Quando se consomem substâncias psicoativas, de forma ritualizada ou não, geralmente se procuram efeitos provocados por esta ação. A crença dos consumidores de que, ao usarem determinadas drogas, encontrarão determinadas sensações subjetivas, não foge da lógica dominante na sociedade, baseada em causas e efeitos estritamente farmacológicos. Todavia, o que se observa é que os efeitos variam segundo as expectativas dos consumidores e de suas representações e sensibilidades grupais acerca dos produtos.
O usuário partilha da mesma lógica dominante de crença em causas e conseqüências, da idéia de que, se usar determinado produto, terá efeitos previstos; mas se diferencia ao não se pautar simplesmente numa lógica de custo e benefício, mas numa outra relação entre prazer e desprazer, ou melhor, entre o prazer e a ausência da dor ou do sofrimento. Enfim, pauta-se por uma outra lógica contrária à dominante, que opera e justifica a sua ação por outros valores que o levam na direção de uma atividade que traga satisfação e bem-estar, mesmo numa atividade considerada clandestina e marginal.
Alguns dos aspectos interessantes observados foram os diversos apelidos empregados para dissimular o nome da cocaína diante de pessoas que não a consomem. Na linguagem cotidiana e em forma de gíria, diferentes termos referentes à droga são empregados por pessoas distintas e nos mais variados circuitos e cenários sociais de uso. A cocaína, termo mais empregado, pertence ao gênero feminino e os consumidores são predominantemente homens. O mesmo ocorre com a cerveja, denominada de “breja”, “loira gelada”, e também consumida mais comumente por homens. A palavra “cocaína” geralmente pode ainda ser referida de forma ambígua, com outros termos, tanto no feminino como no masculino, e, também, como “coisa”, enquanto elemento indefinido, como se observa no inglês, por exemplo. Todavia, na língua portuguesa não existe o terceiro gênero, o indefinido, como no inglês. Por isso, são encontrados termos para “cocaína” tanto no masculino quanto no feminino, a exemplo das expressões “coca”, “pó”, “branca de neve”, “Bianca”, bright, etc.
poderia classificar como principais e secundários. Geralmente, a sociedade relaciona os efeitos subjetivos de um experimentador de drogas a uma causa única, à substancia psicoativa. Mas não se levam em consideração as representações destes consumidores, no papel desempenhado pela linguagem e pela cultura em modelar esta experiência, além da participação do contexto. É importante atentar para a causalidade multifatorial neste tipo de vivência, como seus aspectos individuais, biológicos, as expectativas e os estados psicológicos dos consumidores no momento do uso, além da construção simbólica dos grupos de experimentadores sobre experiência — o papel da auto-sugestão envolvida nos rituais sociais de consumo e mesmo na iniciação dos novos usuários.
Os efeitos da cocaína são apresentados como opostos aos da maconha. Enquanto a primeira produz uma sensação de velocidade, a segunda induz a uma diminuição do ritmo de vida. Por ser um estimulante, a cocaína eleva o ritmo da respiração e da ansiedade. Os efeitos são descritos como propiciando autoconfiança, poder e reforço do individualismo, deixando a mente em alerta e rápida. Para outros mais ansiosos, tem o efeito de parecer que “o coração está sendo posto para fora pela boca”. O uso de cocaína é combinado com o do álcool, principalmente destilado (uísque e conhaque), a “loucura” vai crescendo e os estímulos sexuais também — com muito “tesão” e bebedeira, e, por isso, muitos consumidores se expõem a situações de risco (HIV, violência, acidentes e roubos). A cocaína deixa as pessoas corajosas, intranqüilas e dispostas. Depois de uma noite inteira de “curtição”, aparece o sono e a pessoa sente a necessidade de relaxar. A maior parte dos usuários contatados, porém, afirmou não sentir nenhum efeito negativo com o consumo de tal substância, por isso a utilizam.
É importante referir os termos empregados pelos entrevistados que parecem se relacionar com uma certa performance de gênero em cada rede social. Numa rede de consumidores homossexuais freqüentadores do circuito GLS do usuário Pedro Otávio, observou-se que eles (pois predomina a presença de homens neste circuito) usam o termo de “Bianca”. Já os universitários heterossexuais utilizam a expressão “pó”. Não há, porém, elementos que possam demonstrar uma relação direta entre os termos e a orientação sexual dos
consumidores, embora se considere que começa a se estabelecer uma relação entre o consumo de cocaína e um certo ethos masculino, com diferentes expressões de virilidade. Mas tal consideração merece melhor observação e aprofundamento pelas futuras pesquisas etnográficas neste campo.
O que parece ficar evidente é que existe uma associação entre a masculinidade e os efeitos subjetivos — relatados pelos entrevistados. Eles revelaram que a droga em questão lhes proporciona sensação de poder, coragem para vencer a timidez, avidez para a competitividade, a agressividade e o individualismo. Estas características vão ao encontro de uma série de atributos conferidos ao masculino pela cultura de massa contemporânea. As relações de gênero neste universo, percebidas nos entrevistados, variam consideravelmente entre diferentes estilos e orientações sexuais. Um deles afirmou que os consumidores de classe média possuem uma moral aberta em relação às práticas sexuais: “Em geral, são pessoas ‘sem preconceitos’ em relação às preferências sexuais. Os que mais usam cocaína estão na faixa etária de 18 a 25, cuja freqüência é todo final de semana, e consomem 1g de cocaína por noite” (Nando, 45).
É consenso que a grande diferença entre o remédio e o veneno está na quantidade de substância ingerida, ou seja, é a dosagem que delimita os diferentes usos que uma substância possa ter. Desta forma, foi possível identificar, no grupo pesquisado, efeitos diferenciados segundo as dosagens, sendo que em pequenas porções os efeitos parecem ser “afrodisíacos”, com poderes de um estimulante sexual — efeitos inicialmente apresentados pelos estudos de Freud (apud BUCHER,1992, p.119). Comparada a das novas drogas, como o “Viagra”, a cocaína parece agir como um estimulante sexual na ordem do desejo, e não necessariamente no físico como aquele. Em grandes quantidades, a cocaína causa impotência passageira nos homens ou, quando não, retarda o tempo do gozo físico, como relataram os entrevistados.
A maioria dos consumidores observados é formada por homens, havendo apenas três mulheres, que repetidamente fazem alusão à cocaína relacionado ao desejo sexual, latente em torno do consumo. A maioria dos entrevistados, homens e mulheres, referiu que a cocaína influencia, de alguma maneira, o
comportamento sexual, estimulando o apetite sexual e o desejo, ativando o comportamento dos amantes e gerando mais excitação. Eles afirmaram, também, que perdendo a timidez, o usuário fica “mais atirado, mais sexual, acaba chegando nas pessoas com mais firmeza e segurança, a cocaína aspirada deixa o usuário no cio”.
Os entrevistados relataram a experiência de sentir “mais tesão”, mas isto não representa necessariamente “fazer sexo”. Em grandes dosagens, a maioria dos homens encontrou dificuldades para terem ereção, e algumas mulheres relataram a perda do desejo, por não ter condições de se concentrar, devido à dispersão de atenção causada pela substância.
Muitos relataram perceber nos rituais de consumo de cocaína, uma aura hedonista e orgiástica. Foram coletadas várias narrativas em que os consumidores declararam sentir prazer com este produto. Alguns tiveram a sensação de “gozar com a droga”, o que significa que o prazer vivido pelos consumidores é tamanho que não precisam, necessariamente, de um “outro(a)”, o que leva muitos a se desinteressarem em ter relações sexuais. Quando os efeitos estavam passando, porém, segundo alguns, se sentiam como “leão, muito afim de sexo”. Muitas pessoas, depois do uso, quando se encaminham para dormir, freqüentemente finalizam a noite se masturbando – a forma por excelência do gozo auto-erótico. Assim, na sociabilidade do uso, há traços de uma performance dionisíaca, centrada na idéia de prazer e nas diversas formas de êxtase, embora o uso de drogas também possa ser visto como um “gozo auto-erótico” (MELMAN, 1992, p.34).
7.2 TERRITÓRIOS, ESTILOS DE VIDA E REDES DE CONSUMIDORES DE