Helena Cristina dos Santos de Araújo
Ministério da Educação e Ciência/Rede de Bibliotecas Escolares [email protected]
A colaboração é hoje entendida como a chave para o sucesso de qualquer organização e cada vez mais se assume como estratégia fundamental na educação porque se considera que o trabalho colaborativo facilita o sucesso das aprendizagens. A reflexão sobre a temática do trabalho colaborativo é, por isso, fulcral para que se implemente nas escolas portuguesas uma cultura colaborativa, de forma continuada e concertada, imprescindível para a melhoria das aprendizagens dos alunos. Mas também está provado que os resultados de aprendizagem dos alunos são fortemente influenciados pelo papel das bibliotecas escolares. Haycock (2004) afirma que há uma forte ligação entre o desempenho/sucesso académico dos alunos e o apoio dado pela biblioteca escolar, fundamentalmente quando o professor bibliotecário colabora com os outros professores. No entanto, muitos são os desafios que se colocam às escolas, aos professores e às bibliotecas escolares para realizarem um verdadeiro trabalho colaborativo e não são muito numerosas as práticas colaborativas de sucesso em Portugal. Este estudo vem tentar ajudar a ultrapassar estes desafios, promovendo uma reflexão a partir de uma análise das conceções e das práticas colaborativas de um grupo de professores e que estão diretamente relacionadas com o desenvolvimento de projetos de leitura que estão implementados nas suas escolas.
Assim, os objetivos deste estudo foram: conhecer as conceções dos professores sobre colaboração, identificar práticas de trabalho colaborativo, analisar o papel do professor bibliotecário no desenvolvimento do trabalho colaborativo e analisar o impacto que os projetos de leitura têm no desenvolvimento do trabalho colaborativo. Esta investigação tomou a forma de um estudo de caso que decorreu, em simultâneo, em três escolas de um mesmo concelho, e os métodos de recolha de dados utilizados foram o inquérito por questionário, o inquérito por entrevista e a análise documental.
A revisão da literatura procurou fundamentar os vários eixos temáticos do estudo. Tomou-se como suporte teórico principal:
• Sheperd (2004), para a definição de colaboração - para este autor a colaboração pressupõe uma relação complexa e exigente porque exige metas comuns, um planeamento estratégico, projetos com repercussões a longo prazo, riscos e responsabilidades comuns e recursos e benefícios partilhados;
• Loertscher (2000) e Montiel-Overall (2005), relativamente aos modelos de colaboração docente - estes autores procuram classificar a colaboração que se estabelece entre os professores e os professores bibliotecários, perspetivando uma evolução gradual nas relações de trabalho que culmina num modelo em que tudo é feito em comum, desde a planificação, a execução das atividades e a avaliação;
• Gomes (2007) e Schroeder (2010), quanto à ideia de “cultura de leitura na escola” - Gomes (2007) considera que as escolas comprometidas com a literatura apostam na biblioteca escolar e empenham-se em promover projetos de promoção de leitura consistentes e duradouros, contando com o apoio de toda a comunidade docente enquanto que Schroeder (2010) reforça o papel das bibliotecas escolares na criação de culturas de leitura e salienta o papel do professor bibliotecário no estabelecimento de relações colaborativas com os outros docentes;
• Neves et al (2007), na definição de projeto – consideram que o projeto é a linha mais operativa de intervenção e envolve recursos humanos que interagem para atingir objetivos comuns;
• Prole (s/d) e Osoro (2002), quanto aos princípios metodológicos dos projetos de leitura - os projetos de leitura devem ser diversificados e ocorrer em contextos distintos mas devem ser desenhados com rigor, obedecendo a critérios, estipulando objetivos, estratégias e processos de avaliação;
• Ponte (1992), para a noção de conceção - defende que as conceções são cognitivas e atuam como filtros, refletindo-se nas dinâmicas que se imprimem ao ensino.
As conclusões deste estudo apontam tanto para as práticas como para as conceções dos professores em torno das relações colaborativas. No geral, os resultados obtidos revelam que os professores possuem uma conceção de colaboração pouco esclarecida, o que pode condicionar as suas práticas. As conceções dos professores sobre colaboração são muito marcadas, negativamente, pelo desgaste profissional, excesso de burocracia e sentimento de desvalorização da profissão. Pela positiva, os professores consideram fundamentais as boas relações
interpessoais, o envolvimento de todos nas decisões e a existência de um propósito comum. Quanto à biblioteca escolar, a conceção geral revelada é a de que esta é um elemento agregador das atividades que se realizam na escola e um “centro de cultura” porque é na dinamização de atividades de cariz cultural e artístico que se destaca. Os professores colaboradores fazem uma apreciação muito positiva do trabalho realizado pela biblioteca escolar e consideram que esta desenvolve um trabalho sistemático na promoção da leitura, envolvendo a comunidade escolar e fornecendo recursos. Também percecionam como muito positivo o papel da biblioteca escolar na coordenação do projeto de leitura. No entanto, ainda colocam o trabalho que realizam com a biblioteca a um nível de colaboração do tipo de “Cooperação parceria” (Montiel-Overall, 2005), pois a maioria dos inquiridos considera que a biblioteca escolar e os docentes planificam atividades em parceria mas não as avaliam conjuntamente.
As práticas assinaladas como recorrentes coadunam-se com as conceções dos professores relativamente às bibliotecas escolares que são vistas como “centros de cultura”. As práticas relacionadas com a utilização das novas ferramentas tecnológicas não ocorrem de modo significativo nestas escolas. Cabe ao professor bibliotecário propor atividades de articulação curricular e estas estão, normalmente, integradas nos projetos de leitura e tiram proveito da transversalidade da leitura. Não há uma planificação conjunta da atividade, desde o seu início. As atividades preparadas a partir de um tema comum são apontadas como facilitadoras do trabalho colaborativo e estão quase sempre relacionadas com a leitura e atividades promovidas pelo Plano Nacional de Leitura.
Em conclusão, nas escolas que participaram neste estudo, os projetos de leitura são reconhecidos como potenciadores do trabalho colaborativo, considerando-se que estimulam o envolvimento dos alunos nas atividades e se assumem como eixos centrais de um conjunto de práticas que unem os professores em torno de um objetivo comum. No entanto, o conhecimento mútuo dos parceiros, a estabilidade do corpo docente, o apoio das direções e o tempo de implementação dos projetos são considerados fatores essenciais para que se estabeleçam relações colaborativas nas escolas.
Referências
GOMES, José António (2007). Literatura para a infância e a juventude e promoção da leitura. Acedido em 18 de novembro de 2010 em http://www.casadaleitura.org/portalbeta/bo/documentos/ot_litinf_promleit_a.p df
HAYCOCK, Ken (2004). What Works: research about collaboration. TL Magazinee, vol. 31, nº 3. Acedido em 2 de novembro de 2009 em http://www.teacherlibrarien.com/tltookilt/what_works/works_v31_3.html LOERTSCHER, David (2000). Taxonomies of the School Library Program.Salt Lake
City, UT. HiWillow Research & Publishing.
MONTIEL-OVERALL, Patricia (2005). Toward a theory of collaboration for teachers and librarians, in American association of school librarians, 8. Acedido em 19 de fevereiro de 2010 em:
http://www.ala.org/ala/aasl/aaslpubsandjournals/slmrb/slmrcontents/volumP82005/t heory.htm
NEVES, João Soares; LIMA, Maria João e BORGES, Vera (2007). Práticas de Promoção da Leitura nos Países da OCDE. Lisboa: Ministério da Educação OSORO, Kepa (2002). Biblioteca escolar y hábito lector. Acedido em 7 de novembro
de 2010 em
http://www.cesdonbosco.com/revista/revistas/revista%20ed%20futuro/EF2/bibliotec a_escolar.htm
PROLE, António (s.d.). Como fazer um Projecto de promoção da leitura. Acedido em
7 de novembro de 2010 em
http://www.casadaleitura.org/portalbeta/bo/documentos/manual_instrucoes_p rojectos_a_C.pdf.
SHEPHERD, Murray (2004). Library collaboration: What makes it Work? University of Waterloo, Canada. Acedido em 7 de março de 2010 em http://www.iatul.org/doclibrary/public/Conf_Proceedings/2004/Murray20Shepe rd.pdf
SCHROEDER, Nancy K. (2010). Developing a culture of Reading in middle school: what teacher-librarians can do. Acedido em 15 de dezembro de 2011 em http://elementaryed.ualberta.ca/en/GraduatePrograms/CappingInformationEDE L900/~/media/elementaryed/Documents/GraduatePrograms/Capping_SampleP aper_Schroeder.pdf
COMPETÊNCIAS PARA O CONTEXTO TECNOLÓGICO-MUSICAL: UM FOCO