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El criminal solitario

3.3. El género criminal 0. Introducción

3.3.1. Los policías como protagonistas

3.3.2.3. El criminal solitario

A tradução para o espanhol comumente encontrada para o termo

mapuche tanto nas falas quanto nas bibliografias referentes a este povo é “gente de

la tierra”, onde mapu diz respeito ao espaço e che às pessoas. A dimensão dos significados destes termos para o povo Mapuche, no entanto, transcende e difere de uma compreensão limitada somente ao físico e tangível. O conceito mapu abarca todas as dimensões espaciais possíveis, em planos materiais e imateriais. Ou seja, ele “alude pues a espacios y fuerzas que se complementan e interaccionan”

(Millánen, 2006, p. 31). Paralelamente, o conceito che designa um “agente socializado” que transmite em suas ações “ciertos valores y axiomas de la sociedad de origen” anteriores àqueles trazidos pela sociedade winka (branca e ocidental, que não é mapuche)24 (Millánen, 2006, p.33). É possível pressupor então, além da

existência dos Mapuche e sua cultura como antecedentes à chegada dos colonizadores em seu território ancestral, uma relação complementar e intrínseca entre os sujeitos e o espaço que estes ocupam.

Wallmapu, como é chamado o território ancestral mapuche, abarca

uma imensa região hoje ocupada pelos Estados chileno e argentino “que va desde los valles transversales por el norte, a Chiloé por el sur, y hacia la vertiente oriental de la cordillera de los Andes” (Millánen, 2006, p.20), onde estão Puelmapu, ao leste da cordilheira, e Gulumapu, ao oeste. Os dois termos, utilizados para denominar os espaços de acordo com a localização de cada um deles em relação à cordilheira dos Andes, correspondem aos territórios hoje denominados pela sociedade winka como Chile (Gulumapu) e Argentina (Puelmapu), e são vocábulos que compõem a língua falada pelos Mapuche: o mapuzungun (ou mapudungun).

Figura 6 – Mapa de Wallmapu

Fonte: Marimán (2006, p. 60).

A respeito do significado do próprio termo que denomina o idioma, de acordo com MILLÁNEN (2006, p.20),

Mapu: es la tierra y todos los componentes y particularidades de vida que

en ella existe. Es a su vez el espacio transcendente que los antepasados mapuche identificaron. Zugun: hablar. En la cosmovisión mapuche no sólo hablan las personas, también lo hace la tierra, a través de sus diversos elementos como los pájaros (üñüm tañi zugun), y de las personas. (MILLÁNEN (2006, p.20)

É possível observar na definição do autor que há uma relação intrínseca entre os sujeitos, a terra, e a vida, de maneira que as pessoas são compreendidas a partir da ancestralidade e de sua relação com a terra em seus diversos elementos naturais. Essa relação revela, de acordo com os apontamentos supracitados, uma constituição subjetiva que forja em seu processo os valores da língua e do espaço em que vivem como o mesmo teor de igualdade, e também para o pertencimento, tanto à terra, quanto à língua.

Nestes termos, com variantes próprias e particulares de cada parte de Wallmapu, o mapuzungun, “el hablar de la tierra”, percorre historicamente todo o território ancestral mapuche e transmite, por meio do próprio idioma e seu modo de nomear as coisas desempenhado há tempos entre seus falantes, elementos para a compreensão de uma determinada forma de ver, viver e se relacionar o mundo posta em evidência, por exemplo, na relação histórica e cultural destes sujeitos com o espaço que eles ocupam.

Sobre este tema é importante apontar para compreensão territorial própria da perspectiva mapuche, em contraste com a noção winka, mas em sintonia com o entendimento originário de forma geral. Conforme mencionado no trecho escolhido para a epígrafe do item 1.2 deste capítulo, a relação com o território para os povos originários abarca um entendimento de pertencimento à terra, compreendido dentro de uma relação dinâmica entre os sujeitos e o espaço. Para os Mapuche, nesse mesmo sentido, todas as pessoas que compõem um povo são como forças – newen – constitutivas do território, inseridas em uma relação mútua e complementar com a terra em todas as suas dimensões25.

A perspectiva winka, ao contrário, compreende o território enquanto um espaço a ser conquistado, fracionado e delimitado, cuja exploração está

25 Conforme apontado anteriormente, para os Mapuche a noção de território abarca tanto a dimensão material quanto imaterial. De acordo com Guiñazu e Marks (2013, p. 9), entre as dimensões que compõem Wallmapu estão “WenuMapu (tierra de arriba), RaginWenuMapu (tierra del medio), WenteMapu (tierra de todo lo que se ve), PvjvMapu (suelo o lugar donde la persona vuelve a convertirse en tierra), MinceMapu (subsuelo).”

incorporada a um sistema de acumulação, dominação e regulação, de acordo com uma concepção capitalista, onde o território é que pertence ao sujeito (Harvey, 1989

apud Guiñazu e Marks, 2013). Nessa direção, a imposição de fronteiras nacionais e

limitações territoriais realizadas especialmente no final do século XIX com a “Conquista del Desierto”, na Argentina, e a “Pacificación de la Araucanía”, no Chile – ambos processos impulsionados pelos respectivos Estados nacionais –, trouxeram violentos impactos aos Mapuche que habitavam a região da Araucanía (Chile), dos pampas e da Patagônia (Argentina) afetadas pelas duas operações militares. Conforme nos lembra Caniuqueo (2006, p. 152), “lo que en Chile fue la llamada ‘Pacificación de la Araucanía’, en Argentina fue la ocupación del norte de la Patagonia”.

Assim, tanto o processo argentino quanto o chileno, cujo intuito, nos dois casos, era a expansão de suas fronteiras26 ao sul do continente para que se

integrasse a região a seus territórios nacionais por meio da violenta expropriação territorial da população indígena ali existente, trouxeram determinantes impactos ao modo de vida do povo Mapuche, tais como a fragmentação espacial e familiar, as transformações de suas bases econômicas e o “empobrecimento generalizado” gerado a partir da perda de seus territórios, e a imposição de mecanismos de controle nas fronteiras nacionais argentina e chilena. Esses impactos implicaram na perda da soberania mapuche e na subalternização de sua sociedade (Marimán, 2006; Guiñazu e Marks, 2013), o que, por sua vez, contribuiu para o estabelecimento, por meio desses processos, de novos sistemas de governo com novas normas e autoridades político-administrativas para um povo que já exercia sua autonomia cultural, territorial e política à sua própria maneira.

Acerca da autonomia mapuche vale dizer que tal qual a compreensão territorial, a organização política própria deste povo também está presente em sua história e diretamente relacionada a formas específicas de compreensão do mundo. Ela também antecede a intervenção winka e, em determinados aspectos, permanece ainda hoje em suas comunidades por meio de funções que alguns de seus integrantes devem exercer. Ou seja, entre todo che, ou a “pessoa” de maneira geral, há os re che e os epu rume che, que são,

26 Segundo Lenz (2006), ao final das operações foram incorporados ao todo 606 mil quilômetros de território à Argentina.

respectivamente, as pessoas “comuns”, e aqueles que devem assumir responsabilidades específicas no âmbito social, político e espiritual da sociedade mapuche.

Há entre tais responsabilidades aquela precisamente relacionada à viabilização de uma comunicação entre as comunidades para fins políticos e convocações de trawünes27. Trata-se da função assumida pelo werken, atualmente o

porta-voz da comunidade que integra e historicamente – desde antes das ocupações militares chilena e argentina –, integrante responsável por levar e trazer informações de sua comunidade, cruzando as cordilheiras e extensas áreas em Wallmapu se necessário, para compartilhá-las de acordo com as solicitações feitas pelo lonko, principal autoridade sociopolítica da comunidade (Marimán, 2006; Gutiérrez Ríos, 2014).

Chamada de Lof ou Lof che, a comunidade é parte constitutiva da organização social básica do povo Mapuche, composta por grupos familiares que possuem a mesma origem parental e compartilham o mesmo território. A organização sociopolítica entre vários Lof, por sua vez, é chamada de Rewe.

Considerando toda a discussão traçada até aqui acerca do histórico e da perspectiva mapuche de maneira geral, bem como de sua forma de se organizar e se relacionar com o mundo, na próxima seção apresento a comunidade Lof Che Buenuleo, pertencente a este povo e titular legal do Wall Kintun.