudioso da sociedade industrial, principalmente da classe operária, desde sua abordagem dos conflitos sociais e de suas formas de gestão ou resolução, até os novos modos de encarar a ação coletiva, sobretudo a partir dos estudos sobre movimentos sociais. Contra todo tipo de determinismos ou qualquer referência a fiadores meta-sociais, Touraine reflete em torno de sistemas de ação ou sistemas de atores definidos por intencionalidades, orientações culturais e relações sociais, o conhecido acionalismo. Para tal análise sociológica
[...] não se pode mais apelar a um princípio superior como a cidade, a razão, a história, deve apelar a resistência do sujeito pessoal do seu desejo de ser ator, o ator de sua própria existência, contra uma lógica cívica ou histórica que lhe aparece cada vez mais como destruidora de sua liberdade e mais ainda de sua identidade (TOURAINE, 1998, p. 39).
Contudo, é preciso explicitar que para Touraine os atores são classes únicas, caracterizadas pela historicidade.
Numa perspectiva semelhante, mas vinculada a uma concepção mais pluralista, Maria Glória Gohn (1997, 2003, 2005) relaciona a problemática dos atores a atual elaboração em torno da sociedade civil, transformando os atores em novos sujeitos de poder. Esta autora apresenta uma abordagem singular ao relacionar identidade17 e estratégias nos movimentos sociais, evitando dicotomias, preferindo articular o debate sobre o papel dos atores sociais ao de protagonismo social, relacionando-o, portanto, com as teorias dos novos movimentos sociais:
Para se entender o protagonismo de algo deve-se ter como referência quem são os atores envolvidos, como se transformam em sujeitos políticos, que forças sociopolíticas expressam, qual o projeto de sociedade que estão construindo ou abraçam, qual a cultura política que fundamenta seus discursos e práticas, que redes criam e se
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Estamos associando as posições de Maria da Glória Gohn à concepção de identidade trabalhada por José Manuel Oliveira Mendes (2002), em “O desafio das identidades”. Este autor recupera os trabalhos de Erving Goffman, que analisa as identidades como múltiplas, flutuantes, situacionais. Mendes procura reescrever esta proposta, desconstruindo a noção patriarcal e ocidentalcentrica de uma identidade una, integral e homogênea, atendendo mais ao invizível, ao não dito, ao papel do outro.
articulam, qual suas relações com conjuntos sociopolíticos maiores, etc. (GOHN, 2005, p. 10).
Para Glória Gohn, a constituição dos atores e, mais concretamente, de protagonistas sociais, implica necessariamente no exercício da autonomia:
A autonomia se obtém quando se adquire a capacidade de ser um sujeito histórico, que sabe ler e reinterpretar o mundo; quando se adquire uma linguagem que possibilite ao sujeito participar de fato, compreender e se expressar por conta própria. Os sujeitos autônomos vêem e aceitam as diferenças e as singularidades das pessoas e das regiões do mundo; acatam e assumem a identidade cultural destas pessoas, olham para suas crenças e valores como algo constitutivo do ser humano; aprendem a dialogar com o diferente e as diferenças sem ter como meta aniquilá-los ou vencê-los a qualquer custo; buscam o diálogo para uma aprendizagem que leve ao entendimento, à construção de consensos... (Idem, p. 33).
Esta percepção do ator social é bastante distinta da tradição sociológica balizada na “estratégia dos sujeitos”, que orienta sua intervenção social a partir do cálculo racional e utilitário em busca de resultados mensuráveis. Ao relacionar a ação dos sujeitos com a identidade e a cultura, as crenças e os valores, o diálogo e a construção de consensos, Glória Gohn recupera a contribuição de Alberto Melucci, com articula a idéia dos novos movimentos sociais com a experiência das redes (como veremos no capítulo seguinte). Ou seja, a intervenção do ator está sendo reconfigurada a partir das experiências e do pensamento atual das redes, jusamente por articular vontades individuais com intervenção coletiva.
Em várias narrativas, aparece claro como as redes sociais têm se revelado uma grande novidade no cenário nacional e internacional, sobretudo nas duas últimas décadas, expressando significativo fenômeno de mobilização popular, de construção de vínculos sociais, de negociação de políticas públicas, ampliando imensamente a chamada esfera pública não estatal, modificando procedimentos governamentais e redimensionando a qualidade dos processos reivindicatórios e de mobilizações coletivas Para a análise que estamos assumindo, queremos nos distanciar de qualquer
princípio que aposte em uma perspectiva determinista das tecnologias de informação e comunicação em que as pessoas e organizações tenham necessariamente que se adaptar às mudanças produzidas pelas tecnologias. Ou seja, distanciamo-nos de determinações em que não haja atores, mas apenas indivîduos passivos submetidos aos inevitáveis processos de transformação comandados pela tecnologia. Pelo contrário, queremos enfatizar que nossa preocupação não é tanto a adaptação dos indivíduos, grupos, organizações, nações, às “mudanças inevitáveis”, mas a busca de reorientação do uso e moldagem das tecnologias a serviço das pessoas organizações, nações e objetivos sociais e nacionais. O desenvolvimento e as transformações tecnológicas não estão decididos a priori, mas dependem dos atores sociais, de sua capacidade de intervenção, de seus valores e interesses, ou seja, o presente e o futuro são ainda realidades em construção, devendo, para tal, contar com peso significativo da ação social.
As experiências vivenciadas na última década em torno da construção e consolidação de redes sociais são reveladores da disposição de intervenção da sociedade frente aos processos de globalização, bem como da afirmação de novos protagonistas na cena social, política, intelectual, tanto local quanto internacional, contribuindo para constituição do que Ilse Sherer-Warren (1999) chama de “cidadania sem fronteiras”, com o que Tânia Bacelar concorda ao dizer que “o local é o global sem paredes”18, apontando novas possibilidades de relação entre o local e o global a partir da ação dos movimentos sociais. Deste modo, os enfrentamentos aos efeitos perversos da globalização e a afirmação da solidariedade a partir da sociedade civil organizada devem se realizar pelos atores sociais experimentando estratégias locais, comunitárias, territoriais, com estratégias globais. Esta combinação de
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estratégias no campo das práticas sociais e culturais locais e transnacionais deve consistir na construção do que Santos considera multiculturalismo emancipatório, ou a construção democrática das regras de reconhecimento recíproco entre identidades e entre culturas distintas, uma vez que “temos o direito de sermos iguais quando as diferenças nos inferiorizam, e temos o direito de sermos diferentes quando as igualdades nos descaracterizam” (Santos, 2002: 78). Essa abordagem valoriza, sem definir hierarquias ou exclusões, o papel do vínculo social, do sentimento de pertença a um coletivo, aquilo que incorpora as identidades e não define mas considera a necessidade de definição de estratégias de intervenção. É tudo isso que está implícito na atual opção dos movimentos pela estratégia de redes pode indicar que o social está sendo permanentemente recriado pelo próprio social e, assim, intervém em outras esferas da vida política, econômica, cultural.