Através do resgate da obra de Freud, Lacan (1970) irá articular seu ensino através de três registros, a saber: Real, Simbólico e Imaginário (RSI). Uma tríade indissociável que nunca aparece isolada, mas sempre articulada. Esta contigüidade é condição determinante para o surgimento do sujeito.
Segundo Lacan (1970), o registro do real está referido ao real do corpo pulsional, sem significantes que dele dêem conta.
Por sua vez, o registro do simbólico está referido ao inconsciente, estruturado como uma linguagem. É do campo do simbólico a questão dos significantes. O significante advém do Outro (grande Outro), o tesouro do significante, representado pela mãe ou seu substituto, cuja função irá marcar o sujeito, fundando-o enquanto sujeito do inconsciente, efeito de linguagem.
O registro do imaginário, por sua vez, constitui-se a partir da experiência do espelho31. Trata-se de um momento lógico em que a criança, frente ao espelho,
31 O conceito de estádio de Espelho é trabalhado inicialmente, por Lacan (1936), no artigo “A Família”.
ou frente a um outro (o semelhante), visualiza a imagem de seu próprio corpo. Inicialmente, ante sua imagem refletida no espelho, não se reconhece. Para a criança, trata-se de um outro ser concreto, a quem buscará contacto. Como se vê, trata-se de um engano, de um estado confusional primeiro entre a criança e o objeto. Para Dor (1992), trata-se de uma situação estereotipada que a criança tem com seus semelhantes e que corrobora com a assertiva de que, através do outro, é que ela pode se perceber, a vivenciar e se orientar desde o início.
Cabe lembrar que a criança ainda não atingiu a maturação neurológica que lhe permite uma coordenação motora equilibrada e o conhecimento específico do próprio corpo. Nesta dinâmica do estádio do espelho, o fantasma do corpo fragmentado perde-se, dando lugar à imagem do corpo unificado. É a partir da relação com o semelhante que advém a estruturação do registro do imaginário.
A criança logo descobrirá que o outro do espelho não é um outro real, que a imagem que procura apreender é dela mesma, passando a se identificar com esta imagem antecipada de completude do próprio corpo.
Trata-se de uma identificação primordial com a imagem do próprio corpo, um eu ideal que advém de uma conquista referida ao registro do imaginário, uma vez que se trata de algo não real, mas de uma imagem, algo que não é ela, embora ela se reconheça naquele lugar32 (DIAS,1998).
Conforme assinala Dor (1992, p. 80) a apreensão da imagem corporal é uma primeira experiência estruturante na representação do sujeito, na representação de sua identidade. Anteriormente, “A imagem do corpo é, portanto, estruturante para a identidade do sujeito, que através dela realiza assim, sua relação primordial”. Um corpo biológico desarticulado que adquire uma totalidade unificada. É através da experiência do estádio do espelho que a criança, por antecipação, irá integrar sua imagem. Por outro lado, esta mesma experiência levará a criança a se deparar com uma outra instância: a constatação da falta. Ao comparar seu próprio corpo com a imagem refletida no espelho, uma imagem completa, a criança experimenta, ainda que através do imaginário, a sensação de que alguma coisa poderá faltar. Conforme Lacan (1995), é nesta vivência que o sujeito depara-se com a possibilidade de que algo pode faltar ao mesmo tempo, de que um algo a mais pode existir, algo que é uma falta.
32 A identificação imaginária em Lacan é correlata à identificação primária, postulada por Freud, em que os afetos da criança serão dirigidos indiferenciadamente a ambos os progenitores.
Ante esta perspectiva, o estádio do espelho promoverá na criança o acesso a duas dimensões distintas, a da completude e a da incompletude. Advém daí a questão do falo, o significante da falta, objeto imaginário com o qual a criança irá se identificar.
Conforme Dias (1998), a identificação imaginária é uma identificação enganosa, já que se trata de uma imagem também enganosa, ilusoriamente completa, antecipada por uma imagem unificada do próprio corpo, ainda fragmentado, na percepção da criança.
Esta experiência aponta para a alienação relativa ao imaginário, pois o que a criança supõe ser um conhecimento é apenas a percepção de uma imagem, o que a distancia de si, marca o lugar do engano, já que, ao se identificar (identificação imaginária), aliena-se, não encontrando a si mesma, mas apenas a própria imagem.
Embora enganosa, esta experiência é fundamental para a formação do eu ideal (completo e imaginário), via de acesso às identificações posteriores, importante, portanto, para a construção da identidade. Ainda que uma experiência ao nível do imaginário, de alguma maneira, este imaginário encontra-se atrelado e dependente do simbólico.
O registro do simbólico está referido ao campo da linguagem e, se a criança ainda não fala, ela é falada, surgindo num lugar marcado simbolicamente, e, neste sentido, necessita da mãe para que esta autentique a descoberta de sua completude. Ao dizer de quem é aquela imagem, o Outro, tesouro do significante, encarnado pela mãe, garante esta aquisição da criança.
Ao captar sua imagem, através do outro do espelho, a criança distancia- se de si mesma, alienando-se no espaço imaginário, numa identificação narcísica que tem de ser quebrada para que possa se constituir como sujeito, sujeito desejante. É a partir da identificação ao significante, que advém do Outro, que o sujeito poderá se livrar de seu cativeiro narcísico. A criança identifica-se com traços que vem do Outro e, somente através do reconhecimento deste Outro, pode ser constituído o ideal do eu, que surge deste lugar simbólico.
Ao confirmar de quem é aquela imagem, a mãe atua como vetor de fornecimento de significantes para a criança, marcando seu ingresso na dimensão da linguagem, portanto, o ingresso no registro do simbólico. Conforme Stotz (1998,
p. 116), “É a partir destes significantes, que atuam como traço unário, que se constitui o ideal do eu, via identificação do sujeito ao significante”.
O ideal do eu constitui-se através de identificações a um traço que vêm do Outro. Porém, é também o ideal do eu quem dirige o sujeito no campo do registro do imaginário. “O ideal do eu advém do campo simbólico e, segundo Lacan ‘é o que corresponde às coordenadas inconscientes do eu ...’, pois ficam sob efeito de repressão” (STOTZ, 1998, p.116, grifo do autor).
Convém destacar que tanto o eu ideal como o ideal do eu são instâncias referidas ao narcisismo. Enquanto o eu ideal encontra-se associado ao estado fusional, global, perfeito, e, portanto, indiferenciado, característica do narcisismo primário, o ideal do eu constitui-se através da tentativa de retorno ao narcisismo. O ideal do eu está referido a um único traço que vêm do Outro, razão pela qual Lacan denomina identificação ao traço unário, contrariamente à identificação narcísica, em que o outro á apreendido em sua totalidade. Entretanto, o ideal do eu instaura-se a com a quebra narcísica, da constatação de uma falta que venha, de alguma maneira, abalar o estado de completude da díade até então perfeita, isto é, a criança e a mãe como provedora.
Por mais que a criança deseje, a mãe não pode atender ao bebê em todas as suas necessidades e, assim, a falta é presentificada, provocando angústia ao perceber que a mãe é um outro que não ela mesma. Desta forma, ao se identificar aos traços que advém do Outro, o narcisismo volta a ser restabelecido (o que Freud denominou de narcisismo secundário). Através do traço que advém do Outro, gerador do ideal do eu, pode-se inferir que o sujeito constitui-se a partir do Outro. Entretanto, como se trata de uma identificação a um traço, e não de uma especularização totalizadora, como ocorre no narcisismo primário, o sujeito pode ser viabilizado.
Através destes enfoques, fica reforçada a assertiva freudiana de ser a identificação a primeira forma de relação afetiva entre duas pessoas, em que o eu de uma adota certas características do objeto como suas. O sujeito toma traços do objeto amado e perdido, via identificação.
Ressalta-se aqui algumas considerações referentes ao tema das identificações. Em Lacan, a identificação imaginária está referida à constituição do eu ideal. Trata-se de uma identificação narcísica, em que a criança identifica-se a um “outro” semelhante. Na identificação simbólica, a criança identifica-se a um traço
do “Outro”, constituindo o ideal do eu. A identificação simbólica é correlata à identificação proposta por Freud, ao final do Édipo, que tem como herdeiro o superego.
Como visto, a libido, apesar de alguns tropeços, avança em sua trajetória, e, paulatinamente, inicia-se a diferenciação de parte do id em ego. Para tanto, como se poderá ver na seqüência, o meio externo reveste-se de grande importância. A libido auto-erótica, associada ao ego, instaura o estádio do narcisismo (primário), que ocorre no recém-nascido.
O ego recém inaugurado somente pode ser garantido pela mãe, ou ainda por aqueles envolvidos na sobrevivência da criança, gerando no bebê um estado de uma ilusão de completude, pautado em um prazer irrestrito. Esta relação simbiótica mãe/criança, de completude/prazer, implica no calar de toda manifestação de desejo por parte do infante. Então, se nada falta, o que há para se desejar? Calar o desejo é o mesmo que morte em vida, é anular a viabilidade de um sujeito. É manter a criança no lugar de “coisa”, é narcisismo irrestrito regido pelo princípio do prazer, na esfera do narcisismo primário, sem qualquer tipo de falta, portanto, a égide do ego ideal, a completude, já que nada falta.
Este é o âmbito das identificações primárias, uma vez que a criança ainda não reconhece os progenitores, e seus afetos, portanto, são dirigidos a ambos, indiscriminadamente. O narcisismo primário está atrelado às identificações primárias e ao ego ideal. Porém, a realidade tem que vencer, sob pena da não-existência de um sujeito, mas da permanência da “coisa”.
Para sair deste estado de completude, para que se torne um sujeito desejante, faz-se necessário uma operação inaugural, uma operação simbólica que mediatize a lógica de seu desejo, que é a inscrição da lei paterna, referente ao complexo de Édipo.
O conceito freudiano referente ao tema do complexo de Édipo, muito além do enfoque conhecido através dos não iniciados nos conceitos psicanalíticos através da fórmula “amor à mamãe e ódio ao papai, em relação ao menino”, e vice-versa em relação à menina, é apresentado por Lacan, através de uma proposta bastante original. Lacan introduz, assim, novos conceitos teóricos importantes para a compreensão do complexo de Édipo.
Na dinâmica edipiana, a mãe é esta mulher - ser em falta - incompleta em relação ao falo, o significante da falta, da incompletude, presente na relação com o
filho, uma relação não-dual, mas uma tríade, mãe, criança, falo. Originalmente ligado ao princípio do prazer, hedonista em sua essência, o recém nascido, ser indiferenciado, é um corpo pulsional que resiste em sair de seu permanente estado de conforto - a égide do princípio do prazer - referente ao ego ideal.
Embora já tenha nascida, a criança ainda não está inserida no mundo, ao menos como sujeito. É a partir deste nó que a criança ocupa o lugar de complemento da falta materna numa relação criança = falo. Ao aceitar o filho como complemento de sua falta, a mãe impõe seu desejo a ele, levando-o a não manifestar outro desejo, que não o dela próprio. É neste caminho, como ser não desejante de nada além desta relação, que a criança não reconhece sua falta, excluindo-se como ser não desejante, mantendo-se na posição de completude, portanto, sem se deparar com a castração.
Para Lacan, o complexo de Édipo pode ser enfocado em relação ao lugar ocupado pelo falo, no desejo da mãe, da criança e do pai, através de uma dialética que se estenderá sob a forma do ser e do ter (o falo).
O tema da castração está referido, conforme a psicanálise, diferentemente do imaginário coletivo, não ao órgão anatômico, mas à castração como símbolo de uma falta primordial, de uma incompletude inerente ao ser humano. É este o sentido de castração, porque o sujeito não é completo, que nem tudo pode, e, portanto, há que empreender e buscar sentido para sua existência.
A castração está fundamentalmente articulada com a ordem fálica, e não com o pênis.
Esta construção imaginária, que invoca imperativamente uma falta adiante do real dessa diferença, postula implicitamente a existência de um objeto, ele próprio imaginário: o falo. Este objeto imaginário sustenta de um extremo a outro, o fantasma alimentado pela criança a partir do momento em que ela insiste em conceber como faltante algo que imagina dever encontrar-se ali. (DOR, 1992, p. 73).
Inicialmente, a diferenciação entre os sexos atua em conformidade com o falo como objeto imaginário, o qual, entretanto, será determinante na estruturação da dialética edipiana, já que promoverá uma operação simbólica inaugural. “A referência ao falo não é a castração via pênis, mas a referência ao pai, ou seja, a referência a uma função que mediatiza a relação da criança com a mãe e da mãe com a criança” (DOR, 1992, p.73).
Em psicanálise, a noção de pai está investida de uma conotação bem particular. Não se trata de um pai biológico, mas de uma entidade essencialmente simbólica, e, como tal, investida de uma função a qual irá operar de maneira estruturante na ordenação de uma estrutura psíquica para cada sujeito, independentemente dos sexos. Portanto, nenhum pai é detentor ou fundador da função simbólica que representa.
A dimensão do pai simbólico transcende à contingência do homem real. Não é necessário, portanto, que haja um homem para que haja um pai. O pai simbólico representa a “Lei de proibição do incesto” prevalente sobre todas as regras concretas que legalizam as relações e trocas entre os sujeitos de uma mesma comunidade" (DOR,1992, p.16).
O falo é o quarto elemento que possibilita a discriminação da tríade pai- mãe-criança, com atuação capaz de investidura do pai simbólico a partir do pai real pela via do pai imaginário.
De acordo com Lacan (1978), a falta (castração) é a única instância capaz de promover o desejo. É neste sentido que a introdução do pai (ou seu representante) adquire em Lacan a denominação de “metáfora paterna”, a instância que irá mediar o desejo da criança, instaurando o registro da castração e a organização das estruturas psíquicas. A estrutura psíquica de um sujeito é sempre conseqüência da égide das relações edipianas, ou como já visto, da relação que o sujeito detém com a função fálica.
Esta relação, como vetora de uma ordem, também pode ser vetora de seu oposto, ou seja, de uma desordem, pois a particularidade de uma estrutura reside em seu caráter de irreversibilidade.
O jogo edipiano é crucial para o sujeito, momento em que a dinâmica do desejo quanto ao falo revela-se favorável a inaugurar as estruturas psíquicas, em que se estabelecem as organizações estruturais especificas, ou seja, neuróticas, perversas ou psicótica. É importante lembrar ainda que as estruturas consolidam-se conforme a maneira que o sujeito articula-se com relação à castração. A metáfora paterna é determinante na dialética do Ser ou Ter o falo.
No primeiro caso, como complemento da falta materna – ser o falo – não há desejo, já que a completude instala-se. Se não há castração, não há desejo. Pela vertente do ter – o falo – a criança irá se dirigir em direção àquele que o detém, abandonando o lugar de amálgama que obtura a falta materna. A castração impõe-
se, nasce o desejo, constitui-se o sujeito desejante, o limite, a ordem, as normas e os valores morais.
A metáfora paterna é determinante para desatar o nó desta relação, ou seja, irá privar a criança de seu objeto de desejo, a mãe, e privar a mãe de seu objeto fálico, o filho. “Em relação ao filho: não te deitarás com tua mãe. E com respeito à mãe: não reintegrarás teu produto” (LACAN,1970, p. 89).
Castração, portanto, é dor, é falta que sangra a ferida narcísica. Se há castração, há dor. “Nada quero saber disto!”. Este é o discurso inconsciente daquele que permanece na “completude”, que não sai de seu lugar para não se defrontar com o novo, com o desconhecido que poderá apontar para sua incompletude, pois a realidade mostra que nem tudo se pode. A falta leva o sujeito a buscar. Tais estruturas psíquicas inerentes a todo ser humano estão presentes, todas, em maior ou menor intensidade, não em estado puro, traços de todas, embora com predomínio de uma sobre a outra. Este é um tema determinante no sustentáculo desta tese de doutorado.