nifica que ao invés de selecionar locais arbitrários no espaço para estabelecer referência, por exem- plo, à direita ou à esquerda do sinalizante, a loca- lização dos referentes no mundo real determina para onde o sinalizante irá apontar. Para que isso funcione, os sinalizantes precisam sempre saber a localização dos referentes no mundo real (por exemplo, a casa das pessoas de quem os sinali- zantes estão falando). Essa habilidade é comum entre várias vilas comunitárias de pessoas ouvin- tes, por exemplo, em comunidades aborígines australianas, podendo a influência de um sistema de referência espacial absoluta ser observada em seus gestos (Levinson 2003:244). Curiosamente, a língua balinesa falada utiliza um esquema de referência absoluta, de tal forma que a lógica es- pacial das línguas falada e sinalizada se sobrepõe, no caso do balinês e do Kata Kolok.
Para ilustrar como a referência espacial absoluta funciona na língua de sinais Kata Kolok, veja o exemplo a seguir de uma enun- ciação sinalizada 7:
(6) q ACASALANDO QU q ACASALANDO IX:frente.l
IX:trás RUIM (MATING WH MATING IX: fwd.l IX:back BAD)
‘Onde/com qual você está acasalando (seu gado)?’ (‘Where/with which one are you mating (your cow)?) Você está acasalando com este? (Are you mating it with
this one?) Aquele é ruim. (That one is bad.)
Aqui o sinalizante utiliza o dedo indica- dor apontando (IX) para estabelecer dois loci
referentes a dois touros, um que é bom para procriar e outro que não é tão bom. Em uma língua de sinais urbana, como as Línguas de Sinais Indiana, Alemã, Japonesa ou America- na, os dois touros provavelmente seriam loca- lizados pelo sinalizante à direita e à esquerda, respectivamente, já que o fato de colocá-los em lados opostos reflete, metaforicamente, o contraste lógico que está sendo feito entre os dois. Entretanto, o sinalizante Kata Kolok aponta para um local ligeiramente à esquerda com o braço levantado e quase todo esticado, referindo-se ao primeiro touro e aponta para trás de si mesmo, para referir-se ao segundo touro. A razão para isso é que no mundo real, esses eram os lugares onde os dois touros vi- viam na vila e tanto o sinalizante quanto o destinatário estão cientes da localização exata das casas dos touros, a partir do lugar onde estavam sentados, durante a conversa. Esse princípio de localização é radicalmente dife- rente do que sinalizantes de uma comunida- de urbana fariam, em um texto similar.
Além de utilizar a referência espacial absoluta, o uso do espaço de sinalização em Kata Kolok também difere em outros as- pectos de línguas de sinais urbanas mais co- nhecidas. Por exemplo, sinalizantes de Kata Kolok não utilizam uma linha metafórica de tempo onde o passado está atrás do sinalizan- te e o futuro à frente. Além disso, um sistema de concordância verbal espacial é quase com- pletamente ausente (Marsaja, no prelo). Para uma análise mais abrangente dessas diferen- ças e seus significados para o estudo compa- rativo das línguas de sinais (ver Zeshan, em preparação).
Curiosamente, outra língua de sinais de vila, a Língua de Sinais Adamorobe em Gana,
7 WH (do inglês) em Kata Kolok é um sinal de pergunta com uma semântica geral, portanto se emprega para
Ulrike Zeshan
Questões T
eóricas das P
esquisas em Línguas de Sinais
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também apresenta muitas peculiaridades no uso do espaço de sinalização. Entretanto, esse sistema é diferente tanto das línguas de sinais urbanas quanto da Kata Kolok (ver Nyst, 2007), o que é interessante porque impossibi- lita qualquer conclusão prematura sobre tais diferenças como sendo devidas a um novo e unificado “tipo de língua de sinais de vila”. Certamente, afirmar isso seria muito simplis- ta e mais pesquisas sistemáticas em línguas de sinais de vilas se fazem necessárias no mo- mento.
4.2 A sinalização em agrupamentos co- munitários – A linguagem é gradual?
As línguas de sinais utilizadas tanto na vila Adamorobe, em Gana, como na vila surda em Bali, existem por várias gerações e seus status lingüístico como línguas amadurecidas não é questionado. As comunidades que utilizam línguas de sinais também são em número su- ficientemente alto para serem consideradas uma comunidade lingüística viável; no caso da Kata Kolok, por exemplo, abrangendo cer- ca de 50 pessoas surdas de todas as idades e a maioria dos mais de 2000 membros ouvin- tes8. Entretanto, a situação lingüística é tão
clara em outros contextos rurais onde as pes- soas surdas vivem e se comunicam por meio do modo gestual. Por exemplo, uma pesquisa de campo recente investigou uma comunida- de rural no Suriname, onde 11 pessoas surdas foram identificadas até agora e o período de tempo conhecido de existência dessa comuni- dade sinalizante foi rastreado como sendo de não mais do que 50 anos. As pessoas surdas e
algumas pessoas ouvintes dessa comunidade usam comunicação sinalizada, mas dada a si- tuação sociolingüística, não está claro “se sua sinalização constitui uma língua de sinais ou um sistema de sinais caseiros compartilhado” (van den Bogaerde, 2006). Situações similares com qualquer número de pessoas surdas ob- viamente existem em muitas comunidades, especialmente em países em desenvolvimento e o status de sua comunicação estabelece um desafio teórico a lingüistas.
Resumidamente, a pergunta de pesquisa é a seguinte: O que é necessário para uma língua ser viável em termos de tempo e espaço? Essa pergunta não pode ser abordada no âmbito das línguas faladas, devido ao extremo isolamento lingüístico que as pessoas surdas podem en- frentar e que produz os conhecidos sistemas de sinais caseiros improvisados e idiossincráti- cos, de funcionalidade relativamente limitada (ver, por exemplo, o trabalho de Goldin-Me- adow, 2003), não desenvolvidos entre pessoas ouvintes. Se pensarmos em contextos onde a comunicação gestual é utilizada por pessoas surdas, o resultado pode ser uma variação des- de sinalizantes caseiros extremamente isola- dos até comunidades de línguas de sinais, com todos os pontos intermediários possíveis, na escala de variação. São esses pontos interme- diários, como possivelmente o de Suriname, os casos de “sistemas de sinais caseiros com- partilhados”, que se constituem como o maior enigma teórico. Em casos como esse, é possível que um sistema de sinal tenha deixado de ser um sistema de sinal caseiro limitado, mas ain- da não seja uma língua de sinais amadurecida? É possível se pensar a linguagem como um fe- nômeno gradual?
8 Contudo, a Língua de Sinais Adamorobe está atualmente ameaçada devido à influência da Língua de Sinais
Raízes, folhas e ramos – A tipologia de línguas de sinais
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