Henri Pousseur nasceu em Malmedy, na Bélgica, em 1929 e morreu no dia 6 de março de 2009, em Bruxelas. Estudou nos conservatórios de Bruxelas e Liége. Após entrar em contato com Pierre Boulez, o compositor passa a dedicar-se à música serial. (BONIS, 2014). Também esteve em contato com Stockhausen e Berio, compositores com os quais trabalhou com música eletrônica. Em 1955, Pousseur compõe a obra Scambi e, a partir deste momento, dedica-se a compor obras abertas (MASSIN 1997).
A composição L’ibericare, pelas suas características tanto de construção da partitura pelo intérprete, quanto ampla variabilidade na dimensão do resultado sobre um formato único como obra, na intenção de imprevisão em seu resultado final, pode ser considerada com uma obra aberta (ver página 20). Nesta proposta podem haver variações de duração, ordem e modo de execução, contudo, com momentos localizados para improvisação. A improvisação será limitada às indicações de execução da partitura e são de responsabilidade completa de elaboração pelo intérprete. A obra foi composta no ano de 1975, encomendada para o curso de verão
em St-Hubert por Gonzales Mohino, professor do Conservatório de Liège. A ideia seria criar algo desafiador para os jovens músicos (POUSSEUR, 1975). O título se refere ao mito grego de Ícaro29, e também parece remeter a sonoridade da palavra “ibérica”
relacionada à península de mesmo nome.
A partitura consiste em doze folhas, estas que serão organizadas em pares, seguindo algumas indicações de montagem. Esta montagem possibilita uma variedade de possíveis sequências e emparelhamento das folhas, não tendo uma estrutura única. Uma vez organizadas as folhas da partitura, segue-se algumas regras de execução, expostas em um esquema à parte com 7 “módulos”, denominado “Esquema de Execução30”.
Figura 8 - Tradução prévia do “Esquema de Execução”
Fonte: elaboração própria.
Para a montagem de uma partitura, composta de 12 folhas recortadas e um modo agrupamento segundo instruções específicas, a primeira ação foi a de realizar
29 A fim de fugir de uma ilha, Daedalus elaborou asas a partir de plumas e cera, a fim de escapar junto com seu filho Icarus. No entendo Icarus não observa a advertência do pai, e extasiado pelo brilho do sol se aproximando deste fazendo com que a cera que unia as penas derreta, causando sua morte ao cair no mar. (MORFORD; LERNARDON, 1999, p. 568)
30 A tradução adotada para “jeu” (do francês “jogo”, originalmente) para “execução”, se justifica pela capacidade de descrever melhor o sentido de “instruções para a performance”, contudo vale lembrar que na língua portuguesa não é possível ativar uma amplitude de sentido que abarque também a ideia de jogo, apropriado para a época e para a obra.
uma cópia reprográfica a fim de manter a integridade da partitura original e poder realizar os recortes solicitados.
Figura 9 - Preparo a partitura - Recorte
Fonte: elaboração própria.
Estes recortes na folha, que denominaremos “janelas”, assim como a bula da partitura indica, têm a função permitir que se visualize uma seção específica da folha que vai abaixo da primeira. Assim, respeitadas regras de união das folhas, existem ainda possibilidades múltiplas de montagem.
Figura 10 – Organização das folhas unidas
Fonte: elaboração própria.
Uma vez que as 12 folhas foram unidas em grupos de 2, foram gerados 6 pares com áreas vazadas (janelas) que se configuram em duas condições: 1) Janelas que vazadas que permitem a visualização de indicações de execução provenientes a folha que está por baixo; e 2) Janelas vazadas nas duas folhas, que, portanto, não apresentam indicações de execução escrita e devem ser realizadas improvisações quando indicada sua execução.
Figura 11 - Detalhe do recorte das janelas vazadas
Fonte: elaboração própria.
Para facilitar o manuseio das folhas, decidimos que uma forma prática seria uni-las com pregadores, estes que foram personalizados com a indicação de grupo de pares de folhas (de A a F), assim como uma indicação para o que foi determinado com “frente” (pintado) e “verso” (sem pintura).
Figura 12 - Detalhe dos pregadores marcados
Fonte: elaboração própria.
Uma vez que a virada das páginas é determinada por modos de execução próprios, descritos na bula, foi necessário inventar uma forma prática, de, ao mesmo
tempo poder rapidamente reconhecer os pares indicados, manter as folhas unidas e manipular os pares (em alguns casos para melhor fixação dos pares foi utilizada fita autocolante de dupla-face).
Figura 13 - Exemplo dos pares de folhas montadas para performance
Fonte: elaboração própria.
As folhas devem ser dispostas dentro do caderno de partituras fornecido, sendo que as laterais são destinadas ao conjunto de regras para a execução (“Esquema de Execução”). As indicações de organização dos seis grupos de folhas em dois blocos são feitas de tal maneira que, inevitavelmente, haverá uma presença progressiva de janelas que não possuem indicação alguma e, consequentemente, dão maior espaço para a improvisação.
As figuras que estão localizadas no lado esquerdo das folhas, indicadas por letras, representam o braço do violão, indicando a posição da mão esquerda. As linhas verticais representam as casas do violão e as horizontais as cordas, sendo que a escolha das cordas fica a critério do intérprete caso sejam quatro em número. O intérprete também poderá excluir quaisquer notas que não estiverem nas extremidades da figura, sejam elas cordas ou casas. Essa escolha pode acontecer durante a execução da obra, ou o intérprete pode criar e anotar os acordes com antecedência.
As figuras que estão localizadas à direita nas folhas, indicadas por números representam de que forma os acordes devem ser articulados.
As combinações de figuras do lado esquerdo com as do direito são determinadas pelo Esquema de Execução.
No agrupamento das folhas nos dois grupos finais, as janelas mostrarão a indicação presente na folha de trás. Quando não e esta ficar em branco, o intérprete deve escolher ele mesmo o acorde ou a articulação.
Para o estudo da obra foram desenvolvidos exercícios com o objetivo de estudar as suas especificidades, especialmente as partes que envolvem decisões do intérprete no momento da execução.
Observamos que a maior parte do material sonoro é constituído de acordes, que serão executados de acordo com as indicações das figuras representadas por números e pelo Esquema de Execução. Portanto, o primeiro exercício consistiu em selecionar as figuras correspondentes aos acordes e praticar a montagem e execução de cada um deles. Cada figura tem as suas possibilidades de montagem de acordes, por isso foram estudadas as possíveis combinações de notas que formam cada acorde. Em seguida, as figuras correspondentes aos acordes foram organizadas lado a lado, formando uma grande sequência de acordes. Estas foram estudadas desta forma, alterando a sequência com a mudança de ordem das figuras. Desta maneira excluímos a necessidade de escrever os acordes previamente, após a prática de uma resposta rápida à apresentação da imagem, formando um acorde de imediato no momento da interpretação, de acordo com as exigências do autor.
O segundo exercício consistiu em selecionar as todas articulações indicadas nas figuras à direita das folhas (representadas por números) e praticá-las
em um acorde fixo, com a duração de dois a quatro segundos cada. A execução delas foi determinada por ordem crescente de dificuldade, acrescentando elementos novos que não estão escritos na partitura. Uma vez praticadas em um acorde específico, foi selecionado outro acorde e em seguida outro, até todos os acordes terem sido praticados com todas as articulações presentes na obra, assim também com as novas articulações criadas durante os exercícios. Depois disso, o mesmo exercício foi feito com grupos de dois acordes, de três acordes, até chegar nos seis grupos de acordes que a interpretação da obra exige, mudando de um acorde para o outro sem uma ordem pré-estabelecida. Desta forma, explorando as possibilidades de combinações de articulações com os acordes.
O terceiro exercício consistiu em pegar todas as figuras e organizá-las lado a lado em dois grupos (um grupo de acordes e um grupo de articulações), de modo que ficassem todas visíveis ao mesmo tempo para improvisar sobre elas, alterando acordes e articulações e criando novos eventos sonoros, seja de articulação, de grupos de notas ou dos dois simultaneamente, mantendo a duração de dois a quatro segundos por evento sonoro. O objetivo, neste exercício, foi de explorar novas sonoridades, uma vez que todas as indicações da partitura estão visíveis, para poder selecionar os tipos de sonoridades criadas que mais se aproximam das propostas pelo autor.
O quarto exercício consistiu em pegar quaisquer materiais sonoros executados nos exercícios anteriores e praticar o exercício de flutuação de densidade proposto por Nunn (ver página 44), com o objetivo de analisar as diferentes sonoridades presentes na interpretação da obra.
O quinto exercício consistiu em seguir o Esquema de Execução sem fazer a leitura das figuras das folhas, criando figuras e articulações novas para cada momento. O objetivo neste momento é estudar o Esquema de Execução, juntamente com a tabela de mudança de páginas, que indica quais folhas serão viradas ou desviradas, do lado esquerdo e direito. A improvisação das figuras e articulações aqui foi feita para permitir que o foco esteja na leitura apenas do Esquema de Execução. Após a realização de todos esses exercícios, a obra foi executada integralmente.
Os exercícios contendo material improvisado e as execuções integrais da obra foram gravados para serem ouvidos posteriormente. No caso desta obra de Pousseur, as gravações foram usadas para a análise da execução da obra, para ajudar no aprimoramento da interpretação e para descartar articulações e acordes criados que não estavam de acordo com o restante da obra, como requerido pelo compositor.
Esta é uma obra que exige a participação do intérprete tanto na sua montagem como na execução. Embora as partes sonoras criadas pelo intérprete se limitem a pequenos trechos, consideramos que para a interação e integração destas partes com o restante da obra, exercícios de improvisação são importantes e eficientes para realizar uma interpretação coesa.