A exclusão digital não é causada apenas pela baixa escolaridade ou falta de literacia, assim como, não se limita à má qualidade ou falta de infra-estruturas e acesso físico a computadores ou outras tecnologias. Existem mais dimensões, algumas pouco perceptíveis, que impedem o desenvolvimento. Refere-se a uma exclusão involuntária; mensura a diferença entre os que estão e os que não estão habilitados para participar numa sociedade da informação e conhecimento (eEurope Advisory Group, 2005). O conceito de exclusão digital costuma estar associado à desigualdade no acesso à Internet que, sendo um requisito prévio para superar a desigualdade numa sociedade cada vez mais organizada à sua volta, por si não constitui uma solução (Castells, 2001). Para combater esta exclusão é necessário conhecer as suas dimensões; de que forma está instalada na sociedade e; criar formas para a superar. Na Tabela 9 são identificadas dimensões e a sua influência no acesso e utilização das às TIC.
Tabela 9. Dimensões da exclusão digital.
(Bagchi, 2005, Castells, 2001, eEurope Advisory Group, 2005, Guillén & Suárez, 2005, Huang et al., 2003, OECD, 2001, Warschauer, 2003)
Rendimento Quanto menor o rendimento pessoal ou familiar, menor é o acesso à Internet.
Educação Quanto mais baixo o nível de instrução, menor é o acesso à Internet. Esta dimensão está muito relacionada com o nível de rendimento: ao mesmo nível de rendimento, aqueles com um nível de educação mais elevado terão taxas mais elevadas de acesso.
Idade Quanto maior a idade, menor é o acesso à Internet. Embora possam existir excepções relativamente a grupos de baixa idade como acontece na Holanda e na França.
Etnia
Existe uma significante diferença de acesso através de grupos de diferentes origens raciais, étnicas e culturais. Estas diferenças podem estar largamente relacionadas com o rendimento e a educação. Alguns grupos étnicos alcançaram um nível considerável de acesso e utilização das TIC. Nos Estados Unidos da América, os afro-americanos e os hispânicos têm menos acesso à Internet quando comparados com os americanos de origem asiática e os brancos (com maior percentagem de acesso).
As disparidades no acesso e utilização da Internet não podem ser analisadas como uma simples divisão entre quem está «dentro» ou «fora», ou seja, quem utiliza e quem não utiliza os serviços disponibilizados on-line. Através das dimensões de exclusão digital apresentadas na Tabela 9, verifica-se existir uma complexa interacção entre vários níveis de diferenciação específica de factores que podem contribuir para exclusão digital (eEurope Advisory Group, 2005).
Como a Figura 4 sugere, estas dimensões ao permanecerem submersas numa sociedade desigual, onde as oportunidades prometidas pela sociedade da informação e do conhecimento não são alcançadas por todos como é desejado, transformam-se em barreiras desenvolvimento pessoal e das comunidades, reflectindo-se ao nível das nações.
Desemprego Os desempregados têm uma percentagem bastante reduzida de acesso à Internet relativamente às pessoas no activo. Cultura Aspectos culturais influência o acesso à Internet (e.g. as famílias asiáticas dão grande importância à educação dos filhos). Género Embora de forma pouco expressiva, na maior parte dos países, os homens têm mais acesso à Internet do que as mulheres. Constituição
familiar As pessoas casadas com filhos têm maior probabilidade de ter acesso à Internet do que os lares constituídos por solteiros ou não casados.
Geográfica
É mais provável haver acesso à Internet nas áreas urbanas do que nas zonas rurais. Os custos de acesso tendem a ser mais caros e de menor qualidade nas áreas rurais, a par com a tendência de existirem mais baixos rendimentos e o peso do custo das TIC ser mais pesado nestes grupos de reduzido rendimento.
Deficiência As pessoas com deficiência têm menos acesso à Internet.
Tecnologia
A multiplicação de dispositivos de acesso à Internet tem aumentado, contribuindo assim para a redução da exclusão (e.g. telemóveis). Mas por outro lado, o surgimento de acessos mais rápidos que a ligação telefónica, ainda estão pouco dispersos. O acesso ilimitado à Internet também influência a sua utilização.
Língua Obstáculo importante para os imigrantes recém-chegados, no caso da sua língua ser diferente da língua do país de destino. Não menos importante é a língua inglesa ter mais de 94% de links para páginas em servidores seguros (cerca de 2,9 milhões de links).
Literacia Com o desenvolvimento de uma economia baseada nas TIC, especialmente na Internet, surge a necessidade de novas competências e aptidões para se poder integrar e tirar proveito de uma sociedade baseada em informação e conhecimento (ver o ponto 2.3 deste capítulo).
Dimensão empresarial
Nas empresas, a penetração das TIC e o acesso à Internet variam em função do seu tamanho. Empresas mais pequenas tem menos tendência em investir em tecnologias e usar a Internet. Embora este comportamento esteja a diminuir, as empresas de maior dimensão têm maior propensão em realizar transacções mais avançadas e mais complexas.
Sector de actividade da empresa
As empresas diferem consideravelmente na utilização das TIC, dependendo do sector e ramo da actividade. As que pertencem aos serviços (comércio, comunicações, finanças e seguros) e o sector público (educação, administração pública e saúde) geralmente têm um nível mais elevado de penetração. Transportes e armazenamento, retalho e alojamento têm as mais baixas taxas de penetração, ficando o sector fabril aproximadamente a meio. As diferenças existentes entre as indústrias também estão relacionadas com a sua dimensão.
Infra-estruturas A falta de infra-estruturas em serviços básicos, como a electricidade, torna maior o fosso digital entre países ou mesmo em zonas dentro de um país. Confiança A confiança influencia os níveis de utilização da Internet num país. A falta de políticas que promovam o nível de confiança de um país pode contribuir para a divisão digital. Liberalização do
mercado das telecomunicações
Falta de liberalização do mercado de telecomunicações não permite a competição impedindo a redução de preços e a oferta de serviços de melhor qualidade, contribuindo assim para a divisão digital, limitando o acesso à informação e ao conhecimento.
Figura 4. Barreiras ao desenvolvimento da sociedade da informação e do conhecimento.
As pessoas que se defrontam com a exclusão digital situam-se num dos lados de um fenómeno que marca a diferença relativamente aos não excluídos: o lado errado da divisão digital. Divisão esta, suportada pelas dimensões da exclusão digital.
Existem factores novos, resultantes da dispersão das TIC que vão contribuir para a exclusão social e, por outro lado, a própria exclusão social vai contribuir para a exclusão digital, na medida das limitações das pessoas e empresas, de acordo com as dimensões acima apresentadas.