I SIDRE M OLAS
7. El catalanisme socialista
Partindo de uma noção ortográfica, segundo Bechara (2002), os parênteses “assinalam um isolamento sintático e semântico mais completo dentro do enunciado, além de estabelecerem maior intimidade entre o autor e o seu leitor. Em geral, a inserção dos parênteses é assinalada por uma entonação especial” (BECHARA, 2002, p. 662). A marcação ortográfica dos parênteses é estendida por nós, na tentativa de conceituação da noção de parentéticos, ao uso das vírgulas, que representam uma pequena pausa do falante, funcionando como parêntese, como nas ocorrências que seguem:
(49) ENT *Tinha igreja já ou não?
INF *Tinha. *Só que era uma igreja de- não era essa igreja, uma igreja que foi queimada depois. *Não sei o que que aconteceu ali, dizem que botaram fogo, sei lá. (VARSUL SCCHP02-MPA)
(50) INF *Ele foi me dar uma moeda de esmola, né? *Ele disse: "*Eu vou te dar essa-" *Eram quatrocentos réis, eu acho. (VARSUL SCCHP21-FCB)
Como mostram as ocorrências, os itens entre parênteses direcionam a compreensão do interlocutor para um quadro de interpretação estabelecido pelo falante. Baseamo-nos, igualmente, em Grice (1983 apud Freitag, 2004), para quem os parentéticos epistêmicos “condicionam a interpretação em que são lexicalmente encaixados” (GRICE, 1983 apud FREITAG, 2004, p. 84). Segundo Palmer (1986 apud FREITAG, 2004), os parentéticos epistêmicos relacionam-se com a força assertiva da proposição onde aparecem e representam a “atitude do falante e seu julgamento acerca da informação proposicional da oração, que pode ser de verdade, probabilidade, certeza, crença, evidência” (PALMER, 1986 apud FREITAG, 2004, p. 84). Segundo Freitag (2004), uma proposição que não apresente elementos modalizadores é mais impositiva, como nas ocorrências ilustradas pela autora41:
(51) É uma curva sem perigo, mas também se um erro houvesse ali, era sem proteção, porque a distância entre a pista e uma parede era pequena, devia ter alguma proteção, alguma caixa de brita ou então pneu ali pra proteger. É culpa do presidente da equipe, né? do dono da equipe, o Frank Williams, eu acho. E de quem fizeram a organização do GP, eu acho. SC FLP MJG 15 (52) É uma curva sem perigo, mas também se um erro houvesse ali, era sem
proteção, porque a distância entre a pista e uma parede era pequena, devia ter alguma proteção, alguma caixa de brita ou então pneu ali pra proteger. É culpa do presidente da equipe, né? do dono da equipe, o Frank Williams. E de quem fizeram a organização do GP.
A partir deste quadro conceitual, fica clara a conexão entre os parentéticos epistêmicos e a modalização epistêmica parentética apresentada anteriormente. Os parentéticos, então, vão atuar como os elementos que colocam em prática a modalização no discurso.
Em seu reconhecimento dos marcadores de atenuação, Rosa (1992) cita os verbos e advérbios parentéticos identificados por Fraser, para quem estes elementos “modificam a força ilocutória do enunciado em que ocorrem, reduzindo o comprometimento resultante da enunciação” (ROSA, 1992, p. 37). Para a autora, esta denominação se deve à posição intermediária da unidade discursiva que ocupam, ou ainda, representam “algo que está fora do desenvolvimento sequencial da unidade discursiva (UD) e, portanto, apenas circunstancialmente inserido em seu núcleo” (ROSA, 1992, p. 37):
(53) Vai chover muito, eu acho, pois o céu está bem escuro.42
Amparamo-nos, também, como visto no capítulo 2, no sentido de achar apresentado por Votre que retomamos aqui. O que o autor descreve como ‘Eu acho’ trata-se de uma expressão epistêmica “consistindo de um sujeito e de um verbo, que aparece no final de uma cláusula [...]”, deixando de ser cláusula principal (VOTRE, 2004, p. 31). Repetimos o exemplo apresentado pelo autor:
(54) aí eu estava no colégio... era... aula de ciências... eu acho.
Diferentemente de Votre, em nossa análise, consideramos como parentéticos epistêmicos os usos em qualquer posição da cláusula, contando que isolados na forma dos parênteses como descrito acima.
Os estudos de Thompson & Mulac (1991 apud FREITAG, 2003) sobre I think no inglês também sustentam a conceituação que tentamos dar ao que chamamos de parentético epistêmico. Isto por conta do que os autores chamam de that-deletion (apagamento de that) na construção I think that. Repetimos os exemplos aqui43:
(55) I think that we're definitely moving towards being more technological. (Eu acho que estamos definitivamente caminhando para ser mais tecnológicos.) (56) I think 0 exercise is really beneficial, to anybody. (*Eu acho exercício é
realmente útil para todos.)
(57) It's just your point of view, you know what you like to do in your spare time, I think. (É seu ponto de vista, você sabe o que gosta de fazer em seu tempo livre, eu acho.)
42
Ocorrência extraída de Rosa (1992, p. 37); grifos nossos.
Acreditamos que o apagamento do complementizador -que torna mais evidente a configuração dos parênteses, assim como ocorre no inglês. Destacamos que (56) não é uma construção possível no PB, por isso a marca de agramaticalidade. Neste caso, se o complementizador é apagado, é justamente o formato de parênteses, nos termos conceituados aqui, que tornará a construção gramatical novamente.
Nossa escolha pelos itens no formato descrito aqui como parentéticos epistêmicos se justifica no intuito de descrever estas formas que acreditamos representarem um estágio mais avançado no processo de gramaticalização do que as formas que se apresentam com complementizador, e passaram de uma categoria gramatical a outra (conforme Votre, 2004, para achar, quando este autor destaca o nível maior de abstratização alcançado pelo verbo na forma parentética). Além disso, estudos como os de Votre (2004) e Freitag (2004) sobre achar apresentam “parentético epistêmico” como um sentido ou uma função. Aqui entendemos que “parentético” se refere à forma de apresentação dos itens e “epistêmico” diz respeito à função que a forma desempenha. Nosso intuito torna-se, portanto, averiguar quais os sentidos dentro do quadro funcional maior da modalização epistêmica parentética as formas parentéticas de sei lá e eu acho abarcam.
Na sequência dessa dissertação, abordaremos o referencial teórico que embasa os resultados e as análises que se encontram ao final do trabalho.