V. Experimental tools
4. Electrophysiology
O lançamento do Programa CsF não é a primeira iniciativa do Brasil de ir além de suas fronteiras para dar início a projetos de desenvolvimento científico e tecnológico internacionais, como já descrevemos na seção anterior. Outras experiências, desde o tempo dos governos militares, sugeriam que a qualificação no exterior trazia resultados significativos para o incremento da ciência e a tecnologia no Brasil, ainda que as políticas de internacionalização tivessem um caráter elitista e restritivo, principalmente com a influência norte-americana.
Antes do CsF, dados da CAPES mostram que essa agência já possuía uma crescente linha de ações voltadas para internacionalização, que se intensificou entre 2004 – 2012, ano de início das atividades do CsF no exterior. As bolsas de estudo eram concedidas nas modalidades individuais (de balcão), institucionais, vinculadas aos projetos ou convênios de
cooperação e de apoio pró-atividade a pesquisadores, conforme a progressão apresentada abaixo. Ademais, a CAPES vem ofertando, há certo tempo, bolsas para estrangeiros no Brasil e para a participação de pesquisadores em eventos internacionais.
Gráfico 1 – Bolsas ativas no exterior, programas e cooperação internacional, 2004 a 2012.
Fonte SISEL/DRI/CAPES. Relatório de Gestão 2012, p. 89
Para o governo federal, mesmo com maiores oportunidades de bolsas de estudo e a melhora nos parâmetros sociais e econômicos, decorrentes das políticas mais recentes, estamos longe dos países desenvolvidos em múltiplos aspectos: acadêmicos e tecnológicos. Ainda lidamos com a baixa proporção de doutores por habitantes e o distanciamento entre a academia, o setor empresarial e a sociedade civil. Além destes, é destacado que apenas um número limitado de pesquisas brasileiras tem alcance internacional, o número de patentes é baixo e a língua portuguesa, mesmo com um grande número de nativos no mundo, proporciona pouca interação no meio acadêmico e científico (BRASIL, 2011). O CsF se insere exatamente neste patamar de problemas brasileiros com o intuito de aumentar a visibilidade das atividades acadêmicas, científicas, tecnológicas, culturais, linguísticas e educacionais brasileiras, por meio da troca de experiências.
Nessa direção, o Programa CsF é justificado enquanto materialização das tendências e demandas atuais sobre o lugar e a função do ensino superior na produção do conhecimento globalizado. Assim, postulada pelos países centrais e pelo governo brasileiro como irreversível, a globalização força a nova sociedade (dita do conhecimento) a adaptar-se a fim de promover o desenvolvimento econômico nacional. Por meio do CsF, portanto, desenvolve- se a perspectiva de maior abertura das IES brasileiras à novos agentes para transportar conhecimentos e soluções de um contexto ao outro, de forma rápida.
0 2000 4000 6000 8000 10000 12000 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2977 3587 3965 4043 4135 4346 4958 6355 11504
Muito se divulgou na mídia brasileira sobre a primeira motivação do formato adotado pelo Programa Ciência sem Fronteiras29 ter sido instigado pelo presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, durante um encontro com a presidenta Dilma Rousseff, no Brasil, em março de 2011. Nessa visita, ele anunciou seus planos de enviar 100 mil estudantes norte- americanos à América Latina nos mesmos moldes do já existente programa One Hundred
Thousand Strong Initiative para a China e questionou a pequena quantidade de acadêmicos
brasileiros em universidades americanas. Quatro meses depois, a presidenta brasileira e o então Ministro da Ciência e Tecnologia, Aloizio Mercadante, lançaram o Programa CsF na 38º reunião do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES). A iniciativa foi apresentada aos EUA em visita oficial da presidenta Dilma à Washington DC, em abril do ano seguinte.
Cabe destacar que One Hundred Thousand Strong Initiative, programa federal dos Estados Unidos, já era atuante desde 2009 na China e, a partir de 2011, na América Latina. Trata-se de um projeto de financiamento público-privado que busca ampliar a presença de universitários norte-americanos no exterior. Embora existam incentivos governamentais para a aprendizagem de línguas estrangeiras e a mobilidade estudantil, os norte-americanos parecem não querer sair de casa. Para o país asiático, a iniciativa do presidente Obama busca diminuir o desequilíbrio na proporção de estudantes chineses nos EUA e de americanos na China, que é de 10/1, e de estudantes de inglês na China e de mandarim nos EUA, que é de 600/1. Para a América Latina, a iniciativa tenta ampliar ambas as direções, de entrada e saída, para alcançar a marca de 100 mil intercambistas, razão pela qual o CsF brasileiro despertou tanto interesse do governo Obama (VIEIRA; MACIEL, 2012).
As prerrogativas do aumento de brasileiros em universidades americanas são estratégicas e comerciais. Tentando sair da crise econômica desde 2008, a aposta americana, de acordo com o embaixador Shannon Jr., foi a de que os EUA recebessem entre 50 mil a 60 mil dos 101 mil estudantes selecionados para o Programa CsF e financiados pelo governo brasileiro com um custo médio de, pelo menos, U$ 50 mil por aluno. Assim, posiciona-se: ―Esse acesso tão amplo da próxima geração brasileira de líderes científicos e empresariais dá aos EUA a oportunidade de moldar o entendimento que esses estudantes têm do nosso país‖ (SHANNON JR, 2012). O embaixador afirma que a experiência com a educação internacional e os intercâmbios de jovens para os EUA mostra que os laços desenvolvidos durante os
29 Em inglês, o nome oficial do programa em uma tradução direta do português seria Science without Borders,
porém esta é uma marca registrada do Khaled bin Sultan Living Oceans Foundation, organização árabe não governamental para pesquisas e proteção dos oceanos. Para evitar o conflito, nos Estados Unidos e em outros países de língua inglesa, o programa comumente recebe a referência de Brazil Scientific Mobility Program.
programas de intercâmbio estudantil criam uma impressão duradoura e positiva do país. Essa construção de influência das relações internacionais por meio da educação (ou soft power30) é constantemente usada para garantir a segurança nacional americana.
Embora, de fato, as universidades e colleges americanos detenham o maior interesse dos brasileiros, apenas pouco mais de 27 mil estudantes viajaram para esse destino pelo CsF, representando 27% das bolsas de estudo implementadas, segundo o site do Programa CsF. Talvez o embaixador norte-americano não imaginasse no início do CsF, que outros 29 países fossem entrar na concorrência pelo financiamento brasileiro.
De acordo com o censo de educação internacional dos Estados Unidos, o Open Door
Report 2013/2014, do Institute of International Education – IIE, os brasileiros correspondem
a somente 2% dos estudantes internacionais na educação superior americana. Nesse Relatório, o negócio da internacionalização educacional vai muito além das salas de aula e dos laboratórios de pesquisa, movimentando a economia dos EUA em mais de U$ 27 bilhões nesse período. Setenta e quatro por cento desses estudantes recebem financiamento de fora dos EUA, incluindo fundos pessoais ou de suas famílias, de governos ou IES estrangeiras. Metade desses estudantes vieram da China, Índia e Coréia do Sul, sobretudo nas áreas de negócios e engenharia.
Esse Relatório aponta que a participação de estudantes brasileiros vem vertiginosamente subindo, de tal modo, que o Brasil está entre os dez países que mais enviam estudantes aos EUA atualmente, com 22,2% (precisamente 9.029 estudantes em 2012, contra 1.000 no ano 2000) e responsável por U$ 333 milhões de investimento em IES norte-americanas. O número de universitários americanos a vir para o Brasil também cresceu em 4%, nesse período.
O CsF, embora não seja o único meio de migração de estudantes brasileiros para os EUA, contribuiu significantemente para o aumento de matrículas em IES americanas. Para Spears (2014, p. 157):
Quando visto em um contexto global, é evidente que o Programa Brasileiro de Mobilidade Científica (CsF), destina-se a fornecer os laços do Brasil com o seu outro grande parceiro do hemisfério ocidental, os Estado Unidos, e outras economias nacionais no núcleo da economia política global (União Europeia, Austrália e Coréia do Sul, por exemplo). O programa de mobilidade também serve como um meio competitivo para melhor posicionar o Brasil contra os rivais asiáticos (China, Índia e Coréia do Sul) como um parceiro comercial mais forte dos EUA. A geografia, a língua e as tradições culturais ocidentais do Brasil são relativamente mais próximas
30 Soft Power (poder de persuasão e atração) e Hard Power (poder obtido por coerção, força e pagamento) são
conceitos elaborados por Joseph Nye Jr., em 2004. Neles há semelhanças com o conceito de Estado de Gramsci, pois o Estado não se impõe somente pela força, mas também pela ideologia e pela cultura, fenômenos sociais que se utilizam da escola como vetor na criação do consenso.
[...] posição favorável para atrair investimentos estrangeiros diretos, joint ventures, pesquisas e inovações bilatérias em ciência e tecnologia (por exemplo, petróleo)
Eric Spears analisa criticamente que há um padrão aí estabelecido de interdependência entre os países-núcleos e os membros do BRIC. Embora esses países-membros sejam aliados, também concorrem entre si para estreitar laços bilaterais com os Estados Unidos, neste caso, por meio do mercado educacional.
Essas análises também foram percebidas em nossa experiência de intercâmbio internacional nos Estados Unidos, em 2013. As universidades americanas estavam expandindo cada vez mais seus planos referentes à educação internacional para compensar cortes orçamentários resultantes da recessão de 2008. Desde então, as IES intensificaram a contratação de recrutadores que visitam instituições pelo mundo, atraindo estudantes e novos parceiros para fazer crescer esses números. Agências e associações voltadas para internacionalização da educação promovem feiras e missões internacionais para estimular o intercâmbio entre universidades, além de abrirem escritórios de divulgação em grandes capitais. Até mesmo os sites institucionais são articulados para colaborar na atração de estudantes no exterior com informações em diversos idiomas e destaque para bolsas de estudo. A internacionalização das IES americanas pareceu ser definitiva para a corrida pelas boas colocações nos principais rankings internacionais universitários.
Dessa forma, o Programa CsF torna-se um instrumento favorável não só aos interesses de desenvolvimento do Brasil no mundo globalizado, mas também aos propósitos de dominação econômica e cultural de outros países, com a mediação das instituições de educação superior.