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Para aprimorar as percepções obtidas da análise de conteúdo aplicou-se a Classificação Hierárquica Descendente (CHD) ao corpus formado com os trechos extraídos de todas as entrevistas. Conforme apresentado na ‎Figura 7, foram identificadas cinco classes com a classificação de 228 dos 292 segmentos (78%). As classes foram organizadas em dois subcorpora.

Figura 7. Classes de palavras

O primeiro subcorpus foi chamado de “Stakeholders Físicos”, reúne duas classes totalizando 42,5% das palavras e estão posicionadas no lado direito do diagrama. A primeira classe contém os influenciadores em nível pessoal, família e amigos, e as redes sociais que, como visto anteriormente, é um canal de

comunicação e não um ator. Na segunda classe estão os atores que oferecem o suporte técnico, a equipe de apoio e os especialistas, e a sociedade, o cidadão e os grupos de interesse. Possivelmente a base eleitoral também esteja incluída nesta última classe, mas é difícil distingui-la pelas palavras isoladas por que ela é um subconjunto do cidadão e se caracteriza pelos mesmos critérios dos grupos de interesse. Os influenciadores desse subcorpus, em sua maioria, utilizam o espaço físico para interagir com os parlamentares. A única exceção é o cidadão cuja principal forma de contato é pelas redes sociais.

O segundo subcorpus foi chamado de “Stakeholders Políticos” porque todos os atores que ele agrupa atuam no espaço político. Ele contém três classes, correspondendo aos restantes 57,5% das palavras classificadas e que intercalam atores humanos e não humanos. A primeira classe contempla o partido, a igreja e o governador. Na segunda estão o parlamentar e o Poder Executivo. Na última classe destacam-se as mídias tradicionais e as lideranças.

Todos os atores têm uma característica em comum: empregam a conformidade normativa como instrumento de influência. Este mecanismo ocorre quando o alvo da influência adota uma posição contrária como forma de obter aprovação ou harmonia social (Cialdini & Goldstein, 2004), comportamento esperado para os atores no jogo político. Há estudo em que a conformidade normativa é considerada uma exclusividade da interação entre humanos (Mahmoodi, Nili, Mehring, & Bahrami, 2019). O presente trabalho, apoiado na ATN, diverge desse entendimento ao identificar efeitos normativos provenientes da igreja e do Poder Executivo, por exemplo (Latour, 1996).

A falta de termos associados às redes sociais nesse segundo subcorpus indica que o espaço político interage com o espaço tridimensional principalmente a partir do contato físico dos atores. As mídias poderiam ser um canal de comunicação importante, mas com a sociedade e não com os agentes políticos. Além disso, na opinião dos entrevistados tais veículos de comunicação têm interesses próprios, aparecendo no processo exclusivamente como um ator.

Além da base eleitoral, outro influenciador não foi associado a qualquer classe: o ordenamento jurídico. Na verdade, as evidências deste ator ficaram diluídas em várias classes, principalmente nas classes do subcorpus “Stakeholders

Políticos”, evidenciando um natural vínculo entre a atuação política e as normas legais definidas principalmente nas constituições e nos regimentos.

A classe com os parlamentares e o Poder Executivo está tão associada à classe de mídias tradicionais e lideranças que não é possível separá-las visualmente. Este embaralhamento reflete a interdependência das atividades. O volume de comunicação tanto online quanto presencial é crescente no ambiente político e o espaço social está em constante mudança (Ercan, Hendriks, & Dryzek, 2019; Tretyakova, Salimov, Sidorova, Ivanishcheva, & Pankratova, 2019). Há uma disputa de poder na relação político/mídia, em um jogo de soma zero, com o lado mais forte se alternando ao longo do tempo (Voltmer & Sorensen, 2019). O poder é influenciado pelo nível de concorrência que cada lado enfrenta. Quando há grande competição entre os veículos de comunicação, eles se tornam mais dependentes dos políticos. De forma similar, a competição política aumenta a dependência da mídia (Baugut, Fawzi, & Reinemann, 2017). As redes sociais virtuais afetam esse equilíbrio. Apesar de não ter sido evidenciada nas entrevistas, as mídias tradicionais interagem com os novos meios de comunicação em padrões complexos e heterogêneos, resultando em um sistema híbrido (Chadwick, 2017).

Outra forma de analisar a estruturação do corpus é com a aplicação da Análise de Similitude, técnica baseada na coocorrência das palavras. Foram identificados nove agrupamentos de palavras, chamados de halos, conforme apresentado na ‎Figura 8. A evidência mais relevante obtida da análise é que os influenciadores utilizam mecanismos diferentes.

No centro está a operacionalização do processo legislativo com a deliberação das matérias (halo 5). O partido tem posição de destaque no acesso ao suporte técnico mesmo para a equipe de apoio do parlamentar (halo 6). O processo legislativo conecta o projeto à estrutura do parlamento. O projeto é resultado da interação de diversos atores: cidadão (halo 7), grupo de interesse (halo 8) e governador, Poder Executivo, ordenamento jurídico e igreja (halo 9). Associados diretamente ao parlamento e aos deputados (halo 3) encontra-se a família e os amigos (halo 4), mídia tradicional (halo 1), lideranças (halos 1 e 3) e especialistas (halos 2 e 4). Novamente não foi possível identificar a base eleitoral.

Figura 8. Conexão das palavras nas entrevistas

Apesar dos grupos de interesse aparecerem explicitamente no halo 8 exercendo a influência no nível do projeto, há também registros deles interagindo no nível do parlamento. O halo 4 contém a palavra “associação” enquanto “sindicato” está no halo 3. Essas evidências sinalizam que, possivelmente, os grupos de interesse estão se ajustando em função da concorrência de agentes que não utilizam as formas tradicionais de representação (Parvin, 2018). Neste caso, eles precisarão ser segmentados por um ou mais critérios visando melhor caracterizá-los. A literatura identifica mudanças na forma de constituição e de operação e no poder de influência em função do grupo representado (Hernández-Aguado & Chilet-Rosell, 2018; Lesschaeve, 2017), da forma de participação (Linssen, Scheepers,

Grotenhuis, & Schmeets, 2018), ou mesmo a natureza da política e o contexto institucional (Varone, Gava, Jourdain, Eichenberger, & Mach, 2018).

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