Para que a pesquisa contemplasse vários aspectos que o estudo do tempo requer, visando a mensurar de maneira clara a organização temporal desses professores-gestores e delimitar, quantitativamente, se estes privilegiam alguma atividade em detrimento de outra, decidi incluir na pesquisa uma parte quantitativa.
Visto que a própria UFC apresenta uma tabela de atividades que fundamenta a progressão funcional dos professores e compõe o escopo geral do relatório da Comissão Permanente de Pessoal Docente – CPPD, decidi que essa seria minha base para a pesquisa quantitativa.
Nesse ponto, entretanto, deparei com uma questão: as entrevistas preliminares demonstraram que os professores-gestores naturalizavam diversas atividades, ou seja, desempenhavam essas atividades, mas não as contabilizavam como trabalho – tais como, reuniões, produção de artigos, orientações, dentre outras. Isso resultou na delimitação de um dos objetivos específicos.
Nesse caso, se fosse mostrada uma lista de todas as atividades possíveis no exercício da docência, o professor-gestor a assinalaria não por se lembrar dela, mas por ver aquela atividade ali descrita, o que encobriria um dos objetivos desta pesquisa, que é Analisar se existem atividades naturalizadas (Objetivo Específico 2).
Para resolver esse problema, meu orientador sugeriu a utilização de uma técnica de pesquisa pouco utilizada na Psicologia o time budget, ou budget time (orçamento de tempo, em tradução livre).
Ela consiste em enumerar as atividades e designar a elas um determinado tempo dentro do dia. Isso pode ser feito com dois objetivos, para atividades já realizadas ou em realização, como acontece em diversas pesquisas na área da Biologia e Ciências da Vida, onde o pesquisador observa o comportamento/atividade apresentado pelo objeto de estudo e computa de maneira direta o tempo empregado nessa atividade ou comportamento (NORDGREENA et al., 2013; GOMEZ; COOK, 2010). Segundo Nordgreena et al. (2013) e Gomez e Cook (2010), esse método de pesquisa proporciona um mapeamento das atividades
mais corriqueiras, as que são esporádicas e aquelas que são realizadas em algumas ocasiões especiais, assim como o tempo e a dedicação específica a cada uma dessas atividades.
Obviamente que em se tratando de seres humanos, esse levantamento pode ser realizado a posteriori e não exatamente no momento em que a atividade é realizada; além disso, pode também ser feita com objetivo prospectivo, no caso de projetos a serem realizados ou para organizar rotinas de atividades.
No caso específico da minha pesquisa, por força das contingências descritas acima, formulei uma planilha simples disponibilizada por meio eletrônico, no Google docs com o link de acesso enviado por e-mail aos professores gestores. Essa planilha (Apêndice 2) contém as instruções de preenchimento e, na primeira parte, uma tabela de duas colunas, onde o professor-gestor deverá digitar na primeira coluna a atividade que realiza e na coluna ao lado a quantidade de horas semanais empregadas nessa atividade.
Essa estratégia visa a englobar um fenômeno que emergiu nas entrevistas preliminares, embora o tempo em Cronos tenha uma possibilidade de ser efetivamente mensurada a vivência desse tempo, ou seja, o tempo kairológico, enseja uma grande imprecisão de relação entre atividade e temporalidade a ela vinculada. Não foi incomum que os entrevistados apresentassem dificuldade em precisar o tempo de cada atividade, mesmo essa sendo uma grandeza exata, ao que fora expresso atividades com duração predeterminada, como aulas tem uma precisão maior ao serem descritas, entretanto as atividades de tempo variável, como orientação, preparação de aula e produção de artigos resvalam muito mais para a intuição do que para a precisão de uma duração.
Com isso objetivo captar inicialmente as atividades em que esse professor-gestor tem mais ênfase e como organiza seu tempo (Objetivo Específico 1). Isso será demonstrado por dois aspectos distintos: a ordem em que ele cita as atividades (atividades consideradas mais importantes, não naturalizadas e de maior frequência são lembradas primeiro) e o tempo total empregado na atividade.
Propositalmente, a planilha apresentou, na segunda aba, só aberta depois da primeira aba finalizada, a lista de atividades descritas na Resolução 22/2014 do CEPE (Anexo 1), onde são listadas todas as atividades possíveis relacionadas ao cargo de professor na UFC. Será, então, solicitado ao professor-gestor que marque
quais atividades ele realiza e esqueceu de mencionar na primeira parte e quanto tempo emprega em cada uma dessas atividades.
Com esse procedimento poderemos ver as atividades naturalizadas por parte de cada colaborador (Objetivo Específico 2), comparando as atividades lembradas e citadas na primeira aba da planilha e as que ele marcou na segunda aba. Obviamente, um emprego maior de tempo em atividades que só foram lembradas ao ler a segunda aba da planilha, fornece pistas de uma atividade naturalizada, uma vez que é fácil esquecer uma atividade esporádica, mas não uma corriqueira e que consome grande parte do tempo do dia.
A opção inicial por um formulário eletrônico se deu por sua comodidade de envio e praticidade de resposta pelos pesquisados e na tabulação dos resultados, uma vez que o recurso online permite a opção de exportar para qualquer programa de edição, facilitando a tabulação dos dados. Além disso, os dados ficam gravados na nuvem (disco virtual acessível via internet), o que garante proteção e segurança contra perda. Esse formulário foi enviado por e-mail, os endereços eletrônicos foram conseguidos por meio da página da UFC na internet.
A escolha da Resolução 22/2014 do CEPE foi uma consecução lógica, uma vez que ela elenca todas as atividades possíveis no exercício do cargo de professor na UFC, como dito anteriormente. Além da comodidade do material já elaborado, ele é oficial e foi pensado e elaborado por longas discussões nos Centros, Faculdades, Institutos e Campi antes de ser adotado.
Essa resolução é, na verdade, uma regra geral de progressão em resposta ao acordo feito com o governo em 2012, que reformulou a carreira docente. Uma vez que foram emitidas novas normativas paras as carreiras, as universidades pelo Brasil passaram a discutir e desenvolver seus novos critérios de progressão funcional.
No caso da UFC, o processo se tornou mais objetivo e quantitativo. A Reitoria, após consulta e debates, elencou uma série de atividades das mais variadas esferas, contemplando todas as atividades dos professores das diversas áreas.
De posse do plano geral de atividades, cada Centro, Faculdade, Instituto e Campi passaram a discutir pontuações específicas para cada atividade ali relacionada, personalizando a progressão pela especificidade da área; é óbvio
observar que um curso de química industrial e um de música terão atividades em comum (como disciplinas ministradas e publicação de artigos) e outras totalmente alheias (como apresentações musicais e composições de músicas). Seguindo esse expediente, a Reitoria passou a contemplar as especificidades de cada realidade, descentralizando as decisões de pontuação, embora o grupo geral de atividades se mantenha, enquanto possibilidade, igual para todos.
Mesmo com um plano inicial bem delimitado o campo me apresentou algumas dificuldades que se mostraram difíceis de serem contornadas: Na primeira tentativa os professores se mostraram muito resistentes em responder o formulário eletrônico, e obtive apenas seis respostas, sendo desses, três do interior. Fiz outras tentativas, caso eles tenham deixado para responder em outra oportunidade e com isso esqueceram. Entretanto na segunda tentativa não obtive nenhuma resposta.
Uma vez que a primeira abordagem se mostrou ineficiente busquei auxílio da Pró-Reitoria de Gestão de Pessoas (PROGEP), uma vez que a pesquisa poderá demonstrar uma realidade na qual essa instância da Universidade tem interesse em intervir, a fim de melhorar a condição de trabalho dos professores. Mais uma vez não tive uma resposta satisfatória, e mesmo com alguma insistência não consegui ajuda, fosse na forma de solicitação de preenchimento do formulário ou de ceder os e-mails dos chefes de departamento, campi, faculdades e institutos para averiguação se esses estavam atualizados.
O próximo passo tentado foi uma abordagem direta de cada professor- gestor; entretanto esse procedimento também não se mostrou eficiente, uma vez que os horários desses docentes são muito díspares eu perdia muito tempo aguardando um único professor, que muitas vezes não aparecia por ter outro compromisso urgente, remarcava, ou simplesmente desmarcava o horário. O fato é que, dessa feita, o tempo gasto para conseguir um formulário respondido inviabilizaria a aplicação em um contingente tão grande de professores.
Com o tempo para a finalização da tese encurtando resolvemos tentar duas novas táticas: a primeira o auxílio de aplicadores que pudessem colher presencialmente os formulários com os professores e, de forma paralela, o foco no interior, para o caso dos docentes da capital se mostrassem mais resistentes a responder o formulário.
Uma pessoa assumiu a aplicação em Sobral, uma pessoa assumiu a aplicação em Quixadá (um professor desse Campi, que teoricamente teria maior facilidade) e duas pessoas em Fortaleza. Desses apenas Sobral se mostrou um campo que respondeu de maneira rápida, mesmo assim de um total de 28 possíveis respondentes, quatro afirmaram não terem tempo e se negaram a responder o formulário; assim, conseguimos 24 respostas, totalizando 85,71% do universo pesquisado.
Fortaleza retornou apenas mais cinco formulários respondidos, totalizando oito e Quixadá não retornou nenhum. Face a isso a terceira e a quarta fase dessa pesquisa se desenvolveu exclusivamente no Campus de Sobral, onde obtive material que pudesse ser trabalhado.
É importante esse dado na pesquisa, pois inicialmente imaginei que por se tratarem de professores, muitos deles pesquisadores e respondendo a uma pesquisa de um colega da mesma universidade, pesquisa essa com grande potencial para contribuir no sentido de uma melhoria das condições de trabalho na gestão, o índice de resposta ao instrumento quantitativo fosse alto (a revelia da opinião do meu orientador, que anteviu essa dificuldade). Entretanto como descrevi a adesão foi muito pequena, salvo no Campus de Sobral onde 82,14% responderam os professores gestores se mostraram muito refratários à pesquisa.
Chama atenção o fato de que, ao menos, os professores gestores apresentaram, aparentemente, pouco interesse em responder um formulário que não leva mais do que 15 minutos para ser respondido. Como dito antes, são, em sua maioria, pesquisadores, orientadores de pós-graduação, gestores e colegas de instituição; e mesmo com esse perfil e um tempo de resposta pequeno do instrumento houve pouca adesão.
É de se questionar, nesse cenário, a implicação pessoal de cada um com o campo da pesquisa como um todo, não apenas com a sua pesquisa ou a área de cada um; mas com o comprometimento de forma geral. Se em um público hipoteticamente implicado na geração de conhecimento temos um índice tão baixo de resposta, o que esperar da população em geral?
Longe de tentar criar uma generalização com esse fato, ou de tomar minha experiência pessoal como um dado absoluto, mas outras pesquisas que tive a
oportunidade de conduzir com um público fora da universidade o nível de adesão foi significativamente maior. Esse fato faz pensar sobre essa realidade.
Será que esses gestores estão tão ocupados que não podem parar para responder uma pesquisa, mesmo sabendo da importância da geração de novos conhecimentos? Postergaram o preenchimento do instrumento e acabaram esquecendo? Simplesmente não tem interesse em participar dessa pesquisa? Ou apresentam resistência a responder qualquer formulário ou questionário de pesquisa?
Infelizmente essas questões extrapolam os limites e objetivos dessa Tese e deixa espaço fecundo para novas pesquisas que possam esclarecê-las.
Uma vez aplicado o formulário era preciso definir os parâmetros para que se pudesse chegar a uma atividade naturalizada, para isso não basta simplesmente esquecer uma atividade realidade; mas esquecer uma atividade corriqueira, que tenha certa frequência que de outro modo não deveria ser esquecida. Certamente para atividades que raramente realizamos a tendência natural seria esquecê-la, entretanto, atividades rotineiras deveriam ser lembradas sem esforço.
O formulário tem como instrução a descrição da atividade e o tempo, em horas por semana ou horas por mês, alocado para a atividade descrita; possibilitando no final uma contagem de horas totais que o professor emprega em cada atividade vinculada à Universidade. Entretanto era necessário estabelecer um critério temporal para definir se a atividade era corriqueira ou não, feita com certa regularidade ou não.
Desta forma definimos como critério atividades que o professor gestor desempenhasse por no mínimo uma hora por semana, no caso de atividades que fossem computadas em horas semanais, naquelas descritas com horas mensais foi mantida a proporção, ou seja, quatro horas mensais. O motivo da escolha se deu pelo fato de que atividades semanais com uma hora de duração são regulares e ocupam o tempo de uma aula, ou de uma disciplina de um crédito, menor fração de aula que um professor pode ministrar (a menor medida acadêmica admitida pela UFC é uma hora aula).
Em se tratando de atividades mensais, uma atividade que tenha a duração total de quatro horas mensais se constitui como uma atividade quinzenal de duas horas (em alguns casos as supervisões, por exemplo) ou uma atividade de
quatro horas em um único dia (como as reuniões, por exemplo), o que perfaz um turno inteiro dedicado a uma atividade. Certamente que a regularidade de uma atividade com essa duração não poderia ser esquecida, principalmente por ocorrer em dias e horários, na maioria das vezes, fixo.
Com efeito, a tabulação de horas dedicadas às atividades dos professores pode aparecer, por vezes, de forma fracionada; isso se deve à necessidade de equalizar o registro temporal, por esse motivo as atividades descritas por hora/mês foram divididas por quatro, para equivaler ao tempo de registro das atividades de hora/semana
Acredito que essas escolhas garantem que os dados possam evidenciar dois Objetivos Específicos: Conhecer a organização temporal desse profissional e Investigar se uma ou mais atividade é privilegiada por esses professores.