Para entendermos as teorias geopolíticas de Nicholas Spykman, é preciso que façamos uma pequena regressão ao autor que possui uma grande influência sobre seu trabalho. Trata-se de Halford Mackinder, o famoso geógrafo inglês, autor de The Geographical Pivot Of History (1904),2 artigo em que a Teoria da
Heartland foi apresentada para a comunidade especializada nos assuntos da geopolítica e das relações internacionais. (MACKINDER, 1904) Mackinder desenvolveu a teoria da geopolítica que influenciou toda a estratégia de dis- puta com a URSS durante os anos da Guerra Fria. Apesar de ter realizado essa reflexão antes do surgimento da URSS, Mackinder elaborou uma concepção geopolítica na qual a Eurásia ocupa um papel central entre as disputas das potências imperialistas.
Para Mackinder (1904), a Eurásia é o continente mais importante do globo, pela sua extensão territorial, população e recursos naturais. Logo, Mackinder observou, através de uma concepção baseada na sua análise his- tórica da disputa entre os povos eurasianos e da Europa ocidental, que a hegemonia da Eurásia poderia permitir a hegemonia global. (MACKINDER,
1904) Mackinder denominou o centro da Eurásia de Heartland, ponto cen- tral do continente eurasiano. Para Mackinder (1904), o controle da Eurásia passa pelo controle da Heartland e a Rússia é o país com maior aptidão para contrapor os interesses ingleses na região devido ao seu tamanho em proporção a Eurásia.
Nicholas Spykman escreveu The Geography of Peace (1944) 40 anos após a formulação de Mackinder e durante a Segunda Guerra Mundial. Spykman atualizou a reflexão de Mackinder, a partir da nova realidade histórica e conjuntural após a Primeira Guerra e ascensão da URSS e da Alemanha nazista, duas potências continentais que se enfrentavam em uma luta pela existência. Spykman retomou Mackinder para desenvolver uma política de segurança para os EUA e seus aliados, na qual a Eurásia teve uma im- portância inédita na história da política externa norte-americana. Além disso, logo na introdução, Spykman advogou o uso da força para preservar e/ou impor questões morais suportadas pelas nações, uma clara crítica ao pensamento liberal aplicado as relações internacionais que, de certa for- ma, influenciou a política externa norte-americana a partir da perspectiva isolacionista, em função da sua distância geográfica dos problemas envol- vendo o continente eurasiano.
A força é manifestadamente um instrumento indispensável, tanto a sobrevivência quanto para a criação de um mundo melhor. No entanto, no momento em que os valores mais fundamentais da nossa civilização estão sendo salvos da destruição completa apenas pelo exercício do poder nu, estudos da natureza do poder nas relações internacionais e investiga- ções sobre a força e fraqueza da posição de poder de nosso próprio país são compreendidos com a sobrancelha levantada e desdém chocante. (SPYKMAN, 1904, p. 3, tradução nossa)3
3 “Force is manifestly an indispensable instrument both national survival and for the creation of a better world. Yet, at the very moment when the most fundamental values of our civilization are being saved from complet destruction only by the exercise of naked power, studies of the nature of power in international relations and investigations into the strength and weakness of the power position of our own country are met with raised eyebrows and shocked disdain”.
Ao colocar a geografia e a história como elementos imprescindíveis no planejamento estratégico de longo prazo, Spykman retoma a essência do pensamento de Mackinder ao estabelecer que a presença norte-americana na Eurásia será definidora para o futuro dos EUA. (SPYKMAN, 1944) Além disso, os fatores políticos e econômicos, ao lado dos geográficos, também devem ser levados em consideração no momento de reflexão sobre a segurança na- cional dos Estados e seu status quo no mundo. Nos escritos de Spykman, há passagens deterministas quanto à preponderância das dimensões geográficas, e também existem passagens nas quais outros fatores devem ser levados em consideração em uma análise geopolítica. “Em outras palavras, fatores geo- gráficos, econômicos e políticos fazem parte da análise e é somente quando todos os três são examinados que o significado real de tal posição pode ser entendido”.4 (SPYKMAN, 1944, p. 22, tradução nossa)
Tal posição, na qual outros fatores devem ser somados as condições geo- gráficas, revela uma indecisão do autor quanto ao destaque dado à importância dos aspectos geográficos na análise das condições e perspectivas geopolíticas de um determinado Estado. Contudo ele também afirmará que a posição relativa do Estado com relação aos oceanos deve ser considerada como um fator básico no planejamento estratégico.5 (SPYKMAN, 1944)
Mesmo levando em consideração outros fatores de poder além dos as- pectos geográficos, em diversos momentos Spykman (1944) demonstra um determinismo geográfico na sua análise das condições de poder. Um exemplo é quando o geógrafo abordou a distribuição de potencial de poder no globo e determinou que algumas áreas, como o Polo Norte e as regiões próximas do Equador, possuíam climas inóspitos para o desenvolvimento de uma potência industrial e, portanto, essas regiões estariam excluídas de serem consideradas
4 “In others words, geographic, economic, and political factors are all part of the analysis and it is only when all three are examined that the real meaning of such a position can be grasped”.
5 Para saber mais sobre as reflexões de Spykman sobre a importância da posição dos Estados relativas aos oceanos, ver: Spykman (1944).
como “zonas de poder”, tanto no período em que ele escreveu, quanto no fu- turo. (SPYKMAN, 1944, p. 28)
Ao defender a projeção de poder estadunidense para as questões eura- sianas, Spykman passou a projetar quais áreas da Eurásia seriam essenciais para garantir a segurança dos EUA enquanto potencia insular. Por isso, ele vai defender que os EUA e seus aliados intervenham na geopolítica eurasiana com a justificativa de que os acontecimentos na Eurásia podem vir a colocar a segurança nacional norte-americana em risco. (SPYKMAN, 1944)
Apesar de reconhecer os atributos de Mackinder relativos à centralidade da Eurásia na disputa da geopolítica, Spykman discordou do autor inglês no que diz respeito à centralidade da Heartland para a conquista da Eurásia. Spykman achava que o controle da Rimland era a mais eficiente forma de dominação do continente eurasiano. Além disso, Spykman fez uma eficien- te análise da obra de Mackinder ao contextualizar, historicamente, o seu pensamento e os motivos que levaram Mackinder a colocar a Rússia como um adversário inevitável da Inglaterra devido a interpretação relativa ao conflito entre potências continentais e potências insulares. (SPYKMAN, 1944) Ora, Spykman (1944, p. 43) sofisticou essa interpretação da história ao dizer que: “realmente nunca houve uma simples oposição entre poder naval e poder terrestre”. Spykman observou que a Rússia e a Inglaterra foram aliadas nas guerras napoleônicas, na Primeira Guerra Mundial e na Segunda Guerra Mundial, contra outras potências continentais. Spykman também percebeu que em determinados momentos outras potências da Rimland se uniam com a Inglaterra contra a Rússia ou se aliavam com a Rússia contra a Inglaterra. Assim, Spykman (1944) conseguiu abrir um novo leque de op- ções geopolíticas para a posição insular dos EUA frente o xadrez eurasiano, pois segundo esse autor, o cerne geopolítico da disputa entre as potências não estava no controle da Heartland, mas na capacidade de influenciar os países da Rimland.
Figura 1 – Representação da importância das áreas periféricas para o controle geopolítico da Eurásia
Fonte: Spykman (1944, p. 52).
Tanto a figura acima, quanto o fragmento citado na página anterior, de- monstram que Spykman atualizou a teoria desenvolvida por Mackinder e deu uma importância para as áreas periféricas da Eurásia com vistas a atualizar os objetivos estratégicos dos EUA frente a potências continentais como a URSS, a França e a Alemanha nazista. Logo, durante os anos da Guerra Fria, a in- fluência norte-americana na Rimland se tornou uma prioridade, em função da necessidade de contenção da URSS. Assim, alguns games como Supreme Ruler Cold War reproduziram essa dinâmica de disputa geopolítica na sua mecânica e codificação, pois ao tentar reproduzir acontecimentos históricos que aconteceram durante a Guerra Fria, esse tipo de video game reeditou a aplicação dessa doutrina elaborada por Spykman e que foi adotada como política de Estado pelos EUA, como atestam os documentos liberados pelo departamento de Estado norte-americano e que tratam da reorganização da estratégia geopolítica dos EUA no mundo pós URSS: “É improvável que um desafio convencional global para os Estados Unidos e a segurança ocidental
reaparecerá da Heartland da Eurasia durante muitos anos”.6 (UNITED STATES,
1992, grifo nosso)