Na categoria que contempla a relação entre o processo de supervisão pedagógica e práticas de inovação curricular, da análise dos 16 relatórios das futuras professoras do 1.ºCEB depreende-se a importância que é atribuída ao papel ativo do aluno na sua aprendizagem. Este e outros elementos já explicitados na análise das categorias anteriores remetem para uma pedagogia
ativa assente em princípios de participação dos alunos (Brickman e Taylor, 1966; Freire, 2007; Dewey, 2010). A este propósito diversos relatórios expressam ideias como:
“nas atividades que desenvolvi tive sempre presente que a criança é detentora de inúmeras capacidades e desempenha um papel ativo na sua aprendizagem.” (RE II);
“As atividades foram planeadas e executadas nesta perspetiva [focadas nas crianças] com a finalidade de as tornar futuros seres autónomos, críticos e construtores do seu caminho de vida.” (RE V);
“Privilegiou-se também o método ativo que permitiu que as crianças explorassem, investigassem, partilhassem e criassem as suas próprias situações de aprendizagem.” (RE XIII);
“Procurei sempre utilizar pedagogias e estratégias diferenciadas em ambos os contextos, no sentido promover aprendizagens significativas e o sucesso desenvolver dos alunos” (RE IX);
Para além da notória importância atribuída à utilização de metodologias ativas, de recursos e de estratégias diferenciadas/os, são destacadas experiências promotoras de aprendizagens significativas, desenvolvidas a partir dos interesses dos alunos (Cortesão, 1982; Leite e Fernandes 2010):
“Todas as atividades que foram realizadas tinham sempre como objetivo principal proporcionar aprendizagens significativas aos alunos.” (RE III);
“Cada área foi ser planeada de modo a proporcionar atividades assentes nos interesses e conhecimentos das crianças e que estimulem uma aprendizagem significativa” (RE IV);
“As aprendizagens significativas, seja dentro da sala/escola ou fora, devem estar de algum modo ligadas às experiências, atendendo aos seus interesses e
necessidades. Mais uma vez é referenciada a importância do professor partir do que a criança já sabe, conhece e gosta.” (RE VI);
“Foi desafiante proporcionar a estas crianças um acompanhamento efetivo, assim como a compreensão pelos seus ritmos de aprendizagem e de desenvolvimento.” (RE X).
Ainda relacionado com o recurso a pedagogias ativas e com a diferenciação pedagógica as estagiárias referem também a importância de recorrerem a estratégias diversificadas, criativas e inovadoras:
“procurei sempre inovar e ser criativa nas atividades que desenvolvi para trabalhar os conteúdos programados…realizei jogos didáticos, visitas de estudo e trabalhos de grupo.” (RE I);
“durante o estágio trabalhei com materiais diferentes para que pudesse proporcionar novas aprendizagens às crianças, sendo uma maneira de, no 1ºCEB, diversificar as aprendizagens” (RE VII);
“recorri à metodologia de projeto, a instrumentos de avaliação, como os portfólios, ou mesmo a grelhas de avaliação da leitura, entre outros, e também a uma constante diversificação dos recursos e materiais utilizados” (RE XII);
Apesar da tónica nas vantagens das aprendizagens centradas nos discentes, alguns relatórios fazem referência a dificuldades na implementação de pedagogias promotoras de aprendizagens significativas no contexto de estágio em 1.ºCEB:
“No 1º CEB não foi assim tão fácil elaborar atividades que fossem ao encontro dos interesses das crianças” (RE I);
“durante o estágio deparei-me com algumas dificuldades em realizar as atividades de modo a que todos os alunos participassem ativamente….nem sempre as atividades planeadas foram cumpridas” (RE XIV);
Reconhecendo a existência de um currículo nacional, as estagiárias revelam fazer uso da sua autonomia relativa (Barroso, 2000) para criar espaços de inovação curricular. Exprimem, nesse sentido, ideias como:
“Apesar de haver um currículo estabelecido, o professor tem a liberdade de o desenvolver, pois estas são apenas orientações que ajudam à planificação da prática educativa, no entanto cada professor é o gestor da sua turma e definirá para os seus alunos os objetivos mais adequados àquele grupo em concreto.” (RE VIII);
“No decorrer de toda a prática, tentei fazer com que as (os) crianças/alunos aprendessem com a própria experiência, refletissem e procurassem alternativas para a resolução de determinadas questões e problemas. (..) ao adotar essa postura, pretendi que, tanto as crianças como os alunos fossem protagonistas da sua própria aprendizagem, desenvolvendo o seu pensamento e utilizando estratégias para a resolução de situações quotidianas problemáticas” (RE XVI). “a supervisora foi importante para me fazer sentir mais confortável na criação de atividades curriculares criativas e inovadoras ….sem esse incentivo ficaríamos mais presas ao cumprimento do programa”(RE V).
Estes discursos refletem uma visão ampla de currículo (Fernandes, 2005) e parecem apontar para uma conceção de professor como gestor curricular (Leite e Fernandes, 2010). Isto é, um professor que revela capacidade para, dentro das suas margens de autonomia, construir algumas práticas de inovação curricular. A ideia de inovação curricular aparece também associada à consciência profissional que as estagiárias parecem ter já desenvolvido quanto à importância de um aprofundamento contínuo dos seus conhecimentos para a melhoria das sua prática docente e desenvolvimento profissional (Day, 2001), na linha de ideias já referidas. Alguns relatórios exprimem ideias que podem ser situadas nesta linha argumentativa:
“Um profissional da educação […] tem que deter em si um sentido de procura incessante por novos conhecimentos, por novas pedagogias, por novas
metodologias que se podem adequar de melhor forma às suas crianças e aos seus alunos.” (RE I);
“O Educador/Professor deve basear a sua prática profissional no aprendido, na teoria, no conhecimento científico e nas diretrizes e orientações existentes. É importante que este seja dinâmico, interessado, criativo e inovador” (RE II); “Cada vez mais os professores precisam de aprofundar os seus conhecimentos…a sociedade está em permanente mudança e a escola e os professores precisam de acompanhar essas mudanças” (RE IV).
Interessante são também os dados que indiciam haver a intenção de as futuras professoras do 1.º CEB desenvolverem a sua prática pedagógica em estreita relação com as experiências e situações de vida dos alunos, criando condições para que estabeleçam uma melhor relação com os saberes escolares (Charlot, 2007). Esta intenção atravessa algumas reflexões expressas em alguns relatórios:
“Todas as práticas deverão ser intencionais e, partindo dos interesses das crianças e dos alunos, seguir uma lógica coerente e com significado para todos, relacionando as situações de aprendizagem e as atividades com os conhecimentos e vivências subjacentes à realidade particular do grupo e da turma. (RE XV);
“Qualquer educador/professor deve saber orientar a sua intervenção pedagógica e didática tendo em consideração os aspetos diferenciais de cada criança/aluno, respeitando os ritmos de aprendizagem de cada um, ao mesmo tempo que aplica as estratégias de ensino. A escolha de qualquer estratégia é condicionada pelo conteúdo a abordar, devendo ser estratégias inovadoras e desafiadoras para os alunos.” (RE XVI).
Ainda na linha das ideias antes referidas sobre pedagogias ativas e aprendizagens significativas, os relatórios apontam também para a defesa de
princípios de uma aprendizagem autónoma e emancipatória dos alunos (Freire, 2007):
“devemos sempre promover, fomentar e desenvolver, quer a autonomia dos alunos, quer a sua participação ativa nos processo de enino-aprendizagem (RE I);
“Os processo de ensino aprendizagem devem organizar-se de modo a que os alunos sejam participantes ativos e, assim, contribuírem para o desenvolvimento de diferentes competências, conduzindo a uma aprendizagem significativa e ativa” (RE II);
“O planeamento do ambiente educativo é muito importante para que os alunos possam participar nas atividades…ter os materiais dispostos de forma a permitir que as crianças sejam exploradoras e utilizem os espaços e os materiais colocados à sua disposição para que se tornem autónomas” (RE V);
“A autonomia, a cooperação, a curiosidade, o desenvolvimento afetivo, emocional e social foram sempre elementos presentes no desenvolvimento das atividades que realizei com as crianças.” (RE XIII);
Os excertos mobilizados dos relatórios evidenciam haver, por parte das estagiárias, uma intenção pedagógica de promoção de estratégias pedagógicas criativas e de inovação curricular. Fica também evidente que essa possibilidade é maior quando são utilizadas pedagogias ativas, reconhecidas por todas as estagiárias como essenciais para a promoção de aprendizagens mais significativas.
Ainda que tenham sido indicadas algumas dificuldades na implementação de pedagogias ativas, a análise dos relatórios aponta para a utilização de recursos variados, estratégias criativas, métodos diversificados e inovadores. Os processos de inovação surgem nos relatórios como formas de melhoria da ação docente com um destacado impacto nos princípios de promoção da autonomia.