A delimitação da pesquisa consiste no detalhamento das unidades de coleta pertinentes ao atendimento dos objetivos do trabalho (SAMPIERI; COLLADO; LUCIO, 2009; GERHARDT; SILVEIRA, 2009).
Inicialmente considerou-se estudar uma cadeia de suprimentos específica, entretanto, visando obter dados representativos do setor, foi definida a análise da cadeia produtiva, a qual é uma formação setorial composta pelos elos da atividade, que por sua vez interagem a partir de cadeias de suprimento do setor (MORVAN, 1985; BATALHA, 1997; RAIKES; JENSEN; PONTE, 2000; VIEIRA, 2009).
É sabido que a cadeia produtiva do leite no Brasil compõem-se de elementos situados em diversos estados, que atuam de forma dinâmica, relacionando-se também com agentes e elos internacionais (LEITE BRASIL, 2012; SPERS; WRIGHT; AMEDOMAR, 2013). Contudo, conforme argumentos previamente discutidos neste documento, o Rio Grande do Sul é importante produtor de leite e derivados, sendo a segunda maior região em volume de produção no Brasil (CONAB, 2016). Complementarmente, o estado é foco recorrente das investigações e ocorrências de fraude e contaminação do leite desde 2013 (AL-RS, 2014; FAMURS, 2015; MAPA, 2014b; MPRS, 2016), o que reiterou sua relevância como delimitação para estudo do fenômeno.
Focando especificamente nos agentes a serem pesquisados, a predominância dos eventos de risco de segurança do leite mapeados na literatura referem-se às etapas de extração e transformação - respectivamente, produtor e indústria de laticínios - (MILES et al., 2004; FDA, 2006; ROTH et al., 2008; MARUCHECK et al., 2011; XU, ZHENG, MOTAMED, 2010; LAM et al., 2013; EMBRAPA, 2016) , de modo que fez-se pertinente concentrar os esforços de coleta nestes elos. Esta concentração também é justificada pela complexidade e pelas restrições de exequibilidade de um estudo único que abranja todos os elos da cadeia em diversas cadeias paralelas.
Outro argumento importante para a delimitação refere-se ao contexto estudado. Conforme dados do IGL-RS (2016), existem cerca de 85 mil produtores de leite no Rio Grande do Sul, dos quais, 82.145 propriedades são cadastrados como agricultura familiar e 173 indústrias e agroindústrias de processamento de leite. Corroborando a informação supracitada, o Sindicato da Indústria de Laticínios e Produtos Derivados do Estado do Rio Grande do Sul - Sindilat/RS (2017), órgão representativo do setor, registra 23 grupos de empresas atuando como indústria de transformação de leite no estado do Rio Grande do Sul,
sendo estes os principais agentes deste elo na cadeia produtiva do estado. Desta forma, o número de produtores mostra-se drasticamente superior ao número de empresas industriais atuantes.
Pesquisas sobre cadeias de suprimentos tradicionalmente concentram-se nas empresas focais, frequentemente analisando apenas este ponto de vista e em detrimento das perspectivas dos elos anteriores e posteriores (VAN DER VART; VAN DONK, 2007; GRUDINSCHI; SINTONEN; HALLIKAS, 2014). Logo, abordagens que envolvam pontos de vista de outros elos (como é o caso do produtor) podem contribuir para o enriquecimento da literatura a partir de uma diferente perspectiva dos relacionamentos na cadeia de suprimentos.
Devido a este cenário, a coleta restringiu-se a produtores de leite do estado do Rio Grande do Sul, entretanto com vistas a estudar a díade produtor-empresa de laticínios na cadeia produtiva do leite. Desta forma, embora tenham sido coletados dados apenas a partir de um agente, desenvolveu-se o escopo de pesquisa e respectivo instrumento de forma que fosse possível obter relações acerca da relação diádica.
Foram considerados para a pesquisa os produtores de todo o estado do Rio Grande do Sul e todos os volumes de produção de leite (fator que define o porte da propriedade, sendo assim considerados todos os portes de produtores), desde que a propriedade vendesse para a indústria de laticínios, sendo descartados assim os produtores de leite para consumo próprio ou consumidor final, visto que não representam as relações estudadas. Os dados foram coletados diretamente com os responsáveis das propriedades de produção de leite.
Os produtores foram acessados a partir de parcerias com órgãos de apoio do setor de lácteos. O Instituto Gaúcho do Leite (IGL-RS) e a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado do Rio Grande do Sul (EMATER/RS) contribuíram para o acesso direto ao produtor, a partir da parceria que viabilizou a coleta in loco por agentes da EMATER/RS com experiência anterior em coleta de dados e devidamente treinados e instruídos pela pesquisadora para tal atividade.
Embora a coleta tenha sido realizada em todo o estado do Rio Grande do Sul e com todos os portes de propriedades - e tenha havido preocupação em estabelecer frentes de coleta proporcionais (número de agentes treinados para a coleta de acordo com a concentração de produtores) nas 12 regionais da EMATER/RS (Bagé, Caxias do Sul, Erechim, Frederico Westphalen, Ijuí, Lajeado, Passo Fundo, Pelotas, Porto Alegre, Santa Maria, Santa Rosa e Soledade), que foram consideradas como referência para este estudo - não é possível afirmar que todas as propriedades possuíam a probabilidade mínima de serem selecionadas, conforme requerido para amostragem probabilística (GIL, 2002).
Fatores como proximidade geográfica aos escritórios regionais da EMATER/RS e produtores que historicamente mostram-se mais disponíveis a participar de pesquisas do gênero aplicadas pela EMATER/RS e IGL-RS orientaram a coleta, considerando-se assim uma condição de conveniência neste levantamento e uma limitação à generalização de seus dados. Define-se então a amostragem como não-probabilística por conveniência, na qual os dados não são amplamente generalizáveis e deve haver ponderações em sua extrapolação para a população (GIL, 2002).
Mesmo em amostras não-probabilísticas, deve-se atentar para o poder de estatístico ou poder de explicação de uma amostra acerca de um fenômeno (HAIR et al., 2009). Assim, deve-se estabelecer um número mínimo amostral que viabilize que os indivíduos ou casos estudados possam, minimamente em si, explicar o fenômeno, dentro de níveis aceitáveis de significância (GIL, 2002; HAIR et al., 2009).
Considerando a amostra definida como um grupo único e considerando nível mínimo de significância planejado a 5%, conforme recomendado por Hair et al. (2009), estimou-se uma amostra de 150 respostas válidas considerando a referência genérica do autor, embora sabido que este número limita o potencial de explicação do fenômeno e quanto maior o número de respondentes obtido, maior seria o poder estatístico de explicação do comportamento dos construtos estudados.
Durante o processo de coleta, a chancela dos órgãos de apoio foi fundamental para a obtenção das respostas. Entretanto, constatou-se forte resistência do público-alvo em responder à pesquisa por receio de exposição, ônus ou comprometimento que gerasse qualquer tipo de penalidade posterior. Tal cenário era esperado, visto que o tópico de estudo discorre sobre eventos de risco, dentre os quais contaminação e fraude e o fator humano já havia sido mencionado por Braden (2014) como uma das dificuldades de levantamento de dados sobre o tema.
Na seção a seguir será detalhado o referido instrumento de coleta, sua composição, bem como seu processo de validação.