• Aucun résultat trouvé

Como e quando a concepção empreendedora incorporou-se no Brasil? Sustentado em Piotte, Santos (1980, p. 59) identifica que a estrutura material de uma ideologia, na ótica gramsciana, admite dois níveis essenciais: o nível da produção ideológica, a cargo da universidade e dos diferentes centros de investigação, e o nível da difusão ideológica, a cargo de várias instituições com o valor desigual, em função de sua capacidade de penetração e enraizamento nos vários grupos sociais. Segundo o autor, Gramsci aponta como principais meios de difusão da ideologia a organização escolar, a organização religiosa, o conjunto das organizações que se ocupam da impressão, os canais audiovisuais, os meios de comunicação oral, a arquitetura e o urbanismo.

Nesse sentido, no Brasil, as primeiras iniciativas concretas, de difusão ideológica da concepção empreendedora, inscrevem-se na esfera da sociedade civil. Segundo Dornelas (2001) o empreendedorismo ganha força no Brasil, pelo fortalecimento, na década de 1990, do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas - SEBRAE e pela criação da Sociedade Brasileira para Exportação de Software - Softex.

Antes disso, praticamente não se falava de empreendedorismo e em criação de pequenas empresas. Os ambientes político e econômico do país não eram propícios, e o empreendedor praticamente não encontrava informações para auxiliá-lo na jornada empreendedora. O Sebrae é um dos órgãos mais conhecidos do pequeno empresário brasileiro, que busca junto a essa entidade todo o suporte de que precisa para iniciar sua

empresa, bem como consultorias para resolver pequenos problemas pontuais de seu negócio. O histórico da entidade Softex pode ser confundido com o histórico do empreendedorismo no Brasil na década de 1990. A entidade foi criada com o intuito de levar as empresas de software do país ao mercado externo, por meio de várias ações que proporcionavam ao empresário de informática a capacitação em gestão e tecnologia (DORNELAS, 2001, p. 25).

Uma importante contribuição para difusão do discurso empreendedor foi a criação, na mídia brasileira, do programa semanal Pequenas Empresas Grandes Negócios - PEGN, veiculado pela Rede Globo de Televisão a partir de 1988, bem como da revista de circulação nacional, com a mesma denominação.

O público alvo é também o público personagem do programa - os pequenos e médios empresários e também os cidadãos que sonham com um novo projeto de vida para a família. Uma pesquisa realizada, na época, em São Paulo e no Rio de Janeiro, revelou que 60% dos entrevistados tinham o sonho de ter um negócio próprio. Reportagens feitas no Brasil inteiro mostram exemplos de brasileiros idealistas e empreendedores que venceram desafios e usaram a criatividade para criar pequenas e médias empresas. O PEGN mostra sempre o passo-a-passo de quem monta uma empresa, as oportunidades e os riscos (Pequenas Empresas ..., 2005).

A concepção da educação empreendedora demonstra seu vigor em termos de produção e difusão ideológica pelo grau de adesão de inúmeras instituições da sociedade civil e da sociedade política, em especial o espaço universitário10.

A disseminação do empreendedorismo, por intermédio das instituições de educação superior, ganha força com o lançamento, em 1998, pela Confederação Nacional da Indústria - CNI, o Instituo Euvaldo Lodi - IEL e o SEBRAE Nacional, do Programa REUNE - Brasil, com o objetivo de expandir a filosofia da rede universitária de ensino de empreendedorismo para todo o país, tendo como mentor intelectual do projeto o professor Fernando Dolabela.

10 Essa realidade está refletida no crescente número de Universidades e Instituições de Nível

Superior que iniciaram novas disciplinas ou programas relacionados ao tema, como a Fundação Getúlio Vargas - FGV (1981), Universidade de São Paulo - USP (1984), Universidade Federal de Santa Catarina - UNFSC (1992), Universidade de Brasília - UNB (1995), Pontifícia Universidade Católica - PUC - RJ (1996), dentre outras. De início, a produção de pesquisas relacionadas ao empreendedor estava inscrita nos campos da Psicologia, Engenharia, Ciências da Computação e Administração.

Dirigido às universidades o programa estará nos próximos anos em todas as regiões do país, disseminando a cultura empreendedora nos corações e mentes da nossa juventude e contribuindo para a formação de valores sociais importantes para o nosso desenvolvimento (grifos nossos) (DOLABELA, 2000, p. 91).

No âmbito do Governo Brasileiro, as medidas mais efetivas voltadas ao empreendedorismo e à formação de empreendedores podem ser exemplificadas pelo lançamento em 1999 do Programa Brasil Empreendedor.

Em 1999, diante da identificação de uma demanda crescente por mecanismos estruturantes, com vistas à sustentabilidade dos micro, pequenos e médios empreendimentos e à diminuição do alto índice de mortalidade desse segmento empresarial, à geração e à manutenção de postos de trabalho e renda, foi lançado, em 5 de outubro, pelo Governo Federal, o Programa Brasil Empreendedor (PBE), com o objetivo de fortalecer o desenvolvimento das micro, pequenas e médias empresas, buscando-se a inserção dos empreendedores no setor formal da economia, bem como o surgimento de novos negócios (Ministério do Desenvolvimento ... , 2005).

Outras iniciativas do Governo Brasileiro nessa direção foram o lançamento do Programa Sofstar, do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - CNPq (1999), do Programa Jovem Empreendedor (2004) - uma variável do Programa Primeiro Emprego do Governo Federal - e a criação dos programas Técnico Empreendedor (2002) e Educação Empreendedora para o Ensino Médio (2002), do Ministério da Educação.

De acordo com Dornelas (2001), pode-se reconhecer que o discurso do empreendedorismo recebe, desde a década de 1990, “especial atenção por parte do governo e de organizações da sociedade civil, para fazer frente às imposições da globalização” (p.15). Porém, questiona-se: em que base material estão organizadas as sociedades capitalistas, de forma a proporcionarem as condições para o aparecimento do discurso empreendedor que envolve o jovem?

1.4 Internacionalização do Capital: Transformações Tecnológicas, Novas

Documents relatifs