Acentuamos, pois, que a compreensão filosófica que no filosofar hermenêutico re-pete os questionamentos fundamentais da tradição e que estão imbuídos de possibilidades possíveis de ser não tem diante de si um objeto, mas consigo a própria existência em questão. O modo como podemos caracterizar este ter consigo a própria existência em questão tem o caráter da relação com a alteridade, que, desde dentro do próprio passado histórico, apela à atualidade, a fim de que a mesma assuma a responsabilidade pelo seu próprio existir, o qual se projeta historicamente, e do qual se faz exigido a interpretação compreensiva crítica de um determinado projeto histórico num determinado tempo. Em contrapartida, a compreensão objetual carrega consigo ainda outra dificuldade, além da que acima expomos, a respeito do modo do compreender hermenêutico como projeto de ser, que está em jogo nos
questionamentos passíveis de serem re-petidos e que não recai dentro da relação sujeito- objeto. Trata-se do problema da compreensão do horizonte da temporalidade que este compreender traz consigo.
Ao se referir à possibilidade da retomada e re-petição das questões envolvidas em projetos filosóficos desenvolvidos no passado, uma determinada compreensão do tempo cronológico volta a ser acentuada, e no nosso entender pode do mesmo modo obnubilar a possibilidade genuína de uma compreensão do modo filosófico hermenêutico de pensar, o qual pretende questionar historicamente a partir da re-petição dos questionamentos antigos, numa abertura às possibilidades herdadas. Uma tal visão ainda está presa ao problema da relação sujeito-objeto.
Para falar de uma maneira bastante concreta, o interpretar filosófico que se volta para os questionamentos colocados no passado e para os projetos possíveis que eles trazem consigo se constitui num diálogo com o passado da historicidade própria, e isto deve concretamente significar, com aqueles através dos quais os questionamentos foram colocados em movimento, os filósofos que interrogam e seus projetos como tais. Se compreendermos esse diálogo com o passado como um interpretar de caráter inobjetual, isto é, que não se determina dentro da relação sujeito-objeto, tem ele, contudo, um caráter apenas subjetivo? Ou melhor, dizemos que é inobjetual simplesmente porque se trata de uma relação de sujeitos que estão em diálogo, mas, contudo, separados por uma distância temporal? Que significado ganha aqui o problema da distância temporal, ou do contexto de reflexão do indivíduo que filosofa num tempo diferente daquele em que se acha encontrado o intérprete, ou o todo da tradição em torno de um determinado projeto que se perfaz no decorrer do tempo na história?
Aqui percebe-se num relance que o tempo se faz de novo compreendido numa estrutura linear em que fatos históricos acontecem. É contudo neste modo que geralmente se formula o problema da correspondência da interpretação à historicidade do que se compreende.
Em sua hermenêutica filosófica Gadamer tematiza o problema da distância temporal. Ele a concebe como fundo de reserva produtiva, que a tradição, através dos preconceitos, carrega consigo, e o torna objetivamente disponível de maneira positiva ao intérprete.
Distinguindo-se da compreensão da teoria hermenêutica romântica, que “pensava a compreensão como a reprodução de uma produção originária”3, Gadamer enfatiza a
3
H.-G. Gadamer. Verdade e Método. op. cit., p. 443. No original: „Wir erinnern uns, daß dort das Verstehen als Reproduktion einer ursprünglichen Produktion gedacht war.“ H. G. Gadamer, Wahrheit und Methode, op. cit., p. 301.
importância da insuperável distância temporal ou histórica no sentido de que por conta dela torna-se possível o fato de que:
Cada época tem de entender um texto transmitido de uma maneira peculiar, pois o texto forma parte do todo da tradição, na qual cada época tem um interesse pautado na coisa e onde também ela procura compreender-se a si mesma. O verdadeiro sentido de um texto, tal como este se apresenta ao seu intéprete, não depende do aspecto puramente ocasional que representam o autor e seu público originário. Ou pelo menos não se esgota nisso. Pois esse sentido está sempre determinado também pela situação histórica do intérprete, e, por conseqüência, por todo processo objetivo histórico.4
E assegura ainda que um tal processo objetivo histórico, que através do todo objetivado da tradição amplia o horizonte de sentido, só se faz possível em virtude do fato da distância temporal, na medida em que:
O tempo já não é mais, primariamente, um abismo a ser transposto porque divide e distancia, mas é, na verdade, o fundamento que sustenta o acontecer, onde a atualidade finca suas raízes. A distância de tempo não é, por conseguinte, algo que tenha de ser superado. Esta era, antes, a pressuposição ingênua do historicismo, ou seja, que era preciso deslocar-se ao espírito da época, pensar segundo seus conceitos e representações em vez de pensar segundo os próprios, e somente assim se poderia alcançar a objetividade histórica. Na verdade trata-se de reconhecer a distância de tempo como uma possibilidade positiva e produtiva do compreender. Não é um abismo devorador, mas está preenchido pela continuidade da herança histórica e da tradição, a cuja luz nos é mostrado todo o transmitido. Não será exagerado, se falarmos aqui de uma genuína produtividade do acontecer.5
Este modo de abordagem da produtividade do horizonte histórico temporal para o intérprete se desinibe da compreensão que vê na distância temporal um obstáculo para a interpretação, mas se mantém, contudo, numa concepção do tempo que ainda não se desinibe
4 Ibidem, p. 443s. No original: “Eine jede Zeit wird einem überlieferten Text auf ihre Weise verstehen müssen,
denn er gehört in das Ganze der Überlieferung, an der sie ein sachliches Interesse nimmt und in der sie sich selbst zu verstehen sucht. Der wirkliche Sinn eines Textes, wie er den Interpreten anspricht, hängt eben nicht von dem Okkasionellen ab, das der Verfasser und sein ursprüngliches Publikum darstellen. Er geht zum mindesten nicht darin auf. Denn er ist immer auch durch die geschichtliche Situation des Interpreten mitbestimmt und damit durch das Ganze des objektiven Geschichtsganges.“ Ibidem, p. 301.
5 Ibidem, p. 445. No original: “Nun ist die Zeit nicht mehr primär ein Abgrund, der überbrückt werden muß, weil
er trennt und fernhält, sondern sie ist in Wahrheit der tragende Grund des Geschehens, in dem das Gegenwärtige wurzelt. Der Zeitenabschnitt ist daher nicht etwas, was überwunden werden muß. Das war vielmehr die naive Voraussetzung des Historismus, daß man sich in den Geist der Zeit versetzen, daß man in deren Begriffen und Vorstellungen denken solle und nicht in seinen eigenen und auf diese Weise zur historischen Objektivität vordringen könne. In Wahrheit kommt es darauf an, den Abstand der Zeit als eine positive und produktive Möglichkeit des Verstehens zu erkennen.“ Ibidem, p. 302.
de seu caráter cronológico acumulativo. Ela se torna interessante e importante para uma compreensão da atividade hermenêutica em geral, mas não avança, se é que pretendia, em direção do sentido da temporalização da temporalidade da historicidade própria que antecipa e re-pete as possibilidades herdadas. Ela não leva em conta esse aspecto decisivo da de-cisão antecipadora ressaltada por Heidegger. Entendemos que ela ainda parece orientar-se por uma representação historiográfica ou ordenação cronológica da história, em cujo horizonte de observação, como diz Heidegger, “só se considera a representação mais exterior do tempo mediante a sua representação cronológica”6.
Entendemos que, a partir de Heidegger, ainda não se tornaria possível, segundo essa representação do tempo, compreender propriamente o significado da experiência da re-petição capaz de retomar, através do questionar, uma possibilidade herdada, pois não se pensaria, como ele diz, “no modo do envio, da antecipação e da experiência da destinação histórica”7, experiência esta que se traduz propriamente numa reabertura do decisivo nos questionamentos do passado, desde dentro do próprio movimento de decisão por retomá-lo e que, na medida em que o faz, já recuperou o que nestes questionamentos é decisivo e já não conhece distância temporal, seja esta pensada como obstáculo ou como fundo de reserva produtiva. O
distanciamento temporal acontece no sentido de que em tal atitude o próprio tempo do ser-aí,
que interpreta a partir da re-petição do questionamento e da posição decisiva em questão, se
distende temporalmente no re-projetar compreensivo, que antecipa e re-pete a possibilidade
herdada e torna a resguardar no porvir da destinação hitórica uma resposta ao questionamento levantado no engajamento por colocá-lo, uma vez que, como diz Heidegger, só essa destinação histórica “pode acolher o passado vigente”8, esse que “nos precede e acede, numa misteriosa virada”9, na medida da decisão pela recolocação de um questionamento decisivo, que antecipa e re-pete a possibilidade herdada e a re-projeta no porvir. Por isso ela só é preparatória de uma possibilidade futura de ser, por mais que esta tenha já suas raízes fincadas há muito tempo como possibilidade de ser do ser-aí no modo como ele se encontra face e em relação ao ente na totalidade, e que é a um só tempo passível de ser esquecida como possibilidade e passível de ser transmitida na re-petição como possibilidade herdada.
Este movimento possível que acontece na temporalização da temporalidade da historicidade própria do ser-aí já se fazia pensado por Heidegger desde antes de Ser e Tempo
6 M. Heidegger. Heráclito. Tradução brasileira de Márcia Sá Cavalcante Schuback. Rio de Janeiro: Relume
Dumará, 1998, p. 93.
7
Ibidem, p. 93.
8 Ibidem, p. 30. 9 Ibidem, p. 57.
como fundamento da possibilidade de acesso à história, e que ele fez questão de assegurar na sua conferência Der Begriff der Zeit como tese fundamental de toda hermenêutica nos seguintes termos: “A possibilidade de acesso à história se funda na possibilidade segundo a
qual uma atualidade compreende a cada vez ser futuramente. Esta é a tese primária de toda hermenêutica”10. Tendo acrescentado ainda que esta tese diz algo sobre o ser do ser-aí mesmo, este que é a historicidade mesma e que a “filosofia nunca chegará a vir ao encontro do que a história é, enquanto analisá-la como objeto de contemplação e tratamento por um determinado método”11. Para Heidegger acabara por se tornar claro que, na medida em que “o enigma da história repousa nisso que se chama de ser histórico”12, a própria filosofia ela mesma só pode compreender o acontecer histórico na medida em que ela mesma aconteça como história. Isso é o que acabou por se tornar decisivo para Heidegger.
2.3. A co-respondência como possibilidade de manter a filosofia sob a tarefa de questionar