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D. Les plantes et les fleurs

2. Emplacement

Ao se falar de viagens não se pode deixar de citar um dos elementos que mais impactam sobre gostar ou não do lugar visitado: o outro. Para descobrir e tentar compreender o espaço de outras culturas, o jornalismo de viagens tem aspectos em comum com outro campo de estudos, a etnografia. Esta relação pode ser definida visto que “o jornalismo de viagem ao se considerar que é herdeiro direto dos relatos de expedições produzidos pelos viajantes durante os séculos XV e XVI, tal qual a etnografia, objeto da Antropologia” (Bernardo & Bonfiglioli, 2011, p. 507). O olhar do desbravador pode ser visto por ambos estudos, que podem vir a se complementar. Geertz (1989) apresenta a visão teórica da etnografia ao salientar que “segundo a opinião dos livros-textos, praticar a etnografia é estabelecer relações, selecionar informantes, transcrever textos, levantar genealogias, mapear campos, manter um diário, e assim por diante” (p. 15). É possível estabelecer relações entre as ações citadas por Geertz com a prática jornalística, principalmente com a especialização em viagens. O jornalista especializado em viagens precisa de contatos e de se relacionar com os nativos para poder compreender como funciona o lugar, assim como o que está previsto para os antropólogos sobre a etnografia. Da mesma forma, ambos observam o ambiente e o descrevem.

Os jornalistas “atribuem sentidos e significados aos fatos. (...) Esses profissionais são parte da sociedade, partilhando visões de mundo que os ajudam a estabelecer padrões de normalidade e anormalidade, de certo e errado” (Silva & Fonseca, 2011, p. 191). A partir desta perspetiva, ao viajar, os jornalistas que escrevem sobre viagens podem acabar por retratar uma sociedade diferente daquela a que pertencem. Por este motivo, o olhar etnográfico pode auxiliar na compreensão do outro.

O antropólogo observa o que acontece ao seu redor e busca não interferir nos acontecimentos. A partir desta observação, a etnografia “percebe, então, a complexidade de qualquer atividade cotidiana, a partir da visão dos próprios atores sociais. Mais do que conclusões precipitadas,

aprecia-se a descrição, o sutil de realidades particulares. Depende, antes de tudo, de uma ampla dedicação ao campo” (Marin, Hueb & Neves, 2011, p. 136). O pesquisador não quer invadir e desbravar o território, ele quer apreender cada detalhe, mas sem interferir no que acontece ao seu redor.

Se tanto no campo jornalístico, quanto antropológico “explora-se, sobretudo, a construção de um determinado olhar sobre o outro” (Bernardo & Bonfiglioli, 2011, p. 507), a especialização em viagens pode utilizar recursos da etnografia para produzir conteúdo para este nicho. Os

media constroem recortes do cotidiano, criando retratos das culturas.

Todos os dias os meios de comunicação nos convidam a refletir sobre os comportamentos humanos a partir de discursos (com status de verdade) oriundos de instâncias de poder e de saber que, sobretudo, nos indicam a existência de um padrão social que serve de parâmetro sobre o que se convenciona como normal, sadio, natural e legítimo nos comportamentos, corpos, identidades sociais, etc. (Silva & Fonseca, 2011, p. 184)

Em relação ao turismo, ao mesmo tempo em que os veículos têm mecanismos para descrever outras culturas, “os meios de comunicação – incluindo aqui o jornalismo, especificamente o de viagens – contribuem para construir e reforçar no imaginário do consumidor os estereótipos e referenciais culturais dos destinos turísticos” (Bernardo & Bonfiglioli, 2011, p. 517). Para modificar este viés, o jornalista pode utilizar recursos etnográficos para tentar retratar com mais precisão a cultura do outro e não ser lembrado por vender destinos turísticos.

Alguns elementos podem ser aplicados nesta relação entre esta área de estudo da antropologia e o jornalismo visto que

a etnografia exige um olhar criterioso na relação entre autor e objeto, pois o processo de imersão social, a princípio, parece violar o conceito de objetividade na construção dos textos. No processo de investigação etnográfica, há uma inevitável troca intersubjetiva entre pesquisador e objeto. É importante que o discurso jornalístico, neste sentido, seja capaz de apreender o real, sempre perpassadas pelas questões relativas ao que o jornalista deve observar. (Venâncio, 2012, p. 5)

Diferente da abordagem etnográfica, o jornalista pode não ter todo o tempo necessário para imergir em uma cultura para descrevê-la com a riqueza de detalhes que um antropólogo atinge após passar anos imerso. Em relação à objetividade, “os jornalistas são incitados a manter alguma distância social e emocional entre os indivíduos ou grupos dos quais descrevem” (Venâncio, 2012, p. 9). Desta forma, é papel do jornalista observar as particularidades e filtrar o que será veiculado.

Neste sentido, o jornalismo especializado em viagens pode utilizar as abordagens prescritas pelo jornalismo etnográfico. Esta corrente dos novos jornalismos “não se resume a um simples relato literário, trata-se de uma verdadeira impressão na realidade complexa de um grupo ou indivíduo. O foco parte não somente do contexto simbólico, mas revela um universo concreto, composto por pessoas concretas” (Venâncio, 2012, p. 11). Por retratar o outro, o jornalismo de viagens também se encaixa neste contexto.

Assim como a etnografia, o jornalismo etnográfico também pode precisar de longos períodos de imersão. “Tipicamente, os dados são coletados durante diversos dias, mas em determinados casos, os etnógrafos devotaram anos a coletar informações. (...) para que o mesmo possa compreender inteiramente o porquê um grupo ou indivíduo faz o que faz” (Venâncio, 2012, p. 8). Enquanto no jornalismo etnográfico ainda é possível que o repórter consiga mais tempo para observar, o conteúdo da especialização em viagens pode ter um período menor de imersão. Depende da duração da viagem que o jornalista realizou e do material que obteve.

Desta maneira, o jornalismo de viagens pode utilizar recursos da etnografia, mas não desempenha a mesma função. “O que se identifica, na realidade, seja nos relatos de viagens diversos, na Antropologia e no jornalismo de viagem, é a produção de narrativas híbridas, onde distintos universos dialogam entre si” (Bernardo & Bonfiglioli, 2011, p. 518). Assim, este jornalismo especializado não obtém o mesmo resultado que o jornalismo etnográfico, podendo fazer uma aproximação ao trabalho realizado, de modo a direcionar o olhar e a observação realizados pela antropologia e pelo jornalismo etnográfico.

Para além de conter características etnográficas, o jornalismo de viagens também pode contar com um estilo literário na forma na apresentação do conteúdo. São métodos diferentes que se complementam e tornam únicas as peculiaridades desta especialização jornalística.

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