Bala de Borracha
Se não ditadura, é o quê? a polícia batendo pro povo se calar. Tem coturno na cara por que?
escudo e porrete pro povo se cagar. Contradição que se vê, granada de efeito moral eufemismo tal que não desce
engolido no choro salgado. Que criança que cresce saudável
mamando violência do peito do Estado?
O exército vaia as ruas todos os dias. Mas hoje, olha só, quem diria: estão de volta os que nunca saíram. Só caíram uns nomes, uns títulos e uns mitos. Mas toda a sujeira, a poeira sangrenta, ficou no tapete. Quem deita na rede, quem deitado fica e quem dorme de touca na carnificina? Já não brilham os olhos da morta menina, semente futura de democracia. Quem anda com porcos, farelos disputa e chafurda na parca segurança pública, aplaude fantoches que escondem perucas. E o exército vai às ruas e executa – o exercício que sempre existiu trás-dos-muros. Dão murros com a ponta da faca na cara assustada das crianças pardas, nas bocetas pretas. Não tarda nem falha o rojão da escopeta, nem sequer se abala o feitor que passeia na relva de chumbo que o Estado semeia.
A princípio, o presente capítulo e o anterior estariam compilados em um só. Com o passar da escrita, o texto foi ganhando corpo e pedindo mais e mais laudas. Em solidariedade às possíveis leitoras e leitores, optamos por dividir a escrita em um ponto que consideramos importante tanto para a história do Brasil quanto para a demarcação da literatura periférica: o suposto fim do regime ditatorial e o princípio da provável redemocratização do Estado brasileiro. O corte abrupto da narrativa, estancada ao fim das palavras de Frei Betto, talvez tenha deixado uma sensação de inacabamento. Assim vem sendo feito na política brasileira. Em menos de cem anos, dois regimes militares. Como se fosse pouco, imploramos o terceiro. Reich social, outra guerrilha nacional pelo sem-fim das anteriores. Os coronéis mais matadores, aposentados, já senhores, viram nome de escola e praça, vivem nas placas das avenidas. Já é ditadura ainda.
Teoricamente, a ditadura militar brasileira encerrou suas atividades em 1985, como consta nos registros oficiais. Dali em diante, esperava-se que o desmonte das estruturas ditatoriais fosse a tendência natural para um processo de redemocratização. Muitos intelectuais, artistas e sindicalistas perseguidos pelo regime puderam voltar para casa e retomar os projetos que foram interrompidos. No ano de 1988 foi promulgada no Brasil a nova Constituição Federal, apelidada no senso comum de Constituição Cidadã por ser atenta aos princípios da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Ao elencar os direitos e deveres individuais e coletivos, o documento oficial de referência para a democracia brasileira pressupõe e estabelece a liberdade de expressão, como se lê no Artigo 5º, inciso IX: “é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença” (BRASIL, 1988, p.6). Mas termos os direitos constitucionalmente prescritos não implica diretamente que na prática os tenhamos garantidos de fato.
Testando os limites da liberdade de expressão, vários segmentos artísticos do país começaram a escrever literatura e/ou composições musicais repletas de expressões consideradas de “baixo calão” pelo senso comum e tocando em temas polêmicos, como prostituição, aborto, poligamia, homossexualidade, legalização dos entorpecentes, entre outros assuntos convencionalmente abordados (quando muito) apenas nos ambientes fechados e restritos dos dirigentes políticos – em sua maioria, homens brancos, ricos, de orientação sexual aparentemente heteronormativa e sem nenhum contato direto com as populações que vivenciam na pele os efeitos nocivos de algumas determinações da lei. Abordando o tabu da proibição de certas substâncias entorpecentes como política de combate ao narcotráfico, surge a banda Planet Hemp em 1993. O primeiro disco do grupo, Usuário, lançado em 1995, dedica todas as suas canções à problematização da ilegalidade da maconha e da marginalização de seus usuários. Na primeira faixa do álbum, Não compre, plante!, o grupo adverte:
Se você sobe no morro pra buscar e leva porrada Se liga, sangue-bom, tem alguma coisa errada Não vem com 171, comigo não tem parada errada O que tenho a lhe dizer eu falo cara a cara Você já pensou que o problema pode ser você? Falando sem se informar, você vai se fuder Você confunde os outros querendo aparecer Cê fala por falar, mas nunca vai me convencer Cê pensa que eu fico louco por fumar uma erva
Ela rompe as minhas barreiras e me deixa com a mente aberta Quem é você pra falar do meu comportamento?
O tráfico mata por dia mais ou menos uns seis Faça as contas mermão, quantos morrem por mês? Hoje eu vejo meus amigos de infância e penso: Os que não estão na prisão.
Estão dentro de um caixão
Então saiba, meu irmão o porquê não legalizam não, Eles precisam que alguns de nós virem ladrões Cumpádi, não suba o morro se você não se garante Como conseguir então?
Não compre, plante!(3x)
Já chega de financiar essa máquina extorsiva, De um lado o miserável
De outro o policial homicida
Eu nunca vi um policial trabalhando de verdade São verdadeiros inimigos da liberdade
Polícia civil e federal só atacam traficante,
Que na verdade são testa-de-ferro de gente importante: Militares e políticos sempre saem ilesos
Estão envolvidos com o tráfico, Mas nunca foram presos
Enquanto o povo na rua vai sendo maltratado Ficam mostrando um idiota que foi sequestrado Que só negou , escravizou, quem sabe até matou E o pobre que não pediu isso foi quem pagou Pedem que façam paz, mas sem conveniência Ensinam as crianças somente a violência Aí cresce um cidadão sem ter o que comer
Sem nem um pouco de cultura pra poder sobreviver A liberdade de expressão é um direito constitucional, Desde que não me prejudique e não me faça mal Propaganda enganosa, meu irmão, não se espante Ouça o que eu tô lhe dizendo:
Não compre,plante! (x3)
(PLANET HEMP, 1995)
Formado por cinco suburbanos da cidade do Rio de Janeiro, o Planet Hemp leva até o nome afrontoso. A ideia inicial era batizar de Planeta Maconha, mas imaginando os transtornos que teriam com a polícia, optaram por traduzir o nome para o inglês. Em 2003, concedendo uma entrevista, o vocalista e cofundador da banda, Marcelo D2, ao abordar a história do nome do grupo, ironiza: “é, demorou cinco anos, mas nós fomos presos” (MARCELO D2 apud. MUNDIM, 2004, p.7). Acusados pelo poder público de estimular o uso da maconha, as músicas e videoclipes da banda foram proibidos de ir ao ar nos canais de rádio e televisão entre 6h e 23h. Os integrantes do conjunto foram levados a prestar depoimentos após a realização de vários shows, sob o pretexto de que estavam fazendo apologia às drogas e, consequentemente, à violência. Novamente se defendendo das acusações mediante entrevista, o vocalista explica a proposta da banda:
O que gera a violência é a ilegalidade das drogas, não a droga. É o policial dando tapa na cara de moleque de 14, 15 anos porque ele está fumando um baseado com os amigos. Isso traumatiza qualquer um. A ilegalidade das drogas favorece esses caras que estão envolvidos. [...] Acho que devia ser tudo legalizado. Mas o Brasil ainda não está preparado para isso. Não estou dizendo que devia ser liberado. Acho que devia ser legalizado, com lugares próprios e idade certa para o consumo. Com isso, acaba a violência que o tráfico gera (MARCELO D2 apud. MUNDIM, 2004, p.86).
A trajetória do Planet Hemp na música brasileira é marcada pela sua firmeza em trazer ao público as discussões sobre a possibilidade de legalização de uma atividade estigmatizada pela moralidade social. Problematizando o porquê da liberação de certas substâncias e condenação de outras, Marcelo D2 atribui ao governo a responsabilidade de “tomar conta não só da maconha, mas também do álcool. Ele deveria plantar, produzir e fazer propaganda esclarecedora na mídia” (MARCELO D2 apud. MUNDIM, 2004, p.86). O estudo de Pedro Santos Mundim, intitulado Das rodas de fumo à esfera
pública: O discurso de legalização da maconha nas músicas do Planet Hemp, que
temos utilizado para referenciar as transcrições das entrevistas e declarações do grupo, faz também um apanhado minucioso das composições brasileiras que já mencionavam o uso da maconha antes mesmo da formação do Planet Hemp. Diversos artistas trouxeram ao público referências (sutis ou explícitas) ao consumo da substância. Contudo, a perseguição ao Planet Hemp se dá muito mais em função do questionamento profundo e politizado da macroestrutura envolvida nas medidas de coibição dos elementos ilícitos.
Enfrentando diversos ataques, a banda também escolhia títulos provocativos para nomear seus álbuns. O segundo disco, lançado em 1997, carrega um sugestivo nome: Os cães ladram mas a caravana não pára. E não pararam. No terceiro disco, A
invasão do Sagaz Homem Fumaça, lançado no ano 2000, a música Procedência C.D.
clama pelo reconhecimento de quem são os verdadeiros detentores do poder no país:
Vem ver um novo parque de diversão
Andar em brinquedos que aumentam a percepção Visão privilegiada, aumento da consciência, E o nome disso aqui é Pergunte a Procedência: Dinheiro do patrão,
Armas e Munição, Tortura da Programação, Concessão de Rádio e Televisão
Pergunte a Procedência do aumento da condução, Pergunte a Procedência do aumento do mercado, Pergunte a Procedência dos juros extorsivos, Pergunte a Procedência das séries de inflação, Certeza de uma punição
Filho da Puta que comprou a eleição Tá abusando minha nação!
Imobilidade NACIONAL! De acordo com o Presidente da
Associação Brasileira dos Agentes da Polícia Federal, uma entidade não-oficial denominada COMANDO DELTA, definida por ele próprio como "fábrica de presidentes", atua no controle total do sistema brasileiro,
Tendo inclusive realizado uma reunião para a escolha de Fernando Henrique Cardoso.
Esta entidade é formada pelos homens mais poderosos do país, como donos de grandes redes de televisão, grandes jornais, instituições financeiras, indústrias farmacêuticas, empreiteiras, entre outras áreas de influência, que se perguntados sobre o assunto ironizarão e negarão até o fim a sua existência.
(PLANET HEMP, 2000)
Em meio à turbulência da repressão aos seus discos e shows, o Planet Hemp optou por se defender atacando de volta os grandes investidores e até mesmo o então presidente do Brasil. Apontando as contradições de uma sociedade que proíbe e castiga para algumas camadas da população enquanto garante impunidade a um grupo seleto, o estilo musical Rap Rock do Planet Hemp questiona as bases de um país cujas iniciativas democráticas ainda não podiam (nem podem) ser vislumbradas para a grande maioria.
É nesse período pós-ditatorial de lenta redemocratização que a cultura Hip Hop começa a se popularizar no Brasil, com forte influência do movimento estadunidense surgido nos guetos negros e latinoamericanos da cidade de Nova Iorque. Para além do gênero musical, o Hip Hop envolve cinco elementos fundamentais que fazem com que o movimento tenha uma dimensão mais profunda de estilo cultural: O Beat representa as batidas musicais criadas pelas e pelos Djs, muitas vezes editando sons instrumentais com ruídos da mixagem de vinis e barulhos do cotidiano urbano; o Rap entra com a composição das letras das e dos MCs (sigla para mestre de cerimônias), que serão encaixadas nos beats; o Breaking é a dança de rua dessa cultura, movimentada pelas
Bgirls e Bboys, como são conhecidos os dançarinos; o Grafitti, a arte de estampar nos
muros, tapumes, paredes, camisas e telas a representação gráfica do movimento; e como quinto elemento, o conector de todos os demais segmentos do Hip Hop, o conhecimento – a peça chave que os sujeitos do movimento vão construindo com suas histórias de vida e sua afinidade pelas expressões do Hip Hop. Fazemos essa modesta descrição dos cinco elementos da cultura Hip Hop para situar um pouco do surgimento desse complexo movimento nas favelas brasileiras. Como não temos a pretensão de discutir aqui os demais aspectos da cultura Hip Hop, focaremos apenas nas contribuições do Rap para a literatura brasileira. Tipicamente periférico, o estilo musical é caracterizado por conferir protagonismo às populações socialmente estigmatizadas e inferiorizadas.
Passando para o papel as vivências e perspectivas do povo periférico, ou passando-as do papel para o som do baile, o rap deu conta de encaixar batidas de vinil com os desabafos das periferias. Aumenta o grave, treme a laje: vem rajada de palavras de homenagem à favela. As cantoras e cantores do rap brasileiro, quando de sua difusão inicial no país, eram em sua maioria pessoas de origem humilde que enfrentavam as agruras de habitar os quartos de despejo dos centros urbanos. Citamos novamente o trabalho de Giovani Verazzani, abordando a recepção do gênero musical na sociedade brasileira e o contexto social das composições musicais envolvidas:
Como uma cultura que não correspondia (não corresponde!) aos valores e padrões da cultura hegemônica, o Hip Hop sempre foi – e ainda continua sendo sob olhares mais conservadores – uma degeneração da linguagem, da música, das ideias e dos valores da classe dominante. Além de serem malvistos por diversos segmentos da sociedade, os artistas do rap e do hip hop se recusavam a aparecer na mídia, dar entrevistas, principalmente aos meios de comunicação hegemônicos no Brasil. Parecia um movimento de resistência sem motivo, já que vivíamos numa democracia. Será? Será mesmo que o estado democrático de direito fora implantado de fato? Será que os tempos de censura, tortura e silêncio haviam realmente acabado? O discurso do rap mostrava que ainda não. [...] Para uma parcela da população, a qual sempre ficou relegada ao limbo, a democracia tinha um rosto diferente e o estado só mostrava sua face repressiva e opressora” (VERAZZANI, 2013, p.12-13).
Poderíamos discorrer aqui sobre dezenas de cantoras, cantores e coletivos de rap que denunciam as estruturas antidemocráticas que vigoram sobre as periferias do Brasil e do mundo, mas como não é o objetivo central de nosso trabalho, necessitamos fazer um recorte. Assim como a organizadora da antologia 26 poetas hoje faz a ressalva de que não pode deixar de optar por publicar o que estava ao seu alcance, destacamos aqui que teceremos as conexões entre a cultura Hip Hop e a literatura brasileira a partir dos artistas e obras com os quais tivemos mais contato. Dentre as produções, começamos por falar da importância para a música e a literatura brasileiras do quarto álbum do grupo Racionais MC’s, Sobrevivendo no inferno, lançado em 1997. Esculpindo versos de pedra, os quatro artistas do Racionais – Edi Rock, Ice Blue, KL Jay e Mano Brown – oriundos da favela do Capão Redondo (zona Sul da capital São Paulo) marcaram a história do rap nacional e das periferias brasileiras. O grupo adverte ao povo negro:
60% dos jovens de periferia sem antecedentes criminais já sofreram violência policial
A cada quatro pessoas mortas pela polícia, três são negras Nas universidades brasileiras, apenas 2% dos alunos são negros
A cada quatro horas um jovem negro morre violentamente em São Paulo Aqui quem fala é Primo Preto, mais um sobrevivente
Tais palavras dão início à canção terceira do disco Sobrevivendo no inferno. Na música, até o nome faz alusão à caminhada dos Racionais – Capítulo 4, Versículo 3. Um-nove-nove-sete depois de Cristo, eles vieram dizer à negritude brasileira que os calvários que ela enfrenta não são fenômenos pontuais e isolados, porém projetos de governo: tanta chacina em bairro pobre, no morro, quebrada ou gueto, praça de igreja famosa, presídio, quartel, cortiço. Casando dados estatísticos com os casos ocorridos nas periferias de São Paulo, utilizando no discurso expressões dos dialetos suburbanos, os Racionais apresentam ao seu público a macroestrutura do racismo brasileiro – aquele velado pelos veículos tradicionais de informação, pelos dirigentes políticos, pela grande indústria, pelos currículos escolares e pelos agentes da lei, mas praticado pelos índices de homicídio, pela população carcerária, pela baixa escolaridade, pela vulnerabilidade social, pela ocupação de áreas de risco, pela mortalidade infantil, pela violência policial, pela gravidez precoce, pela taxa do desemprego e pela falta de saneamento básico. Na ponta de lança do povo estigmatizado, os Racionais se posicionam como resistência armada em forma de música, e anunciam:
O preto aqui não tem dó, é 100% veneno A primeira faz bum, a segunda faz tá Eu tenho uma missão e não vou parar Meu estilo é pesado e faz tremer o chão
Minha palavra vale um tiro, eu tenho muita munição Na queda ou na ascensão, minha atitude vai além E tem disposição pro mal e pro bem
[...]
Antigo e moderno, imortal Fronteira do céu com inferno
Astral imprevisível, como um ataque cardíaco Do verso violentamente pacífico, verídico Vim pra sabotar seu raciocínio
Vim pra abalar seu sistema nervoso e sanguíneo Pra mim ainda é pouco, Brown cachorro loko Número um, guia, terrorista da periferia Uni-duni-tê, eu tenho pra você
Um rap venenoso ou uma rajada de PT [...]
Um dia um PM negro veio me enbaçar E disse pra eu me pôr no meu lugar Eu vejo um mano nessas condições, não dá Será assim que eu deveria estar?
Irmão, o demônio fode tudo ao seu redor Pelo rádio, jornal, revista e outdoor Te oferece dinheiro, conversa com calma Contamina seu caráter, rouba sua alma Depois te joga na merda sozinho
Transforma um preto tipo A num neguinho
Descrevendo vários elementos presentes no dia-a-dia de um povo marginalizado, desde as tarefas executadas por um operário do subemprego até os diferentes modelos de armas utilizadas por assaltantes e traficantes e a sonoplastia de seus engatilhamentos e disparos, as composições do grupo conversam diretamente com aqueles sujeitos que recorreram às atividades criminosas como forma de sobrevivência. Problematizando os contrastes entre a vida miserável do desemprego ou da exploração proletária e a vida curta e caótica de quem entra para o crime, Capítulo 4, Versículo 3 advoga em nome dos tantos condenados à violência e miséria sem direito a nenhuma defesa. Mas em resposta às armadilhas de um sistema que planeja o domínio e a morte dos filhos da periferia, o narrador da música se impõe como um sobrevivente que contraria as cruéis estatísticas de genocídio da juventude negra brasileira:
Dinheiro... Não tive pai, não sou herdeiro Se eu fosse aquele cara que se humilha no sinal Por menos de um real minha chance era pouca Mas se eu fosse aquele moleque de touca Que engatilha e enfia o cano dentro da sua boca De quebrada, sem roupa, você e sua mina Um, dois, nem me viu, já sumi na neblina Mas não...
Permaneço vivo, prossigo a mística Vinte e sete ano contrariando a estatística [...]
Eu sou apenas um rapaz latino-americano Apoiado por mais de cinquenta mil manos Efeito colateral que o seu sistema fez Racionais, capítulo 4, versículo 3
(RACIONAIS MC’S, 2018, p.55-56).
A postura militante do grupo traduz o cotidiano violento das ruas de São Paulo para uma linguagem poética que dialoga tanto com as populações periféricas quanto com a academia. Não por acaso, o disco em questão foi sucesso de vendas (projetando o grupo no cenário musical internacional) e editado em forma de livro vinte e um anos após o seu lançamento, dada sua importância na cultura musical brasileira. A versão em livro de Sobrevivendo no inferno conta com um prefácio do professor Acauam Silvério de Oliveira, intitulado O evangelho marginal dos Racionais MC’S. O pesquisador destaca que “na obra dos Racionais ocorre uma plena adequação entre linguagem formal e conteúdo da experiência” (OLIVEIRA, 2018, p.27). A experiência que os artistas comunicam aos cinquenta mil manos é aquela que só poderia ser descrita por quem realmente sente na pele o peso de uma sociedade estruturada na exploração, no controle e no extermínio dos indivíduos mais pobres, “uma fala da periferia para a periferia, que alteraria de modo radical o cenário cultural do país” (OLIVEIRA, 2018, p.24)
De igual para igual, o grupo buscou identificação com cada coração favelado do Brasil. As gírias, as temáticas, as preocupações, os nome das periferias da metrópole paulista mencionados nas canções, as descrições da rotina na periferia e as referências ao texto bíblico são elementos da obra dos Racionais que aproximam os narradores dos seus interlocutores. Na sua tese de doutorado em sociologia, o pesquisador Tiaraju D’Andrea relaciona a expansão dos Racionais com a formação do sujeito periférico, “o morador da periferia que passa a atuar politicamente a partir de sua condição e orgulhoso dela” (D’ANDREA, 2013, p.15). A atuação política desse sujeito que passa a