A indagação sobre o entendimento que os trabalhadores tinham sobre vigilância da saúde gerou maior dificuldade de resposta, possivelmente porque estava relacionada a uma discussão teórica que nem todos os entrevistados tiverem oportunidade de realizar até então.
Para facilitar a manifestação de suas concepções, pedimos que refletissem sobre a experiência de trabalho com os programas de vigilância da saúde da criança, Prá-Nenê e Prá- Crescer, que eles já vivenciavam há bastante tempo dentro do serviço.
Apesar da equipe da unidade da UBS não ter passado por nenhuma capacitação sobre vigilância da saúde antes de iniciarem suas atividades na instituição, e portanto, não ter tido a oportunidade de refletir sobre essa questão dentro do serviço, muitos entrevistados procuraram fazer uma rápida reflexão sobre a sua prática de trabalho e relacioná-la ao que estava sendo perguntado.
A coordenadora falou, em sua entrevista, que vigilância da saúde era “botar o pé na lama, ir atrás de descobertas, entender como as pessoas vivem e porquê elas adoecem, é ver como as coisas andam e manter o controle sobre as pessoas”. Essa idéia representa, na prática, o que toda a proposta teórica desse modelo aponta, pois é preciso atuar a partir de uma outra forma de organização do trabalho, que coloque a equipe de saúde em contato com o lugar onde as pessoas moram, para que possam, a partir de um olhar sobre essa realidade, planejar as prioridades de trabalho.
Entender como as pessoas vivem e como se organizam para enfrentar a vida, ajuda a equipe a pensar sobre o enfrentamento dos problemas identificados. Pelo fato desse modelo atuar a partir do conceito positivo de saúde, que é qualidade de vida, a vigilância da saúde deve organizar uma resposta social para o enfrentamento desses problemas. Dentre suas estratégias de intervenção, essa resposta deve combinar três tipos de ações: a promoção da saúde, a prevenção das doenças e a atenção curativa (MENDES, 1996).
Na UBS investigada, as ações curativas e preventivas já faziam parte do cotidiano do trabalho da equipe. Ao desenvolver essas ações, os entrevistados apontaram a preocupação em desencadear ações educativas durante o atendimento individual. Disseram que mesmo não tendo atividades de grupo e espaço para atuar na perspectiva da saúde, ao olharem para a doença, procuravam fazer com que os usuários entendessem a necessidade dos cuidados recomendados. No entanto, para que a equipe pudesse atuar na perspectiva que estava sendo
colocada pela própria coordenadora, era necessário que se organizasse de forma a priorizar momentos para sair da unidade e “botar o pé na lama”. Essa atividade possibilita que os trabalhadores enxerguem a forma como vivem as pessoas, conheçam suas casas e possam organizar as orientações de saúde de forma mais articulada com a possibilidade de cada família.
A coordenadora da UBS era uma pessoa que conhecia o modelo de vigilância da saúde e com ele se comprometia. Parecia ser uma liderança positiva no grupo e procurava discutir a necessidade de trabalhar com esse conceito. No entanto, pode-se observar durante o desenvolvimento da capacitação, que apesar da equipe entender a necessidade desse tipo de trabalho, ainda havia muita resistência em realizá-lo.
É possível que a coordenadora tenha influenciado a maneira de pensar de grande parte da equipe no que se refere ao modelo de vigilância da saúde, pois de alguma forma, todos referiram que esse modelo estava relacionado ao cuidado das pessoas que moram no seu território de responsabilidade, ao acompanhamento, ao controle das doenças, ao trabalho em equipe, à investigação das doenças de notificação compulsória, a realização da vigilância sanitária e à proteção a saúde das pessoas. Falaram também da importância de organizar o trabalho a partir de dados epidemiológicos, pois eles possibilitam entender as condições de saúde da população e agir a partir desse diagnóstico.
Mendes (1996) enfatiza a importância das equipes de saúde atuarem a partir dos problemas e necessidades da população, pois isso possibilita que a população passe a compreender melhor quais os problemas que a atinge e, com isso, possam atuar positivamente sobre eles. No entanto, trabalhar nessa perspectiva exige o reconhecimento de que a sua distribuição e especificidade se dão assimetricamente no território, ou seja, no mesmo território existem grupos populacionais em situação de extrema pobreza, que vivem sem condições sanitárias básica e outros que já estão mais organizados e com condições de vida melhor. Em função disso, não basta identificar um território como potencialmente de risco. É necessário identificar dentro dele, quais os grupos que estão em situação de maior vulnerabilidade e fazer uma discriminação positiva desses grupos, priorizando-os no planejamento das ações de saúde.
Para atuar a partir dos problemas e necessidades de saúde, é necessária a reorganização dos serviços de saúde, conforme proposta da Conferência de Ottawa (WHO, 1986), organizando as equipes de saúde para atuarem a partir da oferta organizada dos serviços, que parta da realização de um diagnóstico de comunidade, onde sejam apontadas as ações prioritárias para aquele território.
Desde 1986, quando se rediscutiu o conceito de promoção da saúde em uma perspectiva mais ampla e relacionada à qualidade de vida, tem sido apontada a necessidade de reforçar a participação popular. Começou a ser discutida a importância da população se apoderar das informações para que essas pudessem fazer diferença nas suas vidas. Apoderamento é uma expressão que diz respeito ao “processo de aquisição de capacidades psicológicas e políticas, no plano individual e coletivo, que resulte na responsabilização progressiva sobre as condições de vida e na mobilização pelo bem-estar individual e coletivo” (TEIXEIRA; PINTO; VILASBÔAS, 2003, p. 35). Devido a sua importância, a participação popular e o desenvolvimento de habilidades pessoais acabaram sendo apontados pela I Conferência Internacional de Ottawa como campos de ação da promoção da saúde (WHO, 1986).
O desenvolvimento de habilidades pessoais deve ser capaz de possibilitar que as pessoas possam agir positivamente sobre sua própria saúde, responsabilizando-se por ela (WHO, 1986). Para tanto, é fundamental que se divulgue informações sobre como os indivíduos, famílias e grupos populacionais podem agir para melhorar a sua qualidade de vida e saúde (BUSS, 2003). Assim, cabe aos trabalhadores em saúde desenvolver processos de capacitação coletivos ou individuais com o objetivo de socializar as informações sobre saúde, partindo sempre da realidade em que vivem essas pessoas, de sua cultura e da possibilidade que elas têm de fazerem mudanças em suas vidas.
Para Brandão (2002), “a cultura configura o mapa da própria possibilidade da vida social”. Ela se traduz em valores e imaginários que representam a vida espiritual de um povo. Assim, não é possível realizarmos ações ou orientações de saúde sem levarmos em conta a cultura do grupo que com quem estamos trabalhando.
O pediatra da UBS, por exemplo, salientou que é importante ir ao domicílio investigar, pois é fazendo o acompanhamento de perto, que se consegue descobrir as condições ambientais e sanitárias daquela família. Sua fala procurou mostrar a importância de se conhecer quem é o usuário que freqüenta o serviço. Em seu atendimento individual, ele priorizava as crianças doentes, disse não ter condições de sair da unidade para realizar visita domiciliar. Mesmo assim, ao tratar de uma criança doente, relatou levar em consideração o universo daquela família para que as orientações prestadas pudessem atuar no sentido de melhorar a sua saúde.
Uma das auxiliares de enfermagem reforçou a fala do pediatra, apontando a necessidade de ouvir as necessidades das pessoas para, a partir desse diagnóstico, dar um atendimento diferenciado a cada um. Esse conceito é significativo, pois muito poucos
participantes mencionaram o planejamento de ações de saúde conforme a necessidade de cada um. Um dos focos da promoção e da vigilância da saúde é o conceito de equidade, que significa discriminar positivamente os grupos populacionais em situação de maior vulnerabilidade. Atuar nessa perspectiva significa desenvolver ações que objetivem reduzir as diferenças no estado de saúde das populações, dando mais atenção para quem precisa mais (BUSS, 2003).
O auxiliar administrativo, quando perguntado sobre sua concepção de vigilância da saúde, apontou a necessidade de vigiar não só as pessoas, mas o meio em que elas vivem. Talvez esse depoimento tenha sido o mais amplo entre todos os paticipantes, conforme se observa abaixo.
“Não basta cuidar das pessoas. Se tomarmos água infectada, prejudica a saúde. Se um peixe tem um problema, pode afetar a nossa saúde. Isso tudo tem que ser vigiado” (auxiliar administrativo).
Outra concepção que cabe salientar foi a da enfermeira, que referiu que a vigilância deve começar dentro da equipe, “com a união das pessoas”. Salientou a falta de capacitação da equipe para trabalhar de forma mais integrada.
A falta de um trabalho interdisciplinar e, portanto, integrado, foi referido por apenas um membro da equipe, o que reafirma a constatação de que muito poucas são as equipes que conseguem desenvolver a interdisciplinaridade e a intersetorialidade. Segundo Souza (1996), a interdisciplinaridade procura promover uma aproximação entre as diversas áreas do conhecimento e procura restabelecer as relações que se diluíram nos movimentos de fragmentação. Nesse exercício de ligar o que havia sido desligado, os trabalhadores da saúde poderão avançar em relação ao conhecimento de cada usuário, pois o olhar de cada um pode complementar o entendimento da realidade estudada. A intersetorialidade necessita da abertura de canais de negociação entre diversos setores da sociedade. A saúde deve planejar uma atuação articulada com os setores sociais, econômicos, políticos e ambientais (BUSS, 2003). Tanto a intersetorialidade como a interdisciplinaridade, necessitam de novos profissionais da saúde, qualificados para pensarem saúde não só como ausência de doença, mas como resultante das condições de vida das populações.
Conforme discussão realizada na 12a Conferência Nacional de Saúde (BRASIL, 2004, p. 115) “saúde se faz com gente, gente que cuida de gente [...]”. Assim, o trabalhador da saúde não pode mais ser visto apenas como um recurso humano. É necessário que haja investimentos na qualificação desse trabalhador para que ele passe a atuar na lógica do novo modelo de atenção proposto com o SUS, que é o da vigilância e promoção da saúde.