Face a uma situação de comparação potencialmente crítica, há muitos modos de valorizarmos a nossa imagem na teia relacional das referências pelas quais se afere.
Um consiste em aperfeiçoá-la, cultivá-la e desenvolvê-la, tendo por meta o ideal pretendido. Digamos que esta será, porventura, a forma mais construtiva de lidar com a situação de eventual inferioridade, tão ameaçadora para a nossa auto-estima.
Outras maneiras de nos valorizarmos, menos positivas e mais defensivas, passam por minimizarmos ou eliminarmos, física ou psicologicamente, simbo- licamente ou de facto, os objectos de comparação que nos ultrapassam e sobrepõem, que questionam o nosso mérito – foi o que a madrasta da nossa história tentou: mandou matar a Branca de Neve, e a ilusão do seu desapare- cimento foi suficiente para lhe restituir a felicidade; como viremos a verificar, a crença de ser a mais bela de todas assentou, afinal, num engano, porque esta é uma história muito real.
Outra alternativa de auto-valorização consiste em reduzir ou eliminar o próprio acto de avaliação, os seus procedimentos e instrumentos, como a madrasta acabou por fazer ao destruir o espelho.
Poderíamos dizer que esta é uma forma de negação da realidade; defen- siva, pouco elaborada, evita o olhar para não tomar consciência da imagem; acredita-se que, magicamente, ela deixará de existir.
O percurso vivencial do desenvolvimento ensina-nos atitudes mais elabo- radas, diferenciadas, mais experientes e maduras. À medida que crescemos, e conforme a profundidade do olhar matricial internalizado, vamos aprendendo a dialogar com as nossas imagens reflectidas nos vários espelhos da vida, convertendo-as em instrumentos de aferição, de desenvolvimento e aperfei- çoamento. Já não há uma influência unívoca e directa do espelho sobre nós, mas uma leitura e interpretação do que se sente com o olhar. Procuramos o espelho, não para ficarmos passivos diante dele, não para que ele nos diga como somos, mas para nos construirmos e reformularmos na sua presença e em função da sua presença.
Com o tempo, aprendemos também que há espelhos que mentem. Nem todos são mágicos e falam sempre verdade. Espelhos há que nos desvirtuam e devolvem uma imagem fragmentada e alterada de nós próprios. Outros, que nos favorecem. Certos da fidelidade do primeiro espelho (o olhar materno), que, qual tesouro do nosso próprio valor, guardamos no mais recôndito da nossa intimidade, face a uns e outros, podemos agora aferir as distâncias e
(..) do outro lado da floresta, a rainha olhou para o seu espelho mágico e per- guntou:
‘Espelho, espelho meu, existe alguém mais bela do que eu?’
E o honesto espelho respondeu: ‘Tempos houve em que fostes a mais bela, minha rainha. Agora Branca de Neve é a mais bonita que eu conheço.’ (...) A rainha ficou tão irritada que partiu o espelho em mil pedaços.
proximidades que consideramos convenientes, e questionar ou não a legitimi- dade, a autoridade, a competência dos vários olhares projectados sobre nós. A madrasta da nossa história não fez esta aprendizagem. Por isso, uma vez destruído o espelho, fiel depositário do seu valor e fonte de sentido para a sua vida, não lhe restou outra alternativa senão a sua própria destruição. Como diz a história, (...) morreu louca de inveja.
Conclusão
Esta pequena história, feita para gente pequena, toca aspectos essenciais da avaliação.
• Explica o seu carácter de necessidade e inevitabilidade, como um facto essencialmente pessoal, cujas dimensões psicológica e subjectiva são ineren- tes. A avaliação é estruturante, constituindo-se como factor fundamental do desenvolvimento humano.
• Revela a delicadeza própria do seu processo, visto da perspectiva do avaliado, que precisa e procura a avaliação que, inevitavelmente, expõe a sua fragilidade.
Porque todos os processos de avaliação mantêm esta ligação íntima com aspectos nucleares da nossa auto-estima, identidade e personalidade. De algum modo, e na medida da importância e legitimidade reconhecidas ao avaliador, toda a avaliação nos questiona e põe em causa; por isso, reactiva defesas, resistências e inseguranças. Porque, no fundo, continuamos à procura de uma imagem bonita de nós mesmos.
• Abre pistas, não só sobre o espelho que faz crescer, mas sobre a pes- soa que cresce face ao espelho. Não nos fala apenas da importância da ava- liação e do seu papel na manutenção do equilíbrio psicológico, como explora a atitude da pessoa face a essa avaliação, e as suas consequências.
No adulto, uma expressão desenvolvimentalmente mais apropriada desta mesma necessidade de uma imagem bonita de si traduz-se na procura de imagens construtivas da sua pessoa – é a metáfora do diálogo com o espelho. Numa perspectiva dinâmica e evolutiva, importa que as respostas dos nossos espelhos mágicos, mais do que observarem as verdades do momento, reflictam imagens em definição, que nos permitam projectar o futuro que que- remos e podemos ser.
Enquanto dispositivo externo de controlo e aferição, o processo de avalia- ção deve, na continuidade da génese da individualidade, ser apropriado pelo sujeito avaliado, através da participação na definição dos seus objectivos e
procedimentos, transformando-se em instrumento de progressão e configura- ção consentida e intencional, mais do que instrumento de medida alheio, estranho e potencialmente ameaçador. Neste contexto, do ponto de vista psi- cológico, a democratização dos processos de avaliação encontra fundamento e sentido.
Sem confundirmos comportamento com personalidade, desempenho com competência, acção com intenção, presente com futuro, importa envolvermo- nos na nossa avaliação, participando activamente em todas as fases de um processo que é, afinal, o da nossa construção como pessoas.
Referências
Branca de Neve e os 7 anões(4ª ed.). (1992) Lisboa: Edinter. Colecção Contos de Sempre. Sá, E. (1995a). Psicologia dos Pais e do Brincar (2ª edição). Lisboa: Fim de Século. Sá, E. (1995b). Más Maneiras de Sermos Bons Pais. Lisboa: Fim de Século.
Strecht, P. (1999). Preciso de Ti. Perturbações Psicossociais em Crianças e Adolescentes. Lisboa: Assírio e Alvim.