Primeiramente, para se ter uma compreensão mais aprofundada sobre a técnica de estranhamento, é preciso considerar basicamente três fatores determinantes. O primeiro fator diz respeito aos ―elementos de estranhamento” que compõe a obra, esses elementos são universais, e estão diretamente associados aos conceitos de estranhamento e seus desdobramentos, abordados nesta pesquisa. Esses elementos podem ser de cunho temático, ou um procedimento formal, como já descrito no primeiro capítulo. São, ainda, facilmente identificados em qualquer obra de arte, de qualquer linguagem ou estilo; ou em uma situação fora do campo da arte, ambos os modos, em maior ou menor grau. Entretanto, a presença de tais elementos não garante a estranheza da obra em si, ainda será preciso levar em consideração os outros fatores determinantes que compõem a análise.
O segundo fator de análise envolve a questão da ―subjetividade de interpretação‖ por parte do sujeito receptor. Este segundo fator está diretamente associado ao seu repertório de imagens e situações, e também a sua experiência de vida, pois, o que é ―estranho‖ para uma determinada pessoa, pode não ser, para outra. Esse fator também está relacionado com o fato desse elemento ser algo ―novo‖ para a vida de tal sujeito. Assim, tomamos, em consonância com o referencial teórico mobilizado, a novidade
como sendo um fenômeno universal de estranhamento. No entanto, quando ―algo novo‖, como uma obra de arte ou uma situação de vida, é muito exposto ao público, o seu caráter de estranhamento é diluído, o que faz com que esse ―algo‖, que outrora foi estranho e novo, se torne – muitas vezes – algo banal e cotidiano, já assimilado pelo expectador, principalmente para quem teve mais contato com isso. Se assemelhando com o que já foi citado na seção O estranhamento no dadaísmo, na qual se refere à repetição do efeito de choque.
Por fim, o terceiro e talvez mais determinante fator, de fundamental relevância para uma análise completa, diz respeito ao contexto no qual estão inseridos sujeito e obra; o entorno cultural em que estão inseridos os valores; signos e códigos culturais, que compõem o repertório coletivo de determinado grupo ou sociedade. A partir desse pensamento, o fenômeno do estranhamento é passível de se manifestar em qualquer obra de arte de todos os estilos, uma simples obra figurativa pode ser considerada estranha ou até mesmo um artefato não-artístico poderá ser percebido com nuances de estranhamento, tudo irá depender do contexto em que sujeito e obra estão inseridos. Pois, tal é a importância do contexto em uma análise, que é até mesmo questionável se ele englobaria ou não os outros dois primeiros fatores já mencionados.
Essa questão é visivelmente aparente na arte contemporânea, tendo em vista que até mesmo a definição do que é arte, e do que não arte, é definida pelo contexto em que está inserida a obra e não pelos elementos que a compõem, atribuindo assim ao contexto o fator de maior importância para sua análise. Logo, para se analisar a técnica de estranhamento através do contexto, é preciso fazer uma comparação, que se dá entre uma obra/situação com outras obras/situações, que representem uma linguagem caracterizada por ser a padrão daquele grupo, coletivamente convencionada. E o estranhamento irá ocorrer quando essa obra apresentar alterações a essa determinada linguagem padrão.
Todos esses elementos devem ser considerados para se fazer uma análise mais precisa, caso contrário, a obra analisada – mesmo contendo elementos de extrema estranheza – pode ser considerada ―não estranha‖; ou até mesmo o inverso: algo, aparentemente, inofensivo pode ser considerado extremamente estranho, quando analisado a partir de um contexto específico, isso irá depender da comparação daquela obra com as outras obras que compõem o cenário artístico na qual está inserida. Em resumo, não podemos afirmar com clareza se determinada obra possui ou não estranhamento sem analisar esses três pré-requisitos.
Gráfico 1 – Fatores de Estranhamento
Por fim, destacamos aqui outra questão que vale a pena ser abordada como um desafio recorrente nesta pesquisa, que diz respeito ao uso do conceito-chave: a singularização do objeto de Chklovski (1917), com o intuito de analisar obras de artes visuais, ou seja, imagens. Tendo em vista que este conceito pertence ao campo da literatura, portanto, e em tese, deveria ser utilizado para analisar textos literários, é coerentemente aceitável que a sua transposição para uso de outra linguagem artística, seja passível de questionamentos. No entanto, para justificar essa escolha, é preciso levar em consideração algumas características do próprio conceito e a existência de outros métodos de análise que são baseados no texto e analisam imagens com eficácia. Dessa maneira, o primeiro item que deve ser considerado é que na própria concepção do conceito de estranhamento há sugestões de que ele deve ser utilizado para campos que extrapolam a teoria da literatura, como cita Olga Guerizoli-Kempinska:
O ―estranhamento‖ é, finalmente, impensável sem o diálogo, livre e aberto, da literatura com uma outra linguagem, a da pintura, diálogo que naturalmente vai contra as pretensões sistemáticas e o rigor da teoria. (KEMPINSKA, 2010, p. 64).
Por se tratar de pontos de vista que estão inseridos em um contexto filosófico bastante abrangente – como a desautomatização, o reconhecimento do objeto como visão, o prolongamento do tempo de percepção através da obscuridade da forma, entre outros – o conceito de singularização do objeto, de Chklovski, é perfeitamente adequado para uma compreensão que vai à essência do procedimento.
Sujeito
Receptor
Contexto
Elementos de
Estranhamento
Para concluir, vale a pena, ainda, ressaltar também que o uso de um procedimento, proveniente do texto para analisar imagens, não é algo exclusivo da teoria do estranhamento. No campo de estudo da Semiótica, existe uma categoria que tem sua origem epistemológica e teórica na Linguística e na Antropologia européia. Ambas, em suas metodologias utilizam-se da análise e descrição dos discursos, para analisar textos de qualquer gênero e manifestações não verbais, como imagens e qualquer outra prática que contenha signos na sociedade, por isso se denomina Semiótica Discursiva. Essas conclusões reforçam a escolha da teoria da Singularização do objeto, de Chklovski, como sendo o procedimento básico do estranhamento e conceito-chave desta pesquisa.