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alemão que despe sua pátria como um velho casaco não é mais um alemão para mim, não tenho mais interesse de compatriota em relação a ele.”

Os pastores ordenados, que deveriam substituir os pastores leigos espalhados pela Colonia, encontraram os colonos protestantes vivenciando urna religiosidade que muito se distanciava dos preceitos da Igreja Evangélica. Segundo eles, o maior problema era que os colonos não orientavam suas vidas — seja em termos pessoais ou sociais — por princípios morais, como pregava a teologia protestante, o que se constituía num obstáculo à consolidação da Igreja. A recuperação desses fiéis para “a verdadeira fé” — ou seja, a mudança de suas práticas e concepções religiosas — e para uma vida de moralidade, apresentava-se como uma luta pela própria preservação da religião protestante, ainda mais num meio, considerando a sociedade brasileira e sul-rio-grandense abrangente, predominantemente católico. Diante da difícil tarefa que tinham pela frente, os pastores não pouparam esforços em demonstrar às instituições financiadoras da Alemanha a importância do seu apoio. Entendiam como vital a institucionalização da Igreja Evangélica, ou seja, o seu reconhecimento formal pela ordem social e política vigente no RS e no País, pois somente a partir de uma igreja centralizada, hierarquizada, seria possível fazer frente a questões como a recuperação dos fiéis para uma religiosidade ortodoxa, ou aos problemas causados pela legislação brasileira, que limitava o acesso dos imigrantes à vida política brasileira e não legitimava a estrutura familiar.

Na visão dos pastores formados, o distanciamento dos colonos em relação à tradição religiosa, cujo desdobramento teria acarretado a ausência de moralidade, devia-se ao afastamento tanto do Estado brasileiro em relação à colônia alemã quanto da própria Igreja na Alemanha. A esse quadro devia-se acrescentar o proselitismo dos jesuítas, a acenar com o prestígio social de ser católico; o discurso dos racionalistas, que minava os conteúdos de fé ao limitar

tudo às fronteiras da razão; e a própria atuação indisciplinadora dos pastores- leigos. Somente uma estrutura eclesiástica forte poderia fazer frente a esses problemas: a constituição do Sínodo em 1868 por Borchard criou um espaço para o debate de todas essas questões. Além disso, era intensa a discussão sobre a possibilidade do Sínodo vincular-se à Igreja Territorial da Prússia - como propunha Borchard — ou permanecer independente, como queriam outros. Entre os últimos estava Karl von Koseritz, um “Brummer”, que se opunha não só à filiação como à própria criação do Sínodo, uma vez que o projeto dos “Brummer” pretendia ultrapassar o “estado teológico” e atingir o ideário positivista de uma germanidade local. Essa germanidade, assentada nos valores da ordem e do trabalho, não admitia nenhum tipo de atrelamento a qualquer instituição alemã: ela era, conforme Biehl (1991:115), “o passaporte para a burguesia teuta local institucionalizar-se politicamente”.

Segundo Dickie (1996:270), os pastores formados que chegaram a São Leopoldo vinham de um contexto religioso — o revivalismo luterano do século XIX — que tinha como centro a luta pela erradicação da influência dos racionalistas na vida espiritual das Igrejas. Tanto Borchard quanto Rotermund —

a quem coube a consolidação do Sínodo em 1886 — possuíam formação universitária e inseriam-se no braço progressista do movimento revivalista, que se propunha “ensinar velhas Verdades com novas roupagens”, por oposição ao braço conservador que pretendia o retomo à ortodoxia do século XVII. O revivalismo luterano do século XIX, segundo Dickie, teria sido bastante influenciado pelo pietismo.

Assim, toma-se compreensível a falta de unanimidade entre os pastores em relação a uma série de questões. É o caso, por exemplo, da instituição da prática

do pastorado leigo pelas comunidades. Embora muitos pastores a condenassem, outros, no entanto, viam nela a demonstração de um profundo espírito religioso, entendendo que a leitura e a compreensão individualizada da Bíblia era o caminho correto para a verdadeira fé, podendo, para isso, sobrepassar a igreja institucional e o pastor. Baseada no depoimento de três pastores — Hunsche, Rotermund e Schmierer — Dickie aponta para o fato de que, se por um lado, os pastores luteranos condenaram a violência e os crimes cometidos pelos “Mucker”, assim como seu afastamento da igreja oficial, por outro aplaudiram o que consideraram como “legítima manifestação de fé”: o ascetismo, a renúncia às coisas mundanas que tanto prejudicavam a vida religiosa (os bailes, a bebida, o jogo), o comprometimento com a palavra de Deus (a prática bibliocêntrica). Essa postura, evidentemente, abria espaço a que tanto o discurso dos liberais como o dos jesuítas aproveitasse o episódio dos“Mucker” para desqualificar a pregação dos pastores protestantes, denunciando que o ascetismo, a religiosidade e a fidelidade à Bíblia era algo próprio dos “Mucker”. O episódio em si e o uso que dele fizeram os jesuítas e os liberais causou, nesse sentido, grandes obstáculos ao trabalho dos pastores junto às comunidades, embora, por outro lado, também eles, os pastores com formação acadêmica, tenham utilizado o episódio como instrumento de demonstração junto às igrejas alemãs da necessidade de continuidade do envio de verbas para o trabalho missionário e como exemplo do que poderia ocorrer com um possível abandono das comunidades evangélicas.

Também não havia unanimidade entre os pastores na questão da germanidade. Em geral, a política de preservação e transmissão dos valores culturais germânicos era defendida pela grande maioria dos pastores com

formação acadêmica, enquanto os missionários dedicavam-se mais à pregação do evangelho.

O projeto luterano, visando a estabelecer um novo significado de Igreja para as comunidades, causou profundas alterações no cotidiano dos colonos, na medida em que implicava a redefinição da realidade em que viviam, com base em novos parâmetros. Promoveram uma mudança na área do ensino, passando os antigos professores mantidos pelos pais a cederem espaço aos pastores, resultando numa vinculação mais profunda entre igreja e escola, submetendo-se esta àquela. Os pastores indicavam os livros que deveriam ser lidos e decidiram que as comunidades deveriam contribuir para a compra do material didático. Estabeleceram novas normas para os rituais religiosos, a fim de deixar claro às comunidades que a igreja era o centro de onde deveriam partir as definições sobre a vida eclesial. Em carta a Berlim em 186432, Borchard indicava a necessidade de separar o culto da festa que o seguia, entendida como uma transgressão profana. A partir de então, os cultos passaram a se realizar em dias determinados e não mais em sábados e dias santificados que deveriam ser dedicados a sua preparação; os horários dos cultos foram fixados, deixando de ficar na dependência do término de reuniões, de jogos, de caçadas; as cerimônias de casamento e batismo deveriam ser realizadas na igreja e não fora dela por um pastor itinerante, como acontecia até então; as confirmações, antes realizadas pelos pastores-leigos com crianças imaturas, passaram a se realizar com jovens de 13 ou 14 anos de idade, o que permitiria a eles optarem para uma vida adulta e religiosa. Além disso, o momento da confirmação deveria ser aproveitado para os jovens refletirem sobre suas vidas, reclusos no âmbito da família e não para

fazerem festa, beberem e dançarem como costumeiramente faziam. Ou seja, invertia-se o vetor de autoridade: agora o centro religioso era a igreja e seu pastor e não mais a comunidade. Os pastores formados vinham firmemente decididos a cumprirem com a sua missão de levarem a verdadeira fé às comunidades e de restabelecerem a moralidade.

O projeto luterano enfrentou, no entanto, várias formas de resistência à sua implantação, não somente por parte dos liberais e católicos, mas também por parte das próprias comunidades. Essas não desejavam abrir mão de sua autoridade porque ela representava a liberdade de quem havia construído aquele espaço com as próprias mãos, fazendo parte de sua própria identidade. Essa circunstância levou a que em muitas comunidades o novo pastor não fosse aceito por uma parcela da comunidade, vindo esta a dividir-se, com um grupo apoiando o antigo e outro o novo pastor. A própria estrutura organizativa das comunidades já era demonstrativa do seu grau de autonomia: os pastores não participavam de suas assembléias, cabendo-lhes apenas cumprir o que lá era decidido. O novo pastor podia até ser aceito, mas as comunidades não queriam abrir mão de decidir

sobre seu ministério.

A implantação do projeto luterano foi dificultada também pela tensão que permeava a relação entre os teuto-brasileiros e os “alemães do Reino”, uma vez que os pastores eram considerados como “alemães do Reino”, que aqui vinham para enriquecer e retomar à Alemanha. Dreher (1984:62) observa que o isolamento em que as comunidades se mantiveram durante os anos iniciais da colonização fez com que os colonos perdessem o conhecimento do “alto alemão”, passando a falar apenas o “baixo alemão”, ou seja, os dialetos de suas regiões de

origem. Isso causou dificuldades de comunicação entre os colonos e os pastores ordenados que chegavam da Alemanha.

O maior distanciamento, no entanto, ocorria entre o conteúdo dos discursos dos pastores e a vivência dos colonos. Quando os pastores propunham mudanças tão radicais para atingir a verdadeira fé ~ crendo que só assim seria possível evitar a extinção do protestantismo estavam exigindo que os colonos realizassem transformações nas suas vivências, que não eram percebidas por eles como necessárias. Esse questionamento da realidade, que os colonos vivenciavam como correta, fez com que a certeza cedesse lugar à instabilidade: seu cotidiano estava sendo minado nos alicerces por uma nova concepção de religião, de religiosidade, de moralidade.

Isso, pelo lado dos protestantes. Dá parte da Igreja Católica, esta passava, já, por um intenso processo de romanização, que convém seja acompanhado para se perceber a dimensão da luta empreendida pelos jesuítas no Brasil e na colônia alemã, de onde se pode perceber, também, a dimensão do engajamento do livro do Padre Schupp nas questões em jogo a seu tempo.

No Brasil, o processo de romanização adquiriu peso quando — após a proclamação da República e a conseqüente separação entre Estado e Igreja —, D.Macedo Costa, arcebispo da Bahia e líder do episcopado brasileiro à época, redigiu em 1890 um documento intitulado “Pontos de reforma da Igreja no Brasil”33, no qual indicava medidas urgentes e concretas para que a mesma se efetivasse.