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Le m´ elange vertical

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3.3 La turbulence oc´ eanique

3.3.2 Le m´ elange vertical

Se tratamos até aqui da “influência” de Zilberberg em Greimas, ou da entrada da hipótese tensiva nos centros das preocupações da teoria, passemos agora a um tratamento direto

das ideias de Zilberberg, relevantes também para se lidar com as paixões nos discursos. Muitos dos termos mencionados anteriormente, principalmente o termo “foria”, remontam ao pensamento “temporalizante” deste autor, que, em seu fazer teórico, estabeleceu alguns gestos fundamentais, que elencamos aqui: 1. a postulação de um nível aquém do percurso gerativo do sentido5, espécie de parecer de um horizonte ôntico, marcado por apresentar um caráter rítmico e por interações tensivas, que se “espalham” por todo o percurso gerativo do sentido e são já reguladas pelo enunciador6; 2. a temporalização do modelo, via o poder sintaxizante da foria; 3. a prosodização do plano do conteúdo, baseada no princípio do isomorfismo entre o plano da expressão e do conteúdo, que Zilberberg tomou de Hjelmslev; 4. a aspectualização (demarcação e segmentação) e a “retorização” da semiótica.

Pensemos estas questões retomando o texto “Para introduzir o fazer missivo”, Zilberberg (2006, p. 131). No texto, o semioticista francês visa, a partir de uma continuidade que está pressuposta ao percurso de geração do sentido (“anterior” à enunciação), uma forma de se operar a conversão do nível tensivo profundo para os outros níveis do percurso, postulando o nível “missivo”, que apresenta um enunciador que regula as continuidades e descontinuidades do discurso. Nessa formulação, o fazer missivo se divide em dois: os valores remissivos, relativos à parada, ou seja, a uma espécie de interrupção do fluxo fórico, designada como antiprograma (ZILBERBERG, 2006, p. 133); e os valores emissivos, relativos à parada da parada, de caráter continuativo, que visam dar curso ao fluxo fórico do sujeito.

Esses termos de teor um tanto metafórico como “parada”, “parada da parada”, servem para traduzir essa aspectualidade do nível profundo e de como ela se insere na cadeia gerativa. Todos esses pontos estão relacionados ao que se chama de prosodização do conteúdo e que Zilberberg tomou a partir de sua inspiração no modelo da sílaba de Saussure e de Hjelmslev e do postulado do isomorfismo entre os dois planos, também do linguista dinamarquês. A noção de ritmo que dessa terminologia “temporalizante” se supõe, a alternância

5 Importante entender que, para o semioticista de filiação greimasiana, esse “aquém” do percurso gerativo do sentido é recuperado via catálise, num gesto que mostra a filiação do semioticista também a Louis Hjelmslev (Ver capítulo 19 do Prolegômenos a uma teoria da linguagem e o verbete “Catálise”, presente em Greimas e Courtés [2016, p. 54]).

6Sabendo nós da problemática que essa questão tem despertado na semiótica, assumimos aqui uma postura similar à de Tatit (1994), que pensa a enunciação já exercendo função a partir do nível profundo do percurso gerativo do sentido, sem, todavia, acreditarmos estar sendo incoerentes com o fato de Greimas colocá-la ao nível da discursivização. De todo modo, acreditamos que se faz necessário um trabalho em semiótica que trate desta questão.

entre “implosões” e “explosões”, por exemplo, expressam um modelo abstrato que pode dar conta dos “altos” e “baixos” da vida humana – se pensarmos no fato de que Zilberberg busca aproximar a semiótica de uma espécie de “prosódia das vivências”, de uma “fenomenologia da vida humana”, via uma “gramática do vivenciado” (ZILBERBERG, 2011, p. 12). Quanto a isso, Tatit e Beividas (2018, p.48) assim afirmam:

Podemos dizer que o comportamento silábico da sonoridade traduz de modo minimalista o avanço fórico nos termos sintáxicos propostos por Zilberberg. Disforia e euforia, nesse caso, teriam muito mais a ver com as orientações implosiva e explosiva do que com seus respectivos semantismos. Assim, foria, para o autor, tem estatuto pré-narrativo, pré-modal e pré-discursivo. É uma espécie de matriz da aspectualidade e preenche as condições do conceito hjelmsleviano de direção.

É o fluxo fórico e tensivo que organiza, direciona e temporaliza o percurso do sujeito: “a noção de fluxo fórico perfaz, em nível profundo, a proto-relação sujeito/objeto na medida em que não houver solução de continuidade entre eles” (TATIT, 2001, p. 100) e a tensividade é pensada a partir da suposição de que “todo momento da cadeia é um lugar de mobilização emocional e, eventualmente, de resolução de um contraste entre um programa e um antiprograma” (ZILBERBERG, 2006, p. 133). A alternância entre valores emissivos e remissivos está relacionada à tensão entre as instâncias do sujeito e do antissujeito, bem como às do destinador e do anti-destinador e da própria oscilação fórica da relação do sujeito com o objeto, este último que, em muitos casos, principalmente no que se refere ao sujeito passional, pode se tornar um anti-objeto, ou ambivalente (ao mesmo tempo eufórico e disfórico).

Essa forma de ver uma “ambivalência” do objeto e do valor se relaciona à abordagem valencial7, (em contrapartida à abordagem “categorial” característica da formação

inicial da semiótica) que permite um tratamento do valor em plena oscilação fórica, ou seja, além do semantismo do objeto, há ainda o timismo da relação do sujeito com o valor. Isso é dito por Fontanille e Zilberberg (2001, p.16): “o valor dos objetos depende tanto da intensidade, da quantidade, do aspecto ou do tempo de circulação desses objetos como dos conteúdos semânticos e axiológicos que fazem deles ‘objetos de valor’”.

7

Importante lembrar que a abordagem valencial é também de caráter categorial, no sentido de que ela também propõe “categorias”, no caso, intensidade e extensidade, para a abordagem do valor. Saraiva (2017) afirma que, apesar de o pensamento zilberberguiano buscar lidar com questões do contínuo, esse pensamento precisa partir da diferença e postular e partir de oposições em seu corpo teórico.

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