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Foi também entrevistada a Presidente da EVTA (até janeiro de 2013), docente na Universidade de Hannover na Alemanha com nome fictício atribuído de Claire Mathews. Esta entrevista foi realizada pois pretendia-se comparar as abordagens à seleção de repertório no ensino Secundário Português com as do ensino noutras instituições pares. Como esta professora esteve recentemente em Portugal (nas 3as Jornadas de Ciência Vocal da UA, 2013: Novas Abordagens ao Ensino e Prática do Canto), tornou-se

pertinente incluí-la nesta abordagem percetual como ponto de comparação, pelo seu contacto, enquanto presidente da EVTA, com várias instituições europeias. O guião utilizado para esta entrevista semiestruturada foi precisamente o mesmo que o utilizado nas entrevistas semiestruturadas com os professores de canto Portugueses. Assim, a ordem de resultados apresentados na secção que se segue (já traduzidos para Português, tradução da responsabilidade da autora desta tese), será a mesma que a utilizada na secção anterior.

3.4.1. Questões de aquecimento

A Professora iniciou a sua entrevista revelando o seu percurso individual com formação variada em instrumentos como viola d'arco, piano e canto. Ao ter uma formação tão variada, pôde avaliar para onde se dirigia mais o seu gosto pessoal na área da música e foi o canto que a preencheu mais ao nível da interpretação.

"Fui uma cantora mais de concertos mas ainda pertenci ao Coro de Bayreuth num dos Festivais de verão, o que foi uma experiência muito especial. Concentrei-me mais em fazer repertório de concerto em igrejas, recitais de canções e muita música contemporânea.(...) Eu toquei numa orquestra porque a minha melhor habilitação era de viola de arco. Tinha um passado variado devido à minha formação até como pianista pois tinha habilitação...Estava a tentar várias opções mas foi o canto que me despertou maior interesse. E continuei a estudar nesse sentido." (Mathews)

3.4.2. Formas de pesquisa do repertório

Em relação à forma de pesquisa de repertório, esta professora procura ir ao encontro da personalidade e preferências do aluno. Também está atenta à musicalidade que o aluno possui, nomeadamente relativamente ao fraseado, isto é, se as linhas melódicas são interpretadas de forma mais lírica ou mais dramática.

"Um fator importante para definir repertório é a personalidade, quais são os seus gostos ou não...se é uma personalidade sociável e no fim descobrir um equilíbrio entre elementos que unem a personalidade com o que canta. Uma personalidade viva com voz de soprano de coloratura pode desempenhar muito bem uma Blondchen (ópera O Rapto do Serralho de Mozart). Já um soprano lírico, à parte de cantar grandes linhas, poderá também desenvolver o parlando para outro tipo de personagens. Se falarmos de cantores amadores, tudo isto se encaixa a um nível diferente, mas creio ser o mesmo processo de equilíbrio com a personalidade da pessoa. Outro aspeto seria a musicalidade, a tendência para determinado tipo de música. Se a pessoa é mais dada a parlando ou a passagens mais líricas, se está na natureza da própria voz...Não preciso de forçar um aluno para cantar determinada obra porque ele teria de cantar essa obra em determinado momento. É uma gestão...Se o aluno tem tendência para Música Antiga, ele precisa de cantar isso mas precisa também de cantar obras românticas. É correto escolher determinado estilo porque é com isso que se irá ganhar dinheiro também (ri). Comigo aconteceu um pouco disso. Tinha determinado tipo de instrumento e de musicalidade, que se adequava a escrita instrumental. Pude escolher e adequar-me para a música contemporânea onde muitos não se enquadravam. Tenho um ouvido apurado para detetar uma afinação correta ou incorreta e isso, num mercado que está muito preenchido, é importante como característica diferenciadora, algo que os outros não conseguem fazer, mesmo sendo só num estilo.” (Mathews)

3.4.3. Critérios de seleção de repertório

Ao referir os critérios utilizados para a seleção de repertório, novamente se ouve falar na escolha conjunta com os alunos e não de um processo isolado do professor. A professora defende que este procedimento deve ser feito em conjunto, de forma a promover autonomia nos alunos num futuro profissional.

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Mas o primeiro passo é dizer o que devem procurar eles próprios. Em primeiro lugar eles terão que saber como e onde se pesquisa repertório . Em segundo lugar, isso diz bastante de como é o aluno baseado no repertório escolhido. A forma como julgam as suas capacidades, se sabem se escolheram algo demasiado difícil ou demasiado fácil...Diz muito também acerca dos poemas quando escolhem Lied , diz também muito acerca das questões estilísticas contidas nas canções...Não irá alterar-se aquando da sua evolução mas ficarão mais seguros ao escolher o seu próprio repertório . E encoraja-os a fazer algo."(Mathews)

Além disso, é importante referir que na opinião desta professora, a escolha de repertório é algo também sujeito à experimentação, tentativa e erro. Se o repertório inicialmente

escolhido se encaixa no aluno, então há que decidir se é uma peça de audição ou para um recital da classe de canto, por exemplo.

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Digo-lhes para tentarem procurar algo específico. Mas também digo para

procurarem determinada obra e estudarem-na. Experimentam-na e preparam-na para ver se aguentam na sua totalidade. Ou então só parte da obra para trabalhar algo mais específico da mesma...Em duas ou três semanas, toma-se a decisão se é uma ária boa para audição ou para o recital da classe...Ou colocá-la de parte...é uma obra boa mas não irá ajudar neste momento..."(Mathews)

Desta citação se compreende que neste caso, o repertório também é escolhido de acordo com o propósito que irá servir.

3.4.4. Critérios de classificação vocal

Quanto ao uso da classificação vocal como critério de escolha de repertório, esta professora refere que este é um critério logo determinado aquando do ingresso dos alunos na instituição.

"Nós temos as nossas audições no palco no auditório principal como se fossem cantar no concerto. Nada que tenha que ver com a escolha de repertório mas tem a ver com o cantor e acabará por ter que ver com o repertório igualmente. Porque alguém que entra em palco e nós dizemos imediatamente: Cherubino! Ou seja, é a primeira palavra que nos vem à mente, não interessa o que é mas é que reflete essa pessoa ao entrar em palco. Um traço de personalidade, se ia de vestido vermelho...não importa. É algo que se vai instalando, a minúcia e detalhe que se vai apurando com a experiência dos anos. É o instinto. Reagir a alguém...e ouvir a voz e se se ajusta aquela pessoa. Depois surge a outra questão: o que será que a pessoa está a fazer de forma incorreta e que não se enquadra na pessoa. Porque a primeira impressão, através da imagem física, podemos pensar que tipo de voz será. Por vezes o quadro não encaixa com o tipo de voz, isso acontece. Com tempo podemos adivinhar para onde a pessoa se deve dirigir ou focar."(Mathews)

3.4.5. Bibliografia de apoio à formação contínua em pedagogia vocal

Quanto à bibliografia consultada com frequência, incluem-se obras de referência do pedagogo Richard Miller. Concebe que a utilização da bibliografia deve ser feita para estabelecer um bom princípio na procura de possíveis resoluções de dificuldades dos alunos. Assim, o professor deve usar diferentes estratégias que são moldadas a cada aluno.

"Os livros do Richard Miller são muito úteis mas outros como Janice Chapman, Mary Beth Bunch, Kollman...Mas os livros de Miller têm bons princípios, mesmo se os altero aquando da sua aplicação para determinada correção. A ideia inicial vou lá buscar e depois ajusto ao aluno que tenho á frente." (Mathews)

3.4.6. Recursos de ensino

Para além do acesso a um leque vasto de repertório, existem também outros recursos, nomeadamente a utilização de tecnologia por parte da docente. Esta é uma ferramenta que auxilia o ensino, pela introdução de feedback visual concomitantemente com os outros tipos de feedback que se utilizam numa aula de canto e que vai sendo progressivamente introduzida a nível de instituições de ensino europeias. Esta ferramenta de ensino já há muito tempo que é utilizada nos Estados Unidos, dado o maior número de docentes nesse país e maior aceitação de novos métodos de ensino.

"Ainda não está muito estabilizado e institucionalizado o uso de tecnologia na pedagogia vocal na Europa. Nos Estados Unidos, já se usa há mais tempo mas sempre foram mais rápidos neste contexto novo a mudar mentalidades. Existe uma enorme comunidade de professores e uma maior aceitação por parte de muitos docentes. Mas acho que a aceitação é cada vez maior e as pessoas continuam a aceitar a pouco e pouco. Existem muitas dúvidas mas já não se pode ensinar canto com método mestre-aprendiz." (Mathews)

3.4.7. Planificação e condução de aulas

Acerca da planificação e condução de aulas, esta docente refere que depende muito dos problemas que o aluno apresenta, se está a frequentar uma produção de ópera ou se necessita de maior apoio técnico. O ensino deverá sempre ser adaptado às idiossincrasias dos alunos e à situação em que este se encontra, de forma a ajudar na construção da confiança do aluno, que é um outro aspeto igualmente importante.

"Começo de diferentes formas dependendo do aluno semestre etc...Normalmente, combino sempre com o aluno o que fará na lição seguinte. A primeira coisa que faço é perguntar qual a pergunta que o aluno me traz da sua sessão de estudo individual ou com o coach... Se estão a ter aula de tarde, não há necessidade de respiração, movimento, farei relaxamento...Se for por 20 minutos no meio do ensaio para acalmar e restabelecer confiança ...diferentes abordagens...com aula com piano, faço repertório...Mas se tiver duas horas e precisar de resolver outras questões, dispenso o pianista e trabalhamos isoladamente passagens. Concentrar numa unidade técnica e na aula seguinte concentrar em repertório com a técnica." (Mathews)

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