2.4 A la d´ecouverte des pulsars ´emettant continuement une onde radio :
2.4.3 Empilement des donn´ees brutes
Em 1994 foi constituída, por iniciativa de Organizações Não Governamentais internacionais que atuam em Moçambique, a LINK – Fórum das ONG’s de Moçambique na altura eles contavam com 150 instituições cadastradas. Segundo estudo realizado em 1997, naquele ano cerca de 400 organizações não-governamentais das quais 180 estrangeiras atuavam no país (Ribeiro e Cunha, 2014). Dados recentes da JOINT – Liga das ONG’s de Moçambique dão conta de 1.540 instituições cadastradas junto a associação. O papel destas ONG’s em Moçambique é de extrema importância, principalmente no apoio às populações mais desfavorecidas, mas apesar de ser um problema de saúde pública e que afeta milhares de mulheres não existe no país nenhuma instituição que trabalhe especificamente com as vítimas da fístula obstétrica. Algumas instituições moçambicanas vinculadas ao Fórum Mulher106 trabalham com determinantes culturais e sociais que contribuem para ocorrência
das fístulas obstétricas, entre eles o casamento prematuro e a gravidez na adolescência.
Fotografia 21 – Marcha contra a violação dos direitos humanos no código penal promovida pelo Fórum Mulher – Maputo/2014.
Fonte:Foto extraída do site: https://pt.globalvoices.org/2014/03/28/mocambique-activistas-prometem-
prosseguir-mobilizacao-pelos-direitos-das-mulheres-e-criancas/
106O Fórum Mulher, é uma rede da Sociedade Civil, sem fins lucrativos, fundada em abril de 1993 que congrega
várias organizações comprometidas com a defesa dos Direitos Humanos das Mulheres e Igualdade de género, a partir de uma perspectiva feminista.
Em países como Somália, Quênia, Etiópia, Ruanda, Namíbia e Serra Leoa a ONG
Health Poverty Action vem trabalhando para fortalezar as pessoas pobres e marginalizadas
em sua luta pela saúde, em especial as mulheres com fístula obstétrica. Um bom exemplo foi a capacitação de 28 mulheres que se curaram da FVV transformando-as em agentes educadoras, elas viajam para comunidades isoladas e repassam seus conhecimentos a outras mulheres, com o objetivo de diminuir o estigma sobre a doença (Health Poverty Action, 2011). Trabalho semelhante também vem sendo realizado pela ONG Mercy Ships que capacitou 112 mulheres, em países como a Guiné e o Congo. Em Moçambique, apenas uma ONG se dedica a questão da fístula, estamos falando da WLSA - Mulheres e Lei na África Austral107, uma organização feminista que orienta suas atividades e discursos na defesa dos
direitos humanos das mulheres e que atua em parceria com o Estado moçambicano e a UNFPA.
Para reduzir a incidência dos casos de fístula obstétrica o Ministério da Saúde desenvolve um trabalho em parceria com as organizações não governamentais e líderes comunitários para divulgarem junto as comunidades, usando, algumas vezes o rádio para tratar do assunto (Jornal @ Verdade – 11/10/2011). Estas parcerias já são previstas na Estratégia Nacional de Prevenção e Tratamento de Fístulas Obstétricas (MISAU, 2012) que prevê atuar em cooperação com a sociedade civil de forma a informar e educar líderes comunitários, parteiras tradicionais, praticantes de medicina tradicional, mulheres gravidas, adolescentes e jovens em SSR – Saúde Sexual e Reprodutiva, através de pessoal da saúde e dos meios de comunicação (rádio, TV, jornais) nas diferentes línguas nacionais com vista a reduzir a incidência da Fístula Obstétrica e a descriminação com as mulheres que tem a doença.
Podemos citar como exemplo destas ações as capacitações de jornalistas das regiões do centro e norte do país promovidas pela WLSA sobre direitos sexuais e reprodutivos, em que além de temáticas envolvendo os direitos das mulheres, também foi abordada a questão da fístula obstétrica. O principal objetivo com a capacitação era contribuir para que
107A WLSA é uma organização não governamental fundada em 1989 que desenvolve pesquisas sobre a situação
dos direitos das mulheres, em sete países da África Austral, entre eles Moçambique. Tendo como objetivo contribuir para identificar e disseminar os contextos favoráveis, as áreas críticas e os obstáculos no que respeita à igualdade de direitos e oportunidades entre mulheres e homens no país, propiciando a mudança na lei e nas políticas públicas, no acesso e administração da justiça, e nas práticas sociais.
a informação sobre a F.O. chegasse as mulheres afetadas pela doença, bem como informação sobre a possibilidade de tratamento e os locais aonde se devem dirigir.
E foi por isso que organizamos está capacitação para munir os jornalistas de conhecimentos sobre a gravidade da fístula obstétrica, bem assim de outros relacionados com os direitos da mulher e legislação em vigor atinente à matéria. Maria José Arthur – Socióloga (Jornal de Notícias - 24/08/2013).
A participação dos jornalistas nas capacitações promovidas pela WLSA, fez com que os médicos cirurgiões de fístula sejam corriqueiramente convidados a dar entrevistas para rádios, TV e jornais sobre a doença. Como a exemplo da participação do Dr. Hélder Miranda (HCB) num Workshop promovido pelo Fórum Nacional das Rádios Comunitárias em Moçambique – FORCOM em março de 2014.
Pude testemunhar na Província de Nampula o alcance dos meios de comunicação, principalmente do rádio. Num país onde mais metade da população é analfabeta e apenas 20% das mulheres falam português (dados do Censo de 2007) a divulgação da campanha de cirurgias de fístula obstétrica foi feita na língua macua, falada pela maioria da população daquela província. Naquela semana mais de 200 mulheres procuraram tratamento no Hospital Central de Nampula, muitas delas relataram ter tido conhecimento da campanha através das rádios comunitárias. Caso semelhante aconteceu em campanha realizada no Hospital Central da Beira em 2011, conforme trecho extraído do texto “Omitidas - Mulheres com Fístula Obstétrica em Moçambique”:
Quatro mulheres apanharam um machibombo de Nhamatanda para a Beira, a 100 quilómetros de distância. Tinham ouvido na Rádio Moçambique que os médicos estavam a operar fístulas na Beira, durante uma campanha. Embora elas não constassem da lista da cirurgia, os médicos estenderam seu horário de trabalho para operá-las. As mulheres haviam escutado na Rádio Moçambique um programa em língua local da repórter Ilda Lourenço, que participara, na semana anterior, num curso de jornalismo sobre saúde sexual e reprodutiva organizado pela WLSA e o International Centre for Journalists/Knight
Foundation. - WLSA, 2011.
Durante esta mesma campanha cirúrgica realizada pelo MISAU no Hospital Central da Beira em 2011 as integrantes da WLSA aproveitaram para conversar com as pacientes que estavam à espera do tratamento, sobre os direitos das mulheres. Todas as palestras foram ministradas na língua chisena com ajuda de uma intérprete, conforme podemos observar
nos vídeos de divulgação no site da ONG108. Na ocasião também foram coletadas fotos,
entrevistas e imagens para confecção de material sobre a fístula obstétrica em Moçambique numa parceria com o MISAU e financiamento do FNUAP.
Fotografia 22 – Capa da brochura “Omitidas” publicada em 2011 pela WLSA.
Iniciativa parecida foi realizada pela ONG Health PovertyAction em Serra Leoa, que elaborou um livro só com figuras contando a história de Fatu, uma jovem que passou por um longo trabalho de parto antes de procurar assistência médica, os efeitos da fístula na sua vida, como decidiu procurar ajuda e a cura através da cirurgia.
Figura 07 – Ilustrações do livro “A História de Fatu” produzido pela ONG Health PovertyAction.
108 Vídeos disponíveis em http://www.wlsa.org.mz/pacientes-com-fistula-obstetrica-numa-animacao-com-
No caso de Serra Leoa o material vem sido utilizado pelas “Promotoras de Direitos”, mulheres que já passaram pela cirurgia de reparação e hoje estão curadas da fístula. Elas usam os livros para iniciar debates em mercados, escolas, igrejas, mesquitas e encontros comunitários. Em Moçambique o trabalho de transmissão e prevenção da FVV é feito pelas parteiras tradicionais e Agentes Comunitários de Saúde – ACS, elas conversam com as grávidas nas Unidades de Saúde para enfatizar a importância de realizar o pré-natal e procurar assistência médica no início do trabalho de parto.
Além deste livro, que é distribuído gratuitamente, a WLSA também confeccionou dois vídeos sobre a doença em Moçambique que se encontram disponíveis no Youtube, são eles:
Fotografias 23 e 24 - Imagens extraídas dos vídeos produzidos sobre Fístula Obstétrica pela ONG WLSA.
A minha vida com fistula obstétrica – Moçambique.
Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=X9OiT1Teazg
Alzira – Minha vida com fístula obstétrica
Apesar de estar preconizado como um dos objetivos da Estratégia Nacional de Prevenção e Tratamento das Fístulas Obstétricas em Moçambique a integração das mulheres curadas nas atividades de advocacia, Informação Educação e Comunicação – IEC e formação como Embaixadoras da Saúde Materna na Área de Prevenção das Fístulas Obstétricas (MISAU, 2012:19). Não existe nenhum trabalho junto às mulheres que foram operadas e curadas da Fístula, para atuação neste sentido. Uma das poucas é Alzira Salomão, paciente de fístula que hoje é um espelho para as mulheres que seguem buscando tratamento no Hospital Central de Maputo. Ela desenvolveu a fístula após um parto obstruído de uma semana no ano de 2003, na época tinha apenas 16 anos. Foi transferida para Maputo onde passou por seis cirurgias para reconstrução do reto, da bexiga com o apêndice, da vagina utilizando parte do intestino. De acordo com o Dr. Igor Vaz, Diretor do Serviço de Urologia do HCM este foi um dos casos de FVV mais complicados que ele já tratou. Hoje a nova bexiga está diretamente conectada a parede abdominal para que a paciente possa fazer auto algaliação. Ainda de acordo com o médico, este sistema ainda não é muito aceito em África, mas que em alguns casos é a única solução possível para tratar a fístula. Por este motivo, sempre que aparece um caso em que é necessário realizar esta técnica Alzira é convidada para ir até o HCM conversar com as outras pacientes.
Numa manhã, Maria, ao acordar, ouviu um anúncio na rádio comunitária, informando que as mulheres que padeciam de fístula deveriam ir receber tratamento no Hospital Central da Beira. Depois de ter sido operada com sucesso, a Maria ajuda agora outras mulheres tratadas à fístula a reintegrarem-se nas suas comunidades. Ela explica também às mulheres que vivem com a fístula sobre a possibilidade de se tratarem. - (UNFPA, 2012)
O trabalho de “formiguinha” realizado por Maria e Alzira é de extrema importância, já que muitas mulheres sofrem por anos com a doença sem saber que existe cura para fístula. Durante o trabalho de campo tive a oportunidade de conhecer A.C.N. (42 – Inhambane) que teve um parto arrastado de uma semana realizado em casa pela mãe e avó, o bebê nasceu morto e ela desenvolveu a fístula109. Sofreu durante 24 anos com a doença,
sem ao menos saber que estava doente, pois devido ao grande número de mulheres com esta condição na sua região ela acreditava que fosse normal perder urina
109 De acordo com o prontuário médico a paciente apresentava uma FVV complexa com destruição completa
descontroladamente após o parto. Só no ano de 2014 quando foi visitar parentes na capital é que foi alertada por familiares que a levaram para tratamento no HCM.