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ELAN FUNCTIONALITY

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Os aspectos negativos do casamento ou da união de facto são pouco referidos pelas entrevistadas do Grupo 1. Demonstrando uma visão do casamento pouco idealista, estas mulheres demonstram que têm consciência de que se trata de uma relação que não é simples de gerir.

"O casamento é uma coisa muito complicada e não é, de forma alguma, o mar de

rosas dos contos de fadas" (entrevista 1.13; psicóloga e educadora de infância, casada, tem um filho, 38 anos).

O casamento, sabe-se, implica cedências. Através de algumas entrevistas percebe- se que a necessidade das mulheres que vivem sós mudarem o seu estilo de vida, no caso de casarem, leva a que algumas não se sintam motivadas para tal.

"implica muitos sacrifícios aos quais eu ainda não tive vontade e, se calhar, nunca vou ter vontade de os fazer" (entrevista 1.2; advogada, solteira, não tem filhos, 40 anos;

vive só).

As mulheres mais escolarizadas consideram, de uma maneira geral, que no casamento ainda subsistem a situações de tradicionalidade em que o homem desempenha o papel de "chefe de família" o que leva à persistência de desigualdades marcantes entre as oportunidades, os direitos e os deveres dos

cônjuges. Esta opinião é sempre referida como algo que estas mulheres consideram que persiste na nossa sociedade, mas sem que entendam que é essa a sua situação em particular.

"Ainda há muito machismo, aqui, quer dizer... o homem casa e, necessariamente... se considera... sei lá, o "chefe da família", como era na altura do Salazar, por exemplo. Por favor..."(entrevistada 1.5; auditora e professora, casada, teve dois filhos, mas

morreram ainda bebés, ajuda a educar vários adolescentes sem os ter adoptado, 49 anos).

É de realçar que, enquanto algumas mulheres do Grupo 2 se referem aos primeiros anos de casadas como o período de maior felicidade, as entrevistadas do Grupo 1 consideram que esse período é o mais difícil. Apesar de reconhecerem uma certa beleza ao início da vida a dois, não deixam de manifestar a dificuldade sentida na adaptação de cada um ao outro. São "situações de transição, em que se começa a

vida conjugal com um certo entendimento dos papéis e se é obrigado ao longo do tempo a fazer ajustamentos".182 Algumas das entrevistadas fazem-no de forma

interessante, uma vez que se referem a aspectos do quotidiano, aos quais frequentemente não é dada muita importância, mas que podem motivar algumas dificuldades no entendimento do casal:

"os primeiros tempos de casados são horríveis, uma pessoa tentar acertar agulhas (...) A questão da adaptação do casal, das pessoas, daquela coisa de... de... da pasta dos dentes no lavatório e... e de ter que conjugar e de... das meias ou das cuecas no chão e de... Este tipo de coisas e de estar chateada e apetecer não ouvir ninguém e ter que ter sempre... alguém para o ouvir, este tipo de coisas" (entrevista

1.13; psicóloga e educadora de infância, casada, tem um filho, 38 anos).

Como já foi referido, os aspectos negativos do próprio casamento só raramente são mencionados pelas entrevistadas do Grupo 1. Entre outras explicações para o insucesso do que foram os casamentos das entrevistadas divorciadas ou separadas prendem-se com a monotonia em que ambos deixaram cair a relação e a

imaturidade do ex-marido (no caso deste último discurso não existe a partilha da responsabilidade):

"O meu casamento foi... caiu foi numa certa monotonia." (entrevista 1.14;

administradora de empresa, divorciada, tem duas filhas, 44 anos)

"ele ser mais novo (...) Não é uma diferença grande (...) são 2 anos! Mas, acho que os homens são mais imaturos, não é?! E suponho que chegou a uma fase da vida em que se começou a questionar..." (entrevista 1.16; professora, separada, a iniciar o

processo de divórcio, tem duas filhas, 42 anos).

Os discursos das mulheres do Grupo 2 deixam perceber uma grande desilusão relativamente ao casamento. De facto, são muitas as lamentações feitas relativamente à vida conjugal e os termos usados nestas descrições não deixam dúvidas quanto às dificuldades sentidas no convívio com os respectivos maridos:

"eu já tive tantos sacrifícios em 25 anos" (entrevista 2.2; desempregada, casada, tem dois

filhos, 49 anos; referindo-se ao casamento)

"engoli muito! E isso magoou-me muito." (entrevista 2.3; auxiliar educativa, casada, tem um filho, 41 anos; referindo-se ao marido)

"Sujeitei-me 4 anos (...) passei! Quando estava com ele passei um bocadinho! (...) se fosse hoje, eu nem tinha homem nem tinha filhos! E eu digo-lhe uma coisa: se fosse hoje não me tinha juntado com este homem!" (bate, expressivamente, com o dedo na

mesa...) (entrevista 2.4; cozinheira, separada, a viver em união de facto, tem três filhos, 42 anos; referindo-se às suas duas relações conjugais)

"aguentei, durante onze anos!" (entrevista 2.7; repositora num hipermercado, divorciada,

tem um filho, 43 anos; referindo-se ao período em que foi casada)

"Passei muito! (...) se não gostasse dele... eu... era capaz de deixá-lo ficar... Eu gostava dele... Era o pai das minhas filhas e eu... sacrifiquei-me sempre até à Última!" (entrevista 2.10; empregada de café, casada, tem duas filhas, 49 anos; referindo-se

ao seu casamento, até o marido adoecer).

Um dos aspectos negativos do casamento apontado com maior frequência pelas entrevistadas prende-se com a violência a que estão (ou estiveram) sujeitas - tanto verbal como física - infligida pelos respectivos maridos:

"Chamava-me nomes... batia-me" (entrevista 2.4; cozinheira, separada, a viver em união

de facto, tem três filhos, 42 anos; referindo-se ao primeiro marido com quem diz que a mãe a obrigou a casar por ter sabido que tinham mantido relações sexuais)

"batia-me muito! (...) Ai! Apanhei muita porrada! (...) Nunca me virei a ele! Nunca! Apanhava, apanhava... Às vezes dava-me para os olhos, dava-me murros para os olhos... nunca... nunca me virei a ele! (...) quando ele chegava a casa, dava-me sempre porrada! (...) Andou atrás de mim de faca! Eu fugia, quando o via de faca, eu fugia porta fora, para a rua! Eu tinha muito medo dele! (...) Foi preciso uma vizinha atirar-se que ele matava-me ali! Mas, também, deixei-me estar! Ali... até quando... Olhe, se ele me matasse, matava-me! (...) tinha aquele receio era... de ele me dar alguma pancada e eu ficar! Como tinha as duas meninas, as filhas, eu tinha medo de deixar as meninas sozinhas!" (entrevista 2.10; empregada de café, casada, tem duas

filhas, 49 anos; segundo a entrevistada, o marido só parou com as agressões quando ficou gravemente doente).

Outro dos aspectos negativos apontados pelas entrevistadas menos escolarizadas é o alcoolismo por parte dos respectivos maridos:

"o pai da minha filha bebia (...) muito... bêbado... fazia cada uma! (...) foi muito complicado, ele era muito bêbado" (entrevista 2.4; cozinheira, separada, a viver em união

de facto, tem três filhos, 42 anos; referindo-se ao primeiro marido)

"O álcool não dava, prontos! O álcool (...) depois, com o álcool e tudo... Ele sem vinho... não, não... Deus me Livre! Mas com o vinho, Deus me Livre! (...) era o vinhito..."(entrevista 2.10; empregada de café, casada, tem duas filhas, 49 anos).

Apesar dos maridos de uma grande parte destas entrevistadas não trabalharem ou passarem longos períodos desempregados, tal não os impede de gastarem avultadas quantias de dinheiro no jogo e na prostituição, segundo as próprias mulheres referem:

"eu tinha que esconder o dinheiro que ele levava-me o dinheiro todo... Gastava o meu e o dele... (...) ele fez-me a vida infernal." (entrevista 2.4, cozinheira, separada, a

"gastava-me muito dinheiro no jogo (...) sempre, a pagar dividas de jogo. (...) queria comprar isto ou queria comprar aquilo... e, mesmo, tipo em coisas de... mesmo para comer! Às vezes, eu não tinha dinheiro! (...) o meu marido foi... o jogo e, depois, começou a ter, também, mulheres. O meu namorado não! Sempre só o jogo mas,

depois, também deixou isso!" (entrevistada 2.7; repositora num hipermercado, divorciada,

tem um filho, 43 anos; referindo-se aos comportamentos do ex-marido e do actual namorado com quem era para casar)

"Passei muito, portanto fome e... o marido não trabalhava... que a minha vida a bem dizer é quase um romance (...) nunca tive um marido que me ajudasse! Eu fui

sempre homem e mulher para a casa! (...) Fui sempre uma... um homem e mulher

dentro de casa! Sempre a trabalhar para isso! (...) ele podia, enquanto era novo, podia-me ajudar e nunca me ajudou! (...) Só fui infeliz no sentido de ele não fazer nada..."(entrevista 2.10; empregada de café, casada, tem duas filhas, 49 anos).

A mulher solteira do Grupo 2 parece conhecer bem esta realidade e nota-se pelo seu depoimento que tem uma visão bastante pessimista do casamento:

"são muito lindos, isto e aquilo, para levarem as mulheres e, depois, ao fim e cabo, quando casam são os estupores! Não é?! Começam a bater, começam a beber, começam-se a meter na droga" (entrevista 2.1; recém desempregada, solteira, não tem

filhos, 46 anos; todos os relacionamentos amorosos que manteve foram com homens casados).

Muitas vezes é o contacto com outros meios (frequentemente proporcionado pela actividade profissional) que permite à mulher perceber que existem outras formas de viver - por exemplo o casamento - e que está, de certo modo, ao seu alcance optar por aquilo que lhes parece melhor. O "normal" deixa de ser só o que as rodeia mais proximamente:

"depois de eu ir trabalhar para onde fui é que eu vi o erro que eu estava a fazer a respeito do meu casamento. (...) à noite, ele dizia que tinha (...) de se ir distrair... prontos, eu achava... a minha mãe era assim, eu achava que era normal... o meu cunhado fazia assim, eu... prontos... Achava que era normal (...) E ele dizia que tinha de... de se distrair e eu, pronto! Está bem! la sair e eu ficava em casa. (...) tornou-se um hábito. Ao fim-de-semana também era (...) à noite tinha de ir de ir

tomar café com um colega e eu ficava sempre sozinha! (...) Eu ficava sempre sozinha. Sempre sozinha! Sempre sozinha..." (entrevista 2.7; repositora num

hipermercado, divorciada, tem um filho, 43 anos).

Enquanto as entrevistadas do Grupo 1 apresentam a sua autonomia e independência como um dos aspectos positivos do casamento, a mulher do Grupo 2 lamenta a falta de liberdade a que este estado civil a obriga. Algumas entrevistadas referem-no claramente:

"ter que dar satisfações disto, ter que dar satisfações daquilo... É assim! Temos que dar satisfações de tudo! De tudo... onde vamos... onde não vamos..." (entrevista 2.4;

cozinheira, separada, a viver em união de facto, tem três filhos, 42 anos)

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